A linguagem de ódio de Trump. Por que os bispos não dizem nada?

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09 Julho 2020

"Na entrevista, em que o cardeal Timothy Dolan começa dizendo que se sentia honrado por ser amigo da Fox&Friends, ele saúda o protagonismo de Trump. O que um fiel deve concluir? Ao contrário dos bispos da Alemanha nazista, o cardeal Dolan pode dizer o que quiser, sem medo de penalidades. Um cardeal deve abrir mão de sua voz profética em troca de um financiamento estatal a escolas, instituições de caridade e hospitais? Na Alemanha nazista, alguns padres, como Bernhard Lichtenberg e Alfred Delp, soaram o alarme. Eles se tornaram mártires. A esmagadora maioria se ajustou ao regime de Hitler e as igrejas, instituições de caridade e os hospitais sobreviveram", escreve John Connelly, professor de História da Europa Centro-Oriental, na Universidade da Califórnia, em Berkeley, é autor de "From Peoples into Nations: A History of Eastern Europe" (Princeton, 2020), em artigo publicado por La Croix International, 08-07-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo. 

A expressão de admiração a Donald Trump manifesta pelo cardeal Dolan durante uma entrevista à Fox & Friends sugere paralelos um tanto infelizes com a Europa da década de 1930. Se assistirmos a essa entrevista, rapidamente veremos um cardeal preocupado com a sobrevivência institucional.

Por causa do confinamento social, o religioso teme que o dinheiro que serve de apoio a escolas, instituições de caridade e hospitais católicos acabe. Parece que o presidente Trump disse ao cardeal, por telefone, que uma ajuda financeira estaria a caminho.

Em 1933, de forma semelhante os bispos alemães também estavam estiveram reocupados com a sobrevivência institucional, embora as pressões fossem mais políticas do que financeiras: o Estado era totalitário.

A Igreja, assim, chegou a um acordo com o regime nazista, uma concordata, que significou a garantia do ensino da fé católica, especialmente para os jovens, e a sobrevivência de hospitais e outras instituições religiosas.

Depois, apesar das perseguições e da prisão de dezenas de padres, a Igreja assumiu uma atitude leal em relação ao Estado alemão.

Os sinos das torres soaram quando, em 1938, a Alemanha anexou a Áustria e partes da Tchecoslováquia; e soaram novamente após a vitória sobre a França em 1940. Em 1941, os bispos alemães consideraram o ataque genocida à União Soviética como uma “cruzada”, e os padres ministraram às tropas enquanto estas se deslocavam em direção a Moscou, em meio a localidades russas ressequidas.

Os bispos alemães de hoje publicaram uma nota de remorso em relação ao comportamento de seus antecessores. Eles reconhecem que, após a concordata, a Igreja se permitiu enredar-se com o Estado e pedem que repensemos a relação entre Igreja e Estado: deve haver uma relação de “coexistência crítica” (Kritische Zeitgenossenschaft).

Nos Estados Unidos, a situação difere em todos os aspectos daquela Alemanha da década de 1930, com exceção, talvez, destes dois sentidos a seguir: o nosso presidente, como o Führer da Alemanha, exibe flagrantemente um desdém desenfreado pelos seres humanos; e muitos do rebanho católico esperam ouvir palavras proféticas sobre o que fazer de um líder que expele ódio.

Entre as diferenças daquela época e de agora, a mais importante é que a Alemanha nazista era um Estado de terror, e as críticas ao regime fizeram com que representantes eclesiásticos fossem presos e, às vezes, submetidos à tortura e morte. Por outro lado, nos Estados Unidos os clérigos podem expressar suas opiniões sem medo – a menos que se considere como perseguição um tuíte presidencial.

Trump possui um desdém dirigido contra a diferença

Para os que estiveram em hibernação nos últimos três anos, talvez precisamos fazer uma breve retomada.

Recentemente, o presidente chamou manifestantes pacíficos de “bandidos” e “escória”; Bette Midler, de “psicopata desbotada” e “golpista doentia”; Elijah Cummings, de “valentão ignorante”; ele se referiu a Alexandria Ocasio-Cortez como uma “doida varrida”; Rosie O’Donnell, como “porca gorda” e “preguiçosa”; chamou Arianna Huffington de “cachorra”; Kirsten Gillibrand, de “lacaia” e “peso-leve”; Mika Brzezinski e Joe Scarborough, de “loucos” e “doentes”.

Ele disse que Brzezinski era a “namorada insegura” de Scarborough e uma pessoa “neurótica e não muito brilhante”. Trump acusou o ex-secretário de Estado Rex Tillerson de ser “burro” e “preguiçoso ao extremo”, chamou o ex-procurador-geral Jeff Sessions de “fraco”, “retardado mental”, “sulista ignorante” e “idiota”.

