"A invenção do anticristo". Karl Barth, Erich Przywara e a Analogia do Ser

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20 Dezembro 2018

Nas décadas de 1920 e 1930, Karl Barth, renomado teólogo reformado suíço, iniciou o que se tornou uma crítica que durou décadas ao importante jesuíta polonês-alemão Erich Przywara. Mas com a ascensão do fascismo, seu desacordo logo ultrapassou a sala de aula de teologia e assumiu algumas das tensões confessionais das disputas que permeavam na época da ReformaBarth, vendo a crescente adesão ao nazismo, sustentou que a humanidade retém pouco da bondade que havia antes da QuedaPrzywara, embora fortemente antinazista, era menos sombrio. O debate prosseguiu por décadas e, apesar de muito do que aconteceu sob a sombra da guerra e do genocídio, acabou de uma forma surpreendentemente promissora.

A reportagem é de Marcia Pally, publicada por Commonweal, 10-12-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Karl Barth e Erich Przywara (Foto: Reprodução Commonweal)

Karl Barth (1886-1968), filho de um professor da teologia e violinista de Basel, foi educado no protestantismo liberal da época, que seguia os métodos de Friedrich Schleiermacher (1768-1834) ao enfatizar a religião como sentimento íntimo e privado. Barth rejeitou essa visão quando observou cristãos reivindicarem apoio divino na Primeira Guerra Mundial. Seus próprios professores, incluindo o proeminente teólogo Adolf von Harnack, assinaram uma declaração em 1914 apoiando o esforço de guerra dos alemães. Se é assim que os cristãos interpretam a Palavra de Deus quando à mercê de seus próprios sentimentos, então a Palavra será distorcida para se adequar a interesses privados e políticos, pensou Barth. Ele ainda concluiu que a humanidade não pode ser guiada por seus sentimentos. Barth desenvolveu sua forte cristologia em seu “Church Dogmatics” (1931-1967) distribuídos em treze volumes, e seus pontos de vista sobre a pecaminosidade da humanidade se tornaram o eixo de seu debate com Przywara. Barth também foi o principal autor da Declaração de Barmen (1934), convocando os cristãos a resistir ao nazismo. Imprudentemente ele enviou a carta diretamente a Hitler. Em 1935, foi forçado a deixar a Alemanha e designado a assumir uma posição na Universidade de Basel, onde permaneceu pelo resto da vida.

Przywara (1889-1972), filho de um pai polonês e mãe alemã, estudou música e teologia na Holanda. Estudou também na Áustria e na Alemanha, e foi uma estrela em ascensão no pensamento católico quando ele, assim como Barth, começou a protestar contra o fascismo. Em 1933, ele explicou que o "Reino" cristão era absolutamente incompatível com o Terceiro Reich. Em 1934, enquanto Barth escrevia a Declaração de Barmen, Przywara argumentou contra a acomodação da Igreja ao governo de Hitler. Em 1935, os nazistas o mantiveram sob vigilância, o impossibilitando de continuar seu trabalho, o que lhe causou problemas médicos e emocionais dos quais ele nunca se recuperou totalmente. No entanto, ele permaneceu prolífico durante a década de 1960, escrevendo quarenta livros, oitocentos artigos e resenhas, e influenciando pensadores como Karl Rahner e Joseph Pieper.

Foi o trabalho de Przywara sobre a natureza humana que provocou as críticas iniciais de Barth. Przywara expôs suas ideias em “Polaritiy” (1926) e mais plenamente em sua “Analogy of Being” (Analogia do Ser, em tradução livre) de 1931. Mas, por outro lado, não foi Przywara quem surgiu pela primeira vez com a ideia de que a natureza humana participa ‘analogamente’ do "ser" de Deus. Essa teoria começou com Tomás de Aquino. Sua premissa era que Deus é o fundamento e a razão de tudo. Sendo assim, nada poderia existir sem a sua presença no mundo. É possível dizer que Deus é o que torna a própria existência uma realidade, desde a criação do tempo até a fauna e flora. Então, algo de Deus, a fonte da existência, pode ser encontrado em tudo e em todos que existem. Deus, escreveu São Tomás, é "íntimo" e está dentro de nós. Nas palavras do teólogo alemão Christian Link, Deus não pode ser encontrado no mundo mais do que Charles Dickens pode ser encontrado em seus romances, mas ele está lá por toda parte e é a razão pela qual eles existem.

É claro que Deus também é radicalmente diferente da humanidade. Somos seres materiais, ele não. Nós vivemos dentro do tempo, ele não. No entanto, existe uma espécie de parentesco