França: denúncia teológica ao tradicionalismo

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06 Julho 2020

A Comissão Doutrinal da Conferência dos Bispos da França publicou uma nota sobre os ensinamentos da comunidade tradicionalista “Contrarreforma Católica”.

A reportagem é de Lorenzo Prezzi, publicada em Settimana News, 03-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Uma nota doutrinal de advertência em relação às doutrinas propostas pelo Pe. George de Nantes (1929-2010) e pela sua comunidade, “Contrarreforma Católica (CRC), foi publicada no dia 25 de junho de 2020. Assinada pela Comissão Doutrinal da Conferência dos Bispos da França, ela se desenvolve em uma dezenas de páginas e se dirige aos bispos “para iluminar os fiéis eventualmente perturbados pelos erros da comunidade” anticonciliar.

Composta por seis bispos, presidida por Laurent Camiade, bispo de Cahors, a Comissão Doutrinal ilustra alguns pontos discutíveis da doutrina proposta pela CRC, esclarecendo entre ambiguidade, imprecisões, contradições e enevoamento, distribuídos entre textos muito diferentes, folhetos de divulgação, vídeos, sites (CRC-resurrection) e transmissões radiofônicas.

A “Contrarreforma Católica” é uma das alas do tradicionalismo católico anticonciliar do âmbito francês, marcado no seu conjunto pela condenação sem apelo da Reforma protestante, pela rejeição radical da Revolução Francesa e da inaceitável laicidade do Estado, e pela frequentação da direita política mais radical (da Action Française ao regime pró-nazista de Vichy, às atuais direitas antieuropeias).

George de Nantes e a “Contrarreforma Católica”

Os bispos se limitam a alguns aspectos doutrinais relativos à eucaristia, aos votos religiosos, à mariologia e à eclesiologia, com a intenção de alertar contra os efeitos de “alguns membros da CRC ativos nas dioceses da França, em paróquias, em grupos de jovens profissionais, em diversos movimentos e associações, e até em alguns seminários”.

A doutrina eucarística do Pe. George de Nantes e da CRC é qualificada como “sensualismo”. A alma de Cristo, pré-existente em relação ao seu corpo, assim como entra no corpo de Jesus com a encarnação, também entra nas espécies eucarísticas. Um processo de encarnação direta que se estende ao fiel no momento da comunhão eucarística. O corpo do fiel se torna o corpo de Cristo. Desaparece a dimensão sacramental e de sinal, assim como o papel da Igreja e da comunidade celebrante. Uma afirmação aparentemente forte, mas divagante, que produz paradoxos perturbadores, como o “beijo místico” (abordagem erótica entre celebrante e fiéis) ou o ruído do partir a hóstia do celebrante como eco da quebra dos ossos de Cristo.

As espécies do pão e do vinho perdem toda relevância, e sua manducação “é vivida como uma forma de contato físico com o corpo de Cristo, contato físico que seria a condição de um autêntico realismo da união mística com Cristo. A boca do comungante abraçaria o corpo de Cristo na comunhão, e a sensação do contato com a hóstia consagrada torna-se o próprio lugar da experiência da união com Cristo”. O realismo sacramental se torna sensualismo, perdendo a sua dimensão de memorial.

Desaparecem as tradicionais partições entre matéria e forma, entre substância e acidente, em uma confusa pretensão de fisicalidade, na qual “a matéria do sacramento é diretamente o corpo e o sangue de Cristo”. A presença de Jesus na sua comunidade, que reza e o invoca, não tem relevância alguma.

“É desoladora a doutrina relativa à Virgem Maria.” Também esta teria uma alma eterna e pré-existente, já presente na primeira mulher, Eva. Alusão a uma eterna conjugalidade entre masculino e feminino. Um naturalismo que não tem nada a ver com a mariologia e a antropologia cristãs.

Também é subvertida a concepção da vida consagrada com a pretensão de que a consagração é um sacramental maior do que o sacramento conjugal e que ela expressa um vínculo conjugal entre virgem e Cristo e entre celibatário masculino e Igreja. Concepções que “podem levar na prática a qualquer abuso dentro de uma comunidade. Ainda mais em uma comunidade desprovida de status canônico e sem vínculo com a autoridade eclesial, isto é, sem verificações e atualizações nas relações”.

“No conjunto dos textos publicados pela CRC, registra-se uma falsa maneira de se colocar dentro da Igreja e diante do magistério. O ensino da Igreja sobre as verdades da fé não é religiosamente acolhido, mas julgado e deformado.” Toda pesquisa teológica livre deve fazer as contas com a regra da fé.

Um exemplo de abordagem ao magistério é a denúncia da afirmação feita por Paulo VI no discurso final do Concílio sobre o humanismo. O papa, ao se dirigir aos expoentes do humanismo secular, disse: “Deem crédito a ela (à Igreja) pelo menos nisso, vocês, humanistas modernos, que renunciaram à transcendência das coisas supremas, e reconheçam o nosso novo humanismo: também nós, nós mais do que todos, somos os cultores do homem”.

Na interpretação do Pe. George de Nantes, o termo “cultores” se torna um convite ao “culto” do homem, portanto à idolatria.

Dúvidas transversais

O texto episcopal lembra as repetidas condenações sofridas pelo fundador da CRC: impedido pela ação pastoral em 1963, foi suspenso a divinis em 1968, atingido por uma interdição em 1997 e definitivamente condenado pelo tribunal da Signatura Apostólica no ano 2000. Apesar disso, a sua atividade na comunidade continuou com tons apocalípticos cada vez mais fortes (ele chegou a desejar a morte do bispo de Paris, Lustiger) e inflexões sectárias, anticonciliares, direitistas e antissemitas cada vez mais evidentes.

A sua comunidade, que passou dos 25.000 membros nos anos 1970 para 1.000 nos últimos anos, não renunciou a nenhuma das suas “doutrinas”, apesar das graves crises internas tanto entre os homens quanto entre as mulheres (1989). Um testemunho disso é a reação à nota doutrinal do atual superior geral, Pe. Bruno de Jésus-Marie. Ele acusa os bispos de ignorarem as cinco respostas orgânicas às perguntas da Congregação para a Doutrina da Fé, já apresentadas aos bispos e em Roma, e invoca o juízo de Deus sobre eles por uma análise doutrinal “de uma insuficiência criminosa”.

A recusa do Concílio, uma leitura apocalíptica da história, a alusão à guerra com o Anticristo, as críticas ao papa unem o grupo francês a muitos que povoam a galáxia do tradicionalismo, também italiano. É bom levar isso em consideração.

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