Tendo ensinado história europeia por três décadas, creio que tais palavras de desdém não encontram precedentes nas declarações públicas de um representante eleito. Elas ultrapassam e muito as críticas fundamentadas àquilo poderíamos chamar de aniquilação espiritual: os inimigos têm erros tão grosseiros que quem os aponta, na verdade, deseja que eles não existam.

Os alunos de história têm que ir muito longe, nos extremos da direita e da esquerda, para encontrar uma linguagem tão encharcada de ódio, que ultrapasse as fronteiras e adentre os reinos dos bolcheviques e, sim, dos fascistas. Os líderes soviéticos e nazistas não abriam mão de empregar ataques ad hominem de baixo calão, chamando seus inimigos de insetos ou vermes.

Que fique claro: o presidente Trump não é um Hitler. Por enquanto, as nossas instituições parecem fortes o suficiente para impedi-lo de se tornar um líder fascista, mas é a primeira vez que a linguagem de um presidente americano o coloca na companhia de ditadores totalitários.

As pessoas de fé devem se preocupar? Como soaria uma voz profética de preocupação a respeito de um representante incapaz de suprimir um ódio profundamente arraigado? Como se viu, estes episódios recentes do presidente nos deixam com exemplos claros de ódio.

A sobrevivente Elie Wiesel concluiu, a partir dos confrontos deste presidente, que mesmo as vítimas não deverão sucumbir: “O ódio destrói aquele que é odiado, mas também destrói aquele que odeia”.

Representantes odiosos arrastaram Estados e povos. A raiva, disse Wiesel a Bill Moyers, “tem alguns atributos positivos, o ódio não tem. Até o ódio ao ódio é perigoso”.

Outra testemunha deste ódio político, Dietrich Bonhoeffer, dizia o seguinte: “Quem despreza os seres humanos, despreza aquele a quem Deus amou, e, na verdade, está desprezando a própria forma do Deus encarnado”.

Mollie Wilson O’Reilly escreve que não importa se Trump é, ou não, pessoalmente preconceituoso contra os não brancos. Ele indiscutivelmente emprega o racismo.

Mas há uma coerência em seus comentários que sugere que ele não é um simples cínico, como o seu equivalente europeu mais próximo, Viktor Orbán.

O que Trump possui em grande medida é um ingrediente que atravessa as ligas mais duras do racismo, a saber: um desdém voltado contra a diferença enquanto tal, focado com intensidade maníaca em todos aqueles que discordam dele.

Para o bem da religião

Voltemos aos bispos alemães de hoje: eles não dizem que não deve haver relações entre a Igreja e o poder estatal. Isso jamais será possível. Em vez disso, à luz da experiência histórica, eles dizem que, mesmo nos melhores casos (por exemplo, um Estado liberal que confere tolerância total aos credos), a divisão e a distinção entre Igreja e Estado devem ser claras, para o bem da religião.

No entanto, se revemos a entrevista do cardeal Dolan, disponível no YouTube, e a reportagem sobre a ligação telefônica do cardeal com o presidente, o que temos é uma proximidade evidente entre o prelado e o chefe de Estado.

Trump elogiou o cardeal na conversa por telefone, dizendo que ele era um “grande cavalheiro” e um “grande amigo meu”. O cardeal respondeu: “Os sentimentos são mútuos, senhor”. O cardeal acrescentou que falava com o presidente com mais frequência do que com sua mãe.

Na entrevista, em que o cardeal começa dizendo que se sentia honrado por ser amigo da Fox & Friends, ele saúda o protagonismo de Trump.

O que um fiel deve concluir? Ao contrário dos bispos da Alemanha nazista, o cardeal Dolan pode dizer o que quiser, sem medo de penalidades.

Um cardeal deve abrir mão de sua voz profética em troca de um financiamento estatal a escolas, instituições de caridade e hospitais? Na Alemanha nazista, alguns padres, como Bernhard Lichtenberg e Alfred Delp, soaram o alarme.

Eles se tornaram mártires. A esmagadora maioria se ajustou ao regime de Hitler e as igrejas, instituições de caridade e os hospitais sobreviveram.

Para muitos cristãos do pós-guerra, no entanto, essas instituições pareciam vazias, mais materiais do que espirituais, casas antigas de culto, agraciadas com retoques e reformas, ao mesmo tempo a abrigar congregações cada vez menores, adornadas por cruzes que simbolizavam nada de relevante.

Nenhuma ajuda que César possa prestar deveria importar, quando aqueles que nos representam em oração contemplam o que devem ser dizer ao mundo.

 

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