Revisitando a questão do “ministério”

Foto: Pixabay

15 Julho 2020

"A noção de que as mulheres, enquanto tais, podem ser excluídas do ministério com base em um apelo histórico pragmático (por exemplo: “Jesus não ordenou mulheres” – supondo que uma tal visão pré-crítica de “história” tenha algum valor) não leva em conta o papel fundamental do batismo em toda a existência e ação cristã", escreve Thomas O’Loughlin, padre da Diocese de Arundel e Brighton, na Inglaterra, e professor de teologia histórica da Universidade de Nottingham. Seu mais recente livro intitula-se Eating Together, Becoming One: Taking Up Pope Francis’s Call to Theologians (Liturgical Press, 2019), em artigo publicado por La Croix International, 13-07-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

 

Eis o artigo. 

 

“Precisamos revisitar a questão dos ministérios na Igreja”, diz Anne-Marie Pelletier em artigo publicado em 25 de junho no sítio La Croix International e Isaque Gomes Correa.

 

Como seria essa tal revisita? Revisitar a questão dos ministérios faz surgir algumas dúvidas que podem causar um grande dano ao status quo, além daquelas poucas mudanças no Código de Direito Canônico imaginadas pelos bispos que se mostram dispostos a considerar a questão.

 

Onde nos encontramos atualmente?

 

Basta estarmos entre um grupo de católicos hoje e, em poucos minutos, alguém mencionará que sua diocese ou região está passando por uma “reorganização”. Dirá que está havendo fusões entre paróquias, que ministros ordenados estão sendo redistribuídos minuciosamente entre as comunidades e que o acesso às atividades eucarísticas foi reduzido.

 

Às vezes, esse processo recebe um nome elegante derivado de analogias do mundo dos negócios. Por exemplo, dizem que as paróquias estão “diminuindo de tamanho”, o que não oculta a realidade de que esse movimento tem sido impulsionado por dois fatores principais: que cada vez há menos presbíteros e que os presbíteros estão envelhecendo.

 

Além disso, há poucas perspectivas de que essa situação se resolva tão cedo, mesmo com o acréscimo de presbíteros da África e da Índia.

 

Sessão do Concílio de Trento (Foto: Wikimedia Commons CC)

 

Para responder a esse cenário, precisamos refletir sobre os fundamentos do ministério e não apenas imaginar que aquele paradigma ministerial da Igreja Católica, desde o começo do século XVII, seja imutável ou, de algum modo, ideal.

 

Em lugar de ser ideal, este paradigma foi, pelo contrário, uma resposta pragmática à Reforma. Quanto à visão do “sacerdócio” (sacerdotium) de Trento, esta este foi percebida como uma rebelião liderada por autoridades que deveria ser impedida de se repetir.

 

Ministério litúrgico

 

Toda religião, e toda denominação cristã, tem líderes religiosos, e estes assumem o papel principal em seus rituais. Além disso, um ritual requer perícia, e a quantidade de perícia necessária é geralmente uma função direta da duração da tradição lembrada do grupo.

 

Mas existe um modelo binário em ação aqui: de um lado, um único ministro ou um grupo pequeno de ministros que atuam, lideram, pregam, falam, ensinam, e, à frente deles, um grupo muito maior que frequenta, ouve e recebe o ministério. Vemos esse modelo resumido na afirmação: “O clero administra os sacramentos”. Temos, aqui, um modelo valioso e grandemente apreciado, pois se encaixa bem ao lado de outros prestadores de serviços especializados na sociedade (por exemplo, os médicos que prestam assistência médica para o restante da comunidade, ou os contabilistas que prestam serviços financeiros).

 

 

Portanto, os ministros religiosos que atuam em tempo integral se alinham de acordo com a sociedade e, muitas vezes, de acordo com eles mesmos, junto desses outros especialistas. Como a sociedade precisa de um serviço de capelania, temos uma justificativa para o clero e para o ministério litúrgico na sociedade.

 

Discipulado como serviço comunitário

 

Em forte contraste com essas noções altamente estruturadas de ministério e sacerdócio, Jesus não era um levita; seu ministério pouco lembrava os sistemas formais de especialistas religiosos, e quando essas estruturas foram lembradas (por exemplo, Lc 10,31-32; Jo 4,21), foram também objeto de crítica ou apresentadas como transitórias.

 

Mais que isso, embora Jesus tenha sido apresentado como alguém que nomeou mensageiros / pregadores (apóstolos), não há indicativo algum de que estes fossem considerados especialistas em rituais.

 

Nas várias igrejas primitivas surgiram líderes e com nomes variados. Por exemplo, houve os “anciãos” (presbuteroi) ou “superintendentes ajudantes” (episkopoikaidiakonoi), originalmente um nome duplo para uma única pessoa que, mais tarde, dividir-se-ia em duas fileiras: bispo e diácono.

 

 

Mas levou gerações (até o final do século II, em contradição com os livros mais antigos que sabemos agora que Inácio de Antioquia escreveu depois de 160 d.C.) para que esses padrões se harmonizassem entre as comunidades e, depois, fossem sistematizados em estruturas de autoridade.

