Pensar diferente: as possíveis reformas na Igreja. Entrevista com Michael Seewald

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08 Julho 2019

Reprodução da capa do livro 
Reform – Dieselbe Kirche anders denken

Em seu último livro “Reform – Dieselbe Kirche anders denken” (Reforma – pensar diferente sobre a mesma Igreja, em tradução livre), o teólogo dogmático de Münster estuda a fundo a seguinte questão: em que pontos a Igreja Católica pode mudar e em quais não. E, ao fazer isso, o mais jovem professor de teologia da Alemanha (31 anos) quer intencionalmente evitar entrar nos debates atuais, mas se concentra nas questões fundamentais relacionadas com as mudanças na doutrina eclesial.

A reportagem é publicada por KNA, 28-06-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor Michael Seewald, nos atuais debates sobre as reformas, muitas vezes se diz que certas coisas não são negociáveis na Igreja Católica. O que não é negociável?

Eu também sou da opinião de que a doutrina da fé não é negociável à vontade. Mas não se pode estabelecer de maneira estática o que, em particular, é variável e o que não é. Porque não existe uma dogmática pura. A religião está sempre conectada com outros fatores até mesmo não religiosos, como as teorias filosóficas, os conhecimentos das ciências naturais ou os interesses políticos. A doutrina da fé tem implicações, e várias vezes ela se separou de algumas coisas – até mesmo de coisas que as gerações passadas poderiam considerar indispensáveis. Nunca se pode separar rigorosamente o caroço da casca.

E o que nunca realmente é negociável?

Só posso lhe dizer o que eu imagino como não negociável. A Igreja se considera como uma comunidade no seguimento de Jesus. Ela tem a missão de anunciar em palavras e ações aquele Deus que assumiu um rosto humano em Jesus. Se deixasse de fazer isso, se chegaria a uma perda da sua identidade. Mas não se pode excluir que se forme uma figura de cristologia eclesialmente reconhecida que nós ainda não podemos imaginar e que talvez hoje acharíamos herética.

Seu novo livro se intitula “Reforma. Pensar diferente a mesma Igreja”. Significa que a Igreja pode mudar e, mesmo assim, permanecer a mesma Igreja?

Sim. A Igreja do nosso tempo sofre de uma autoimagem limitada. A fidelidade da Igreja à sua missão é medida em relação a um parâmetro extremamente limitado. Nem sempre foi assim, mas hoje é um grande problema, porque paralisa a Igreja. Diante de qualquer mudança que tenha sido objeto de discussão nos últimos anos, quer se tratasse do problema de se aproximar da Comunhão, ou da proscrição da pena de morte pelo Papa Francisco, ou dos debates sobre os papéis de gênero na Igreja, alguns grupos interessados sempre conseguiram inflar pequenas mudanças, fazendo-as parecer como uma grande ruptura. Muitas vezes, o magistério aderiu a esse alarmismo.

Você escreve que a Igreja, em muitas questões, reivindica uma infalibilidade que não é possível basear em argumentos e defende muito frequentemente que certas coisas sempre foram assim.

Se eu ouço que algo “sempre foi assim”, sou duplamente cético. Em primeiro lugar, porque tais afirmações muitas vezes são simplesmente falsas e, em segundo lugar, porque, mesmo que concordemos, é preciso perguntar por que o argumento “sempre foi assim” deveria necessariamente envolver o fato de que, também no futuro, a coisa deve continuar assim. Em uma análise mais atenta, percebemos que a doutrina da Igreja ao longo do tempo claramente mudou e também se autocorrigiu.

Onde, por exemplo?

Eu distingo três espécies de desenvolvimentos dogmáticos. O mais evidente é o modo da autocorreção: entendeu-se que uma doutrina precisa de uma correção, ela é feita e também é nomeada abertamente. Um bom exemplo é a teologia do ministério do Papa Pio XII, que mudou tanto a forma quanto a matéria do sacramento da ordem em relação à teologia e à práxis em vigor na época. Isso absolutamente não é pouca coisa. De fato, o que poderia haver de mais importante do que o ministério na Igreja Católica? Além disso, Pio XII justificou essa decisão com um argumento interessante: “Todos sabem que aquilo que a Igreja estabeleceu, ela também pode mudar e suprimir”, disse o papa.

Você falou sobre três modos. Quais são os outros dois?

Há também desenvolvimentos dogmáticos que são implementados induzindo conscientemente a esquecer. Pio XII, ainda em 1950, quando todos os biólogos já sabiam da insensatez de tal afirmação, havia ensinado, sob a marca da infalibilidade, que Adão e Eva eram pessoas que existiram historicamente, das quais descendem todos os seres humanos. Mais tarde, a partir de Paulo VI, esse ensinamento desapareceu. Ele não aparece mais no Catecismo de 1992. E, como terceiro modo de desenvolvimento dogmático, eu analiso as estratégias de dissimulação. De vez em quando, a Igreja ensina algo novo e se autocorrige, afirmando a coisa nova, mas como se fosse antiga. Desse modo, esconde a correção feita.

Por exemplo?

Pense-se na posição sobre a liberdade religiosa e sobre a liberdade de consciência. Nisso, o Concílio Vaticano II fez uma virada em relação ao que valia a partir da antiguidade tardia e que havia sido insistentemente ensinado pelos papas desde o século XVIII. Hoje, alguns teólogos fazem quase como se a Igreja tivesse inventado os direitos humanos e sempre tivesse sido a favor da liberdade de consciência. Isso é grotesco e só é possível se se esconde a correção através da dissimulação da inovação.

Que papel você acha que a teologia tem nesses debates?

Um teólogo se ocupa criticamente da Igreja à qual pertence como fiel. Por parte da Igreja, busca-se sempre impor proibições de pensamento e de palavra à teologia. Desse modo, marca-se apenas um gol contra. Sempre me surpreende que a religião do Logos, como o cristianismo normalmente se considera, tenha tanto medo da possibilidade da discussão feita de modo razoável para encontrar os melhores argumentos. Justamente por ser crítica, a teologia desenvolve a sua missão eclesial.

Mas, ao contrário, outros dizem que quem pede reformas na Igreja persegue o espírito do tempo. É isso?

O espírito do tempo, por si só, não é bom nem ruim, é um conceito que não diz nada. O importante é que, em tudo, também em questões de fé, sejam oferecidos bons argumentos para aquilo que se defende.

O que você aconselha, nesse sentido, para os debates atuais que nos esperam?

Argumentos, e não imposições autoritárias. Parece banal, mas – dado o nível em que se discute na Igreja Católica – seria um progresso gigantesco. Para mim, essa Igreja atualmente parece paralisada. O meu livro, no fim, é um ensaio que tenta abordar os motivos dessa crise e indica que a Igreja, em nível teológico, também pode pensar diferente do modo como pensa hoje.

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