A disputa em torno da Eucaristia

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29 Junho 2018

Quase todos os bispos da Alemanha querem admitir à comunhão os cônjuges evangélicos de casamentos mistos. Mas Roma bloqueou a iniciativa. Então, tantas pessoas estavam erradas sobre o papa?

A reportagem é de Britta Baas, publicada em Publikforum.de, 22-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Francisco falou no 70º aniversário do Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra, de “tentações sutis” no caminho do ecumenismo. Agora, os cristãos se opõem com um abaixo-assinado ao papa à política excludente de Roma: “Nenhuma exclusão à mesa do Senhor! Salvemos juntos o ecumenismo”.

Por um lado, há aqueles que ficaram desconcertados. De outro, há aqueles que deram um suspiro de alívio: tudo continua como antes! Por fim, há aqueles que veem na rejeição do Vaticano a uma iniciativa ecumênica alemã apenas a conclusão provisória de uma controvérsia fora do tempo.

Os cristãos evangélicos podem ser admitidos à comunhão sob certas condições? A maioria dos bispos católicos alemães considerou há pouco tempo que isso deveria ser possível. No país da Reforma, onde há quase tantos católicos quanto protestantes, muitas vezes são celebrados casamentos interconfessionais. Assim, surge o problema, para aqueles que vão a uma missa católica aos domingos, se o cônjuge evangélico pode ser acolhido à mesa do Senhor.

A maioria dos padres diz “sim” há anos. Mas, por causa dessa franqueza que os bispos queriam apoiar agora, Roma não acredita que o tempo ainda esteja maduro, como está escrito em uma carta ao presidente da Conferência Episcopal Alemã.

O fato de o Vaticano querer pôr fim a uma prática já corrente é considerado por muitos como uma intriga de prelados poderosos. Uma intriga que poderia envolver consequências negativas. É como se a Igreja Católica quisesse abandonar a harmonia com as Igrejas evangélicas testemunhada no ano passado nas celebrações pelo 500º aniversário da Reforma.

“Tentações sutis” no ecumenismo?

Também não ajudaram as piedosas palavras do papa no 70º aniversário do Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra: aquilo que ele escreveu no livro de família para as Igrejas da Reforma no dia 21 de junho de 2018 não soa como uma aceitação da pluralidade. Francisco fala de “tentação sutil”: “Estar junto com os outros, caminhar juntos, mas com a intenção de satisfazer alguns interesses de parte”.

Em vez disso, é necessário “cultivar a comunhão”, não seguir “o caminho da divisão”, mas sim o caminho da “unidade”. Parece-se muito claramente com um “ecumenismo de retorno”. Roma deseja que as Igrejas evangélicas, na consciência de terem percorrido por muito tempo um caminho equivocado, retornem à concepção de Igreja e de Eucaristia do Vaticano.

Lutou-se muito, sem exclusão de agressões, desde que a Conferência Episcopal Alemã, em fevereiro, com uma maioria de três quartos dos seus membros, tomou aquela decisão que agora não tem mais valor: criava-se um texto que devia trazer clareza para a vida das comunidades quanto à participação na comunhão de cônjuges evangélicos de cristãos católicos.

Os casos excepcionais para os quais essa situação era considerada possível até agora teriam que se inserir na normalidade da acolhida. Uma gafe, de acordo com sete bispos diocesanos alemães que, com outros seis, presumivelmente bispos auxiliares, haviam sido derrotados na votação e que escreveram uma carta para Roma: que se pudesse, a partir dali, pelo amor de Deus, impedir a maioria dos bispos na Alemanha.

Porque aquela que é considerada como uma questão pastoral, na verdade, é uma questão de fé que diz respeito à catolicidade da Igreja. É impossível que se possa considerar a participação de protestantes na comunhão “unicamente” como “uma questão pastoral”. Um protestante deveria não só compartilhar “a fé católica relativa à Eucaristia”, mas, “em perspectiva, em todo o caso, também querer se tornar católico”. E isso porque se deve crer que “a Igreja de Jesus Cristo está concretizada na Igreja Católica”.

À carta dos bispos contrários, seguiu-se um encontro com o papa de uma delegação de bispos alemães no início de maio. Depois da reunião, parecia não haver nada de grave: fiel à sua estratégia de descentralização, Francisco dava aos bispos, especificamente ao presidente da Conferência Episcopal Alemã, Reinhard Marx, a tarefa de encontrar, “em espírito de comunhão eclesial, um resultado possivelmente unânime”.

Mas depois, no início de junho, Marx recebeu uma carta absolutamente inesperada do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o arcebispo Luis Ladaria. Nela, afirmava-se que as indicações que os bispos queriam publicar não deviam chegar às paróquias, que o documento ainda não estava maduro para publicação.

Marx foi pego de surpresa: Roma sequer havia esperado que os bispos se reunissem e discutissem. Roma havia decidido. Com a bênção do papa, que, apenas quatro semanas antes, queria deixar a decisão aos alemães.