 

Não há nada a sugerir, nos documentos do primeiro século, que o protagonismo nos dois principais eventos comunitários – o batismo e a Eucaristia – tenha se restringido, de alguma forma, aos que atuavam como líderes comunitários e, muito menos, a um grupo especialmente autorizado.

 

A associação entre a) a liderança de uma comunidade e b) a presidência na refeição eucarística (associação que levaria, muito mais tarde, a refletir-se sobre o ministério e que, ainda hoje, é fonte importante de divisão cristã) só seria forjada no terceiro século. E, de novo, só mais tarde seria construída por Jesus “a história de sua instituição”.

 

A Igreja na sociedade

 

É uma ilusão de longa data das várias denominações cristãs que um estudo da história – particularmente sobre os primeiros séculos e os textos desses tempos que se consideravam pertencer ao cânone do Novo Testamento – forneceria um modelo para o ministério (por exemplo, “a estrutura tripartite da ordem”: bispo, presbítero, diácono) ou uma resposta conclusiva para dúvidas relacionadas com o ministério surgidas em situações posteriores (como, na época da Reforma, que o “poder” pode ser visto como vindo de Cristo ao sacerdote, ou sobre se uma mulher pode presidir a Eucaristia atualmente).

 

Temos aqui uma busca ilusória, pois tal dúvida é vítima do anacronismo inerente a todos os apelos a um momento original perfeito, um período imaginado no passado em que tudo foi revelado (pelo menos, in nuce).

 

Essa busca pressupõe também que o ministério, como viria a se desdobrar mais tarde, não resultava de forças múltiplas e, por vezes, conflitantes das sociedades em particular; pressupõe também não ser o resultado de adaptações dos cristãos a estruturas religiosas herdadas.

 

 

Assim, por exemplo, durante grande parte da história cristã, o sistema clerical, dentro do qual estava/está o ministério litúrgico, se relacionou originalmente com as necessidades políticas da Igreja como um órgão público dentro do Império Romano.

 

Dado que não havia um plano “original” para o ministério litúrgico da Igreja e, como resultado de séculos de disputas, existem muitas visões conflitantes sobre o que constitui alguém dentro do ministério, resulta praticamente impossível, exceto dentro dos espaços míticos de denominações particulares, produzir uma base sistemática para o ministério litúrgico.

 

No entanto, visto que o ministério existe e se faz necessário, é possível estabelecer alguns critérios que podem ajudar as pessoas e as comunidades no desenvolvimento de uma teologia pragmática do ministério litúrgico.

 

Critérios para o ministério

 

a) Todo ministério específico é uma variação particular do ministério de todos os batizados, e no batismo há uma igualdade radical. “Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gálatas 3,28).

 

Esta igualdade radical é uma característica da nova criação trazida à existência em Cristo.

 

Portanto, quaisquer distinções subsequentes, tal como aquela segundo a qual alguns ministérios não se abrem potencialmente a toda pessoa batizada, equivalem a uma teologia defeituosa do batismo pelo qual todo ministério é criado.

 

Portanto, fazer de exigências novas por “sinais” de eleição divina particular (por exemplo, ser capaz de falar em línguas ou lidar com cobras) indicativos de aptidão para o ministério contradiz a dispensação encarnacional vista no batismo.

 

 

Da mesma forma, os regulamentos que restringem o ministério a estados particulares de vida (por exemplo, a exigência do celibato como condição para o presbiterado) precisam ser vistos como uma preocupação indevida com o status de certos ministérios. Eles implicam que o batismo é meramente um requisito básico de entrada no cristianismo, e não aquilo que cria a nova pessoa que pode ministrar, e nessa nova criação tais distinções inexistem.

 

De maneira semelhante, a noção de que as mulheres, enquanto tais, podem ser excluídas do ministério com base em um apelo histórico pragmático (por exemplo: “Jesus não ordenou mulheres” – supondo que uma tal visão pré-crítica de “história” tenha algum valor) não leva em conta o papel fundamental do batismo em toda a existência e ação cristã.

 

b) Devemos também respeitar a consciência de que toda ação e ministério dos cristãos é cristão em sua natureza.

 

Os cristãos formam um povo, um povo sacerdotal. Muitas vezes, nós perdemos, e frequentemente o perdemos com demasiada facilidade, de vista o fato de que os cristãos devem pensar sobre sua liturgia de um modo que se oponha radicalmente àquilo que se encontra comumente em outras religiões, como um “serviço religioso” devido a Deus ou a deuses.

 

Nesse paradigma, o divino é o oposto do mundo no qual vivemos e para o qual algo é devido, apresentado ou transferido, e isso constitui um modo de contato com o reino divino, o que pode constituir uma dívida de lealdade / louvor / petição ou apaziguamento.

 

 

Fazer esta conexão, seja por uma pessoa, seja por um grupo, pressupõe um conhecimento técnico e certa habilidade sagrada – normalmente o trabalho de um sacerdócio especial – tais que o divino reconhece que a ação realizada é o feito sagrado apropriado.

