A lisonja pública do Cardeal Dolan a Trump esquece algumas coisas

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12 Mai 2020

"Mas coloquemo-nos na posição do jovem que não vai à missa há anos, que tem dúvidas sobre a Igreja por causa dos efeitos corrosivos que essas transações tiveram sobre nossa política e sobre nós. E imaginemos como ele receberia as coisas que Dolan disse nas últimas duas semanas. Esperamos vê-lo na nossa paróquia quando voltarmos às missas? Eu não", escreve Steven P. Millies, professor de teologia pública e diretor do Centro Bernardin, na Catholic Theological Union, em Chicago e autor de Good Intentions: A History of Catholic Voters’ Road from Roe to Trump (Liturgical Press, 2018), em artigo publicado por National Catholic Reporter, 08-05-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Neste momento, fico me perguntando se os bispos americanos estão atravessando uma espécie de Rubicão.

Quando o antecessor romano deles, o general Júlio César, conduziu ilegalmente o seu exército ao rio Rubicão, desencadeou os eventos que culminaram com a República e que o viram ser coroado. “A sorte está lançada”, teria ele dito ao marchar com o exército em direção a Roma: não havia volta. O que ele fez não poderia ser desfeito e mudaria a história.

Não creio que o cardeal de Nova York Timothy Dolan corra o perigo de ser coroado imperador (ou algo parecido). Mas acredito que a lisonja pública que fez ao presidente Donald Trump diretamente do púlpito da Catedral de São Patrício e na Fox News pode ser o momento a partir do qual o catolicismo americano não consiga mais voltar atrás.

Analistas sagazes interpretaram estas agruras do cardeal como um esforço bem intencionado no sentido de convencer o presidente a dedicar fundos de estímulo para ajudar as escolas católicas que, sem dúvida, terão dificuldades no cenário pós-pandemia. Talvez seja isso que o cardeal pensou que estava fazendo. O que fez talvez pareça até inteligente de um certo ponto de vista. Mas, a mim, parece que temos de ignorar muita coisa para ver o quão esperto o cardeal estaria sendo.

Na Fox News, Dolan elogiou a sensibilidade de Trump com “os sentimentos da comunidade religiosa”. Pensemos sobre isso.

Em seguida, pensemos no seguinte. “Acho que o Islã nos odeia” ou “os filhos de pais muçulmanos americanos são os responsáveis por um número crescente de ataques terroristas”, ou pensemos sobre o que Trump disse depois que a Suprema Corte derrubou a sua proibição de viagem, que cumpria a promessa de campanha de um “fechamento total e completo da entrada de muçulmanos nos EUA”; “Vou criar uma comissão. Mostrar o jeito certo de fazer isso legalmente”.

Os americanos sabem que os muçulmanos fazem parte da comunidade religiosa. Certamente, os católicos também sabem. Dolan parece ter se esquecido disso, pelo menos por um momento.

Dolan também se esqueceu de outras coisas. Esqueceu-se das crianças separadas dos pais na fronteira com o México, crianças mantidas em gaiolas e dormindo em pisos frios de concreto. Esqueceu-se do abuso físico e sexual que muitas dessas crianças sofrem por causa do desinteresse do governo em policiar o sistema de assistência social. Esqueceu-se da linguagem racista e xenófoba que Trump emprega rotineiramente para fazer uma outra coisa que Dolan esqueceu: a principal preocupação de Trump não é a construção de uma comunidade política no sentido do bem comum, mas nos dividir para que possa nos conquistar.

O lamentável é que aqueles dentre nós, que frequentam as mesmas escolas católicas que Dolan pode estar tentando salvar, lembram-se dessas coisas também. E vemos por que é problemático um bispo esquecê-los. Sendo americanos formados em nossa fé; vemos uma transação horrível em ação aqui.

Há décadas os bispos buscam se envolver em uma política transacional com os representantes republicanos na questão do aborto. Muito escrevi sobre a história de como e por que isso aconteceu e sobre o papel que os bispos desempenharam na nossa atual polarização nacional. Essa história pode ser lida em outros lugares.

Mas aqui, neste momento Rubicão, temos de nos perguntar sobre os custos dessas transações. Os bispos foram tão longe nesse caminho transacional com o Partido Republicano e com este presidente, que agora finalmente temos que nos perguntar se eles têm a credibilidade moral para atuar como líderes religiosos.

Na verdade, as coisas estão muito pires do que parecem.

Os jovens estão abandonando as igrejas. Católico ou protestante, judeu ou muçulmano, não importa. Há uma crise de desfiliação religiosa. Talvez 40% dos adultos americanos com menos de 40 anos informam não ter afiliação religiosa. E agora, enquanto estamos todos isolados em casa, em certo sentido ninguém de nós está afiliado a uma religião. Para a maioria dos católicos, participação religiosa, hoje, significa assistir a um programa de televisão. E quem é a figura central em seus televisores? Na maioria das vezes, é alguém que se parece exatamente com o Cardeal Timothy Dolan.

Gosto de pensar que essa praga e o trauma decorrente em nossas vidas podem ter pelo menos um impacto duradouro e benéfico. Talvez muitos de nós vamos redescobrir por que pertencer a uma comunidade religiosa é importante. Tendo em mente onde nos encontramos atualmente, podemos esperar que algo bom virá em seguida.

Mas coloquemo-nos na posição do jovem que não vai à missa há anos, que tem dúvidas sobre a Igreja por causa dos efeitos corrosivos que essas transações tiveram sobre nossa política e sobre nós. E imaginemos como ele receberia as coisas que Dolan disse nas últimas duas semanas. Esperamos vê-lo na nossa paróquia quando voltarmos às missas? Eu não.

Dolan e os demais bispos que se preocupam com as escolas católicas estão certos. Esta crise ameaça devastar escolas e paróquias. A Igreja Católica, já prejudicada pelo acobertamento de casos de abuso sexual e pela crise de desfiliação, jamais recuperará a sua estatura anterior nesta nossa geração. Mas, hoje, penso que Dolan conseguiu piorar o que já era difícil.

Faço a seguinte pergunta: há algo que um bispo poderia dizer a esta altura que melhorasse a situação? Sinceramente, sinto que ninguém sequer tentou dizer.

Há um conto que Trump lê em seus comícios. Ele o usa como alegoria para sua política imigratória. Uma mulher encontra uma cobra ferida e a cura. Em seguida, assusta-se quando a cobra lhe retribui com a única coisa que sua natureza permite fazer: “Em vez de agradecer, a cobra deu uma mordida cruel”.

Trump nunca deveria ensinar literatura. Mas, como a mulher do conto, preocupo-me com que Dolan e os bispos em breve aprenderão como a transação deles deve acabar.

 

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