Aberturas e proibições. O paradoxo das mulheres preocupa a Igreja

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04 Agosto 2020

"O acesso das mulheres aos vértices da Igreja depende de dois jogos distintos e entrelaçados. O primeiro diz respeito à história, onde os reformadores, fontes disponíveis, buscam precedentes e legitimação. O segundo jogo diz respeito às palavras e conceitos-chave da ordenação sacramental, do sacerdócio comum e ministerial, do poder da ordem e de governo", escreve Marco Ventura, em artigo publicado por La Lettura, 02-08-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Querem mulheres nos vértices da Igreja Católica? Das duas uma: ou o princípio é invertido, caro ao Concílio Vaticano II, segundo o qual aqueles que receberam a ordem sagrada governam a Igreja, ou a ordenação feminina é admitida.

Na semana passada, o presidente da conferência episcopal francesa Éric de Moulins-Beaufort preconizou a presença de mulheres no colégio de cardeais e, portanto, implicitamente pediu uma derroga ou modificação do Código de Direito Canônico, para o qual devem coincidir o poder de jurisdição do cardeal e o poder de ordem do bispo.

Na frente da ordenação feminina, em maio passado, o novo presidente dos bispos alemães Georg Bätzing, especificou que a proibição canônica de ordenação feminina "não significa que não possamos sequer falar sobre isso". Também em maio, pela primeira vez, uma mulher se candidatou ao episcopado.

Anne Soupa, 73 anos, se apresentou para a sucessão do arcebispo renunciatório de Lyon, o polêmico cardeal Philippe Barbarin. “Há 35 anos - ela declarou – estou em campo como estudiosa da Bíblia, teóloga jornalista, escritora: tudo isso me permite considerar-me capaz de candidatar-me ao cargo de bispo. Tudo me legitima. Mas tudo me proíbe”.

De fato, a proibição é muito firme e frágil, principalmente por causa de sua recente formulação. Embora fundamentado na tradição e na palavra e pessoa de Cristo (modelo masculino de todo ministro que parte o pão e serve o vinho), por mais que o direito divino seja subtraída do poder da autoridade eclesiástica, o não ao sacerdócio feminino em sua fórmula atual tem apenas 25 anos.

Foram as primeiras ordenações femininas na Igreja da Inglaterra, em 1994, que levaram João Paulo II a cristalizar a proibição na carta apostólica Ordinatio sacerdotalis daquele mesmo ano. Não é de surpreender que, apesar de um não tão absoluto, o debate tenha inclusive aumentado, e que os papas subsequentes, Bento XVI em 2012 e Francisco no ano seguinte, sentissem que precisavam reafirmar o que se dizia ser a última palavra em 1994.

Até que em 2018 a Congregação para a Doutrina da Fé refutou em um novo documento "algumas dúvidas sobre o caráter definitivo da doutrina" de 1994. Enquanto em 2019 as ordenações femininas da Igreja da Inglaterra excederam pela primeira vez as ordenações masculinas e mulheres sacerdotes alcançavam um terço do total, a questão permanecia em aberto entre os católicos.

Em 2016, o Papa Bergoglio instituiu uma comissão de estudos sobre o diaconato de mulheres que não resultou em nada em vista do Sínodo sobre a Amazônia de 2019.

Em 8 de abril passado, o Papa instituiu uma nova comissão presidida pelo bispo de L'Aquila. Aqueles que sentem necessidade de mudança e sentem que os tempos estão maduros multiplicam suas energias e criatividade. A revista mensal "Confronti" dedicou uma edição especial à questão na edição de julho/agosto. A comunidade cristã de base de San Paolo, em Roma, bastião do dissenso católico, publicou um volume em maio que resume ideias e estratégias de renovação sob o título Madalena e as outras. A Igreja, as mulheres, os ministérios na vivência de uma história.

A editora veronense Gabrielli, por sua vez, publicou uma obra editada por Paola Cavallari e com prefácio de Lilia Sebastiani, na qual vários autores se questionam sobre as mulheres na Igreja (Não são a costela de ninguém. Leituras sobre o pecado de Eva, com textos de Gianpaolo Anderlini, Carlo Bolpin, Paola Cavallari, Lídia Maggi, Paolo Ricca, Brunetto Salvarani e Letizia Tomassone).

Lançada em fevereiro passado, a obra vendeu imediatamente 500 cópias da tiragem, apesar do fechamento das livrarias imposto pela Covid, e já está em sua primeira reimpressão.

Enquanto isso, Lucetta Scaraffia, autora já em 2016 pela editora Marsilio de um livro sobre os ministérios femininos na Igreja traduzido para francês, espanhol e holandês (Do banco do fundo. A Igreja, as mulheres, o Sínodo) dedica um romance recém-publicado pela mesma editora às mulheres ignoradas e sujeitadas por uma hierarquia aterrorizada em La donna cardinale (título do livro).

O acesso das mulheres aos vértices da Igreja depende de dois jogos distintos e entrelaçados. O primeiro diz respeito à história, onde os reformadores, fontes disponíveis, buscam precedentes e legitimação. O segundo jogo diz respeito às palavras e conceitos-chave da ordenação sacramental, do sacerdócio comum e ministerial, do poder da ordem e de governo.

A questão do diaconato e do cardinalato se inscrevem aqui, e parecem oferecer espaço de manobra para interpretações criativas, mesmo que no momento no direito canônico permaneçam claramente reservados aos homens. Se de fato os cardeais não podem não ser bispos, o diaconato é o primeiro grau de uma ordem sagrada totalmente fechada para as mulheres.

O jogo é sutil. Por um lado, a autoridade romana convida as mulheres a um papel cada vez mais ativo e amplo e inova o léxico do sacerdócio para responder às suas demandas, mas também aos escândalos sexuais e à crise das vocações; na exortação sucessiva ao Sínodo sobre a Amazônia, o Papa Francisco invocou uma "inculturação da ministerialidade" e pediu que as mulheres "tivessem um impacto real e efetivo na organização, nas decisões mais importantes e na direção das comunidades", sem, contudo, ainda nas palavras Francisco, que isso levasse a "clericalizar as mulheres".

Por outro lado, os reformadores invocam as mulheres cardeais e as mulheres ordenadas, justamente como formas de inculturação e luta contra um clericalismo patriarcal desconhecido do cristianismo primitivo e estranho a uma correta teologia do governo eclesial e do sacerdócio ministerial.

As Nações Unidas estão agora agindo nas duas frentes, em um documento sobre igualdade de gênero de fevereiro passado, declarando guerra à proibição das mulheres de exercerem o poder nos direitos religiosos.

A Santa Sé protestou vigorosamente contra um uso dos direitos humanos que poderia mudar o jogo. Está fora da Igreja, o melhor aliado, ou pior inimigo, daqueles que lutam pelas mulheres no governo.

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