 

Os cristãos, pelo contrário, concebem a prática de adoração com base no fato de que o padre vem a eles e que está com eles enquanto comunidade.

 

Portanto, onde dois ou três estiverem reunidos em nome de Jesus, ele está aí no meio deles (Mateus 18,20), e assim suas ações em conjunto – como a de celebrar uma refeição – ocorrem na presença do Pai, porque Cristo, presente entre eles, é sempre o seu Sumo Sacerdote.

 

Essa visão teológica tem implicações importantes para os cristãos em particular que se encontram realizando ações, desempenhando ministérios específicos na Igreja.

 

No cristianismo, o ministério é da comunidade inteira.

 

Linguagem e ministério sacerdotal

 

Vale igualmente lembrar que a linguagem nos engana no entendimento, em especial, do “ministério sacerdotal”.

 

O cohen do Antigo Testamento, que traduzimos pela palavra “sacerdote”, desempenhava tarefas especiais em nome dos demais em Israel (ver: Levítico e Números).

 

Na Septuaginta, traduziu-se essa palavra por hiereus – palavra comumente empregada para autoridades de templos pagãos – e, mais tarde, no latim, por sacerdos, era um termo genérico que cobria todos os vários “sacerdócios” especiais do templo, tais como flamenes e pontifices.

 

Os primeiros cristãos não usavam estas palavras para se referirem a seus líderes: hiereus /sacerdos pertenciam unicamente a Jesus no templo celestial. Os líderes cristãos eram designados pela relação que tinham com a comunidade: como aqueles que a supervisionavam, lideravam ou serviam.

 

 

Mais tarde, a linguagem hiereus / sacerdos foi absorvida e se tornou a base das percepções dos cristãos sobre os seus presbíteros. Portanto, a nossa palavra “sacerdote” [priest, em inglês] deriva etimologicamente da palavra “presbitério”, mas conceitualmente relaciona-se com as funções sacerdotais.

 

Tendo isso ocorrido, foi preciso perguntar o que fazia deles diferentes e que qualidade religiosa especial tinham que os demais não possuíam. A resposta veio com a noção de um poder de “consagrar” e, em seguida, este poder (ele próprio sujeito à inflação retórica) tornou-se a base da “diferença ontológica” entre eles e os “cristãos ordinários”, cujo ministério é “rezar, pagar e obedecer”.

 

Após mais de um milênio e meio dessas confusões no cristianismo, tanto no Oriente quanto no Ocidente, é bastante difícil para os que se enxergam como “ministros” em uma igreja – especialmente aquelas com liturgias sacerdotais elaboradas – libertarem-se desta bagagem.

 

A tradição pode ser como um grande navio petroleiro realizando uma curva no mar: demora para superar a inércia e para o navio responder ao leme.

 

Por onde começar?

 

Em toda comunidade, existem aqueles que possuem as habilidades que uniram o grupo e lhe deram uma identidade. A tarefa é reconhecer estes ministros reais e facilitar-lhes para que tornem este ministério mais eficiente e frutífero.

 

Inácio de Antioquia enfatizava em suas cartas para que se preservasse a unidade da Igreja de Cristo (Foto: Wikimedia Commons CC)

 

Uns terão os dons da evangelização e acolhida; outros, as habilidades de liderar no momento da oração e na oferta do sacrifício de louvor em ação de graças; outros terão os dons do ensino; outros, da reconciliação; outros, para a missão de cada comunidade em construir um reino de justiça e paz; e alguns terão as habilidades administrativas. Ninguém é maior, e ninguém é menor.

 

Em todo o debate sobre o ministério, precisamos ter aquele conselho de Paulo à Igreja de Corinto, dado por volta de 58 da era cristã, a ecoar em nossa cabeça, quando apresenta o ministério como o trabalho do Espírito na assembleia:

 

Existem dons diferentes, mas o Espírito é o mesmo; diferentes serviços, mas o Senhor é o mesmo; diferentes modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos.

 

Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. A um, o Espírito dá a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a outro, o mesmo Espírito dá a fé; a outro ainda, o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de falar em línguas; a outro ainda, o dom de as interpretar.

 

 

Mas é o único e mesmo Espírito quem realiza tudo isso, distribuindo os seus dons a cada um, conforme ele quer.

 

De fato, o corpo é um só, mas tem muitos membros; e no entanto, apesar de serem muitos, todos os membros do corpo formam um só corpo. Assim acontece também com Cristo. Pois todos fomos batizados num só Espírito para sermos um só corpo, quer sejamos judeus ou gregos, quer escravos ou livres. E todos bebemos de um só Espírito. (1 Coríntios 12,4-13).

 

Se for para estas afirmações reverberarem em nossas discussões, hoje, então talvez precisemos falar menos sobre “fechar igrejas” e “unir paróquias” e, em seguida, passar à tarefa mais frutífera de descobrir a riqueza de vocações que estão todas ao nosso redor.

 

Porém há uma única [meramente lógica] certeza: o futuro não será como o passado. E quando ele busca retroceder ao seu passado, o presente é falso para com o seu próprio momento.

 

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