Livrar-se do clero, mas manter o Sacramento da Ordem

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24 Abril 2018

Francisco tem desafiado o clericalismo, mas parece considerá-lo somente como um problema de atitude quando na verdade este é um problema estrutural com raízes históricas profundas”, escreve Joe Holland em artigo publicado por La Croix International, 14-04-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Em sua fascinante troca de ideias sobre o clero ("Imagine Que Não Há Clero", que pode ser acessado no original aqui), William M. Shea e David Cloutier parecem incapazes de distinguir o "estado clerical" do "sacramento da Ordem". Um autor parece procurar a eliminação de ambos por causa da renovação evangélica, enquanto o outro parece buscar a preservação de ambos pela mesma razão.

Contrariamente ao que parece ser o argumento dos dois autores, o "sacramento da Ordem" e o "estado clerical" são historicamente distintos e institucionalmente separáveis.

Durante seus primeiros três séculos, a Igreja de língua grega desenvolveu e sustentou o "sacramento da ordem" para episcopoi, presbyteroi, e diaconoi (bispos, presbíteros, e diáconos). Mas ainda não havia nenhum "estado clerical". Que veio apenas no quarto século, através da fusão da Igreja Católica com o Império Romano.

Nessa fusão, a liderança do Império Romano transferiu privilégios imperiais "hierárquicos" do sacerdócio pagão para o servos-líderes ordenados da Igreja Católica.

O novo "clero" imperial estava legalmente habilitado a governar os “leigos” não-clericais. Antes deste desenvolvimento, a Igreja inteira (o que significa tanto os servos-líderes ordenados quanto os demais membros) tinha sido compreendida como leiga sacramentada (o santo laos) e como divinamente escolhida (o santo kleros).

Como o sacramento da ordem e o estado clerical são historicamente distintos, haja vista que o primeiro existiu por três séculos sem o último, significa que são também institucionalmente separáveis.

É verdade que na Igreja Ocidental a lei canônica reconhece a distinção entre o sacramento da ordem e o estado clerical. Quando os padres católicos romanos decidem se casar, eles podem solicitar uma "redução" para o estado leigo.

Esta redução retira-os do estado clerical mas, de acordo com o ensino oficial da Igreja, permanecem ordenados "ontologicamente".

Em suma, o sacramento da ordem é de origem apostólica, enquanto o estado clerical é uma criação legal do Império Romano no século IV.

Mais tarde, no século XI, o clero católico ocidental foi mais separado dos leigos quando o papado impôs o celibato obrigatório em todos os presbíteros e bispos do Ocidente. Ao fazer isso, muitas esposas de bispos e presbíteros ficaram desabrigados, se submeteram a trabalhos escravos, ou até mesmo cometeram suicídio. Ver o livro de Anne Llewellyn Barstow, Married Priests and the Reforming Papacy (Padres Casados e o Papado Reformado, em tradução livre).

Então, no século XVI, o Concílio de Trento separou o clero ainda mais ao exigir a formação em seminários clericais parecidos com monastérios.

Estas estruturas desenraizaram candidatos para a ordenação de suas comunidades leigas originais do parentesco e da amizade, preparou-os para que se tornassem parte de uma casta clerical "escolhida", e moldou-os para o trabalharem como peças intercambiáveis dentro de um padrão, e muitas vezes impessoal burocracia eclesiástica.

Hoje, em toda a América e em outros lugares, os católicos ocidentais estão se deslocando de paróquias muitas vezes estagnadas para congregações Evangélicas e Pentecostais mais dinâmicas, cujos pastores há muito tempo retornaram ao modelo apostólico original não-clerical e de leigo servo-líder.

Em geral, esses pastores leigos se relacionam muito mais intimamente com as experiências e as necessidades espirituais daqueles que eles servem.

É claro que de uma perspectiva Católica estas igrejas sofrem sérios problemas teológicos. Por exemplo, o literalismo bíblico e o chamado Evangelho da Prosperidade.

E muitas vezes estas Igrejas apoiam os governos patriarcais e autoritários. Mas a Igreja Católica ainda pode aprender com o modelo não-clerical do ministério pastoral delas, com suas raízes claras no presbitério da igreja primitiva.

A cultura clerical do presbitério católico romano, que se desenvolveu em estágios desde o século IV, agora precisa ser desmantelada por causa da evangelização global do século XXI.

O sacramento da ordem precisa ser resgatado da sobreposição legal do clericalismo que hoje bloqueia seu poder espiritual e promove um sistema de castas burocráticas.

Ao mesmo tempo, todo o laos católico precisa recuperar sua missão apostólica e identidade sagrada, que o clericalismo tem frequentemente obscurecido. Ao contrário do que teme David Cloutier, a declericalização não secularizaria a Igreja.

Pelo contrário, faria a Igreja retornar às suas raízes e a lembraria que todo o laos é sagrado e escolhido.

O Papa Francisco tem razão em desafiar o clericalismo em toda a Igreja Ocidental, mas ele parece considerá-lo apenas como um problema de atitude. Na verdade, é um problema estrutural com profundas raízes históricas, e que se reproduz de uma geração para a outra.

Se falamos sério sobre ir além do clericalismo, podemos começar distinguindo entre o sacramento da ordem, que nós ainda precisamos, e o estado clerical, que nós estaríamos melhor sem.

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