O Concílio Vaticano II estava mais à frente

Uma minoria dos bispos alemães, liderada pelo cardeal Rainer Maria Woelki, se impôs. Pelo menos por enquanto. Aqueles sete bispos, ao lado dos quais Ladaria se colocou imediatamente, formulam perguntas sobre o fato de receber a comunhão, que já é difícil explicar aos católicos. Soma-se a isso – afirma o bispo católico para o ecumenismo, Gerhard Feige, em uma veemente resposta a Woelki – o fato de que se coloca na conta de cristãos individuais de outras Igrejas tudo aquilo “que se pode alegar contra as suas Igrejas”.

Com esse modo de pensar maniqueísta, afirma Feige, logicamente não pode haver soluções individuais. E continua: é inconcebível que “os princípios católicos do ecumenismo continuem sendo desconhecidos para alguns (bispos) até mesmo 50 anos depois do Concílio Vaticano II”.

As Igrejas da Reforma, em 1973, diante da multiplicidade cristã, encontraram um caminho diferente: na Concórdia de Leuenberg, as Igrejas luteranas, reformadas e unidas da Europa decidiram, em concordância, conceder, “reciprocamente, comunhão de palavra e de sacramentos no laço vinculante às suas confissões e no que diz respeito às suas tradições”. Expressamente, dizia-se que isso incluía “comunhão de pregação e de eucaristia, e o mútuo reconhecimento da ordenação”.

Por que, então, a Igreja Católica Romana também não pode chegar à conclusão de acolher os cristãos evangélicos como hóspedes à mesa do Senhor?

Existe uma eucaristia “autêntica”?

O fato de se discutir tão duramente a questão depende do significado da eucaristia. Ela é considerado o “centro da vida cristã”; nela, “a Igreja celebra a sua origem no único ato de redenção do Pai na vida, morte e ressurreição de seu Filho Jesus Cristo”, diz o ecumenista católico Bernd Jochen Hilberath.

Gerou-se uma leitura católica da Ceia do Senhor que parte do pressuposto de uma “transubstanciação” do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo. Lutero defendia a presença real de Cristo nos sacramentos, mas não a fundamentava em uma transformação milagrosa.

A doutrina reformada, ao contrário, vê no pão e no vinho exclusivamente um sinal do corpo e do sangue de Cristo. No acordo de Leuenberg, afirma-se: “Confessamos (juntos) a presença do Senhor ressuscitado entre nós”. Desse modo, luteranos e reformados permitem mutuamente a participação na eucaristia.

Isso é algo culpável agora? É preciso encontrar a única leitura “autêntica” da eucaristia, à qual todas as cristãs e todos os cristãos devem se curvar? Na opinião dos sete bispos que escreveram para Roma, a resposta, em última análise, só pode ser: “sim”.

Na origem, a sinceridade

Mas isso não pode ser deduzido a partir dos documentos bíblicos e da história da Igreja. O estudioso católico do Novo Testamento Hubert Frankemölle aponta que as primeiras comunidades cristãs entendiam a Ceia de maneiras diferentes. Dependendo de como Jesus era imaginado como Cristo, de como se pensava a redenção das pessoas, a Ceia do Senhor era celebrada de maneiras diferentes.

O Novo Testamento testemunha dessa multiplicidade: Paulo enfatiza a presença real do Senhor ressuscitado nos dons eucarísticos (nisso, ele está próximo do último Lutero). O Evangelho de Marcos enfatiza o aspecto sacrificial da refeição. O Evangelho de Mateus destaca a memória da morte de Jesus pelo perdão dos pecados. O Evangelho de Lucas não fala nada de expiação, porque tal conceito não dizia nada aos gregos, para os quais esse evangelho foi escrito.

A variedade também continua mais tarde: na Idade Média, os teólogos discutem duramente sobre o problema do que significa “presença real” na eucaristia. A disputa se fundamenta essencialmente em um problema que havia surgido no início da missão aos germânicos: estes não entendiam que algo pode ser simultaneamente “real” e “simbólico”. A filosofia platônica como inspiração da doutrina eucarística cristã era desconhecida para eles. Consequentemente, eles celebravam a ceia ou de maneira “absolutamente materialista” ou de maneira “espiritualista” (Frankemölle). Nenhuma das duas agrada a Roma. A disputa sobre a eucaristia, que se reabriu no período da Reforma, portanto, não vem do nada. Tem um antecedente.

E agora? Fracassou também a última tentativa de encontrar, pelo menos na prática, soluções úteis e responsáveis para a disputa em torno da eucaristia? Por enquanto, é verdade aquilo que Gerhard Feige constata: o debate atual tomou um rumo nada bom. “As feridas reabriram.”

Wolfgang Huber, presidente emérito do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha (RKD), está ainda mais amargurado: “A atitude do Vaticano é evidente. Só há ecumenismo nas condições de Roma”.

É o fim da “diversidade reconciliada” da qual sempre se fala com tanto gosto? É preciso lembrar ao Papa Francisco que ele está traindo o perfil de seu pontificado. Ele queria que fosse decidido localmente aquilo que pode e deve ser decidido localmente.

O país-chave do ecumenismo com os protestantes é a Alemanha. E não Roma.

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