Dioceses alemãs afirmam que o Vaticano nutre o “medo da visibilidade dos leigos” em nova instrução pastoral

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24 Julho 2020

Dioceses alemãs acusam o Vaticano de nutrir o “medo fundamental da visibilidade dos leigos” em sua nova instrução sobre vida paroquial.

Status quo cementado” em documento que perde de vista a realidade.

A reportagem é de Cameron Doody, publicada por Novena News, 21-07-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Que as autoridades romanas estão com medo de que os leigos ocupem um lugar mais destacado na vida da Igreja local é a sensação que o presidente do Conselho Diocesano de Berlim, Bernd Streich, admitiu ter tido após a leitura do texto publicado segunda-feira, 20 de julho, pela Congregação para o Clero, intitulado “A conversão pastoral da comunidade paroquial a serviço da missão evangelizadora da Igreja”.

Em texto reproduzido no sítio eletrônico de notícias katholisch.de, da Conferência Episcopal Alemã, Streich diz que não é apenas “o status quo cementado” do novo documento da Congregação para o Clero, mas também que o seu texto “fica aquém da realidade de uma cooperação, centrada no carisma, entre leigos e clérigos em muitas paróquias e comunidades”.

Apesar do fato de que, agora, o Vaticano reforçou a autoridade dos padres na paróquia e pôs fim às abordagens inovadoras e situacionalmente adequadas, Streich acha que o órgão que ele preside está feliz porque em muitos lugares o acompanhamento pastoral e os trabalhos que exigem protagonismo são compartilhados entre leigos e clérigos.

“Os leigos são mais do que substitutos temporários ou simples assessores. Eles garantem a vida de Igreja e levam a boa nova através de seu testemunho”, completou Streich.

Vigário geral da Diocese de Speyer: a corresponsabilidade dos leigos e do clero “não é ameaça”, mas oportunidade

Streich não é o único na Alemanha que protestou contra o novo documento do Vaticano.

Segundo o katholisch.de, o vigário geral da Diocese de Speyer, Andreas Sturm, igualmente criticou o documento, dizendo que ficou decepcionado com que “as tentativas das dioceses, de lidar construtivamente com a falta de padres e encontrar novas formas de acompanhamento pastoral, estejam recebendo um apoio tão pequeno de parte da Congregação para o Clero”.

Sturm afirmou que, para ele, o trabalho conjunto entre leigos e padres, de dividir as responsabilidades nas paróquias – possibilidade excluída pelo Vaticano na nova instrução –, “não é uma ameaça, mas uma oportunidade para as paróquias e para os padres”.

A divisão dos deveres dos padres com os diáconos, religiosos e leigos fortalece a unidade em uma congregação e injeta pontos de vista diferentes em uma paróquia. Além disso, deixar tudo sob a responsabilidade do padre – com o Vaticano propõe – tende a promover o sentimento de sobrecarga de trabalho (a síndrome de burnout) entre os que são ordenados ao sacerdócio, lamenta o vigário geral.

A Diocese de Trier, já disciplinada por Roma, se vê encorajada com o novo texto

Sturm disse que, após reduzir o número de paróquias na Diocese de Speyer há alguns anos, ela não buscava passar por uma reestruturação. Ele alertou que, mesmo com o número reduzido de congregações, a Igreja local ainda enfrenta a escassez de padres e de agentes pastorais.

Entretanto, nas dioceses em que já estão em andamento reestruturações paroquiais ambiciosas, a reação à instrução da Congregação para o Clero foi igualmente intensa, com a Diocese de Trier, por exemplo, lamentando que as novas disposições para os bispos e as paróquias “não nos surpreendem”.

O bispo de Trier, Dom Stephan Ackermann, e seus colaboradores tiveram acesso prévio à instrução em 5 de junho, quando foram convocados a Roma para explicar o seu plano – contestado por leigos e clérigos da diocese – de fundir as 887 paróquias diocesanas em 35.

Nesse encontro de junho com representantes da Diocese de Trier, as autoridades vaticanas estabeleceram limites para uma reestruturação paroquial – que incluía a reafirmação da autoridade dos padres –, limites que a diocese observou, em comunicado à imprensa publicado na segunda-feira desta semana, eram bastante semelhantes àqueles presentes na instrução recém-lançada.

“Com a instrução, as condições básicas para uma reforma paroquial estão claramente demarcadas”, reconheceu a Diocese de Trier.

No entanto, o bispo e seus colaboradores disseram que se sentem encorajados pela nova instrução a continuar com o planto do Sínodo Diocesano para 2013-2016 de reformar a diocese e dar-lhe uma “orientação missionária e diaconal”.

Com a ajuda contínua das ideias apresentadas neste sínodo, que pediu pela redução das paróquias, queremos “individualizar prospectivas que permitam renovar as estruturas paroquiais ‘tradicionais’ em chave missionária”, lê-se no texto publicado pela Diocese de Trier, citando o parágrafo 20 da instrução da Congregação para o Clero.

Decepção e irritação com o processo de reforma do Caminho Sinodal

Em reportagem sobre as reações das dioceses alemãs ao documento da Congregação para o Clero, o sítio katholisch.de observou que muitas igrejas locais relutaram, por enquanto, em comentar o texto, preferindo estudá-lo em profundidade primeiro.

No entanto, é provável que a repressão presente na instrução vaticana à corresponsabilidade entre leigos e clérigos pelas paróquias provoque uma frustração generalizada na Igreja alemã, que atualmente realiza um processo de reforma chamado Caminho Sinodal, que tem refletido sobre algumas mudanças na doutrina e na prática católicas, precisamente na questão do poder, da participação, da separação de poderes na Igreja e da forma de vida sacerdotal, entre outros temas.

O fato de o Vaticano ter agora disparado sua arma contra essas questões provavelmente irá gerar decepção e irritação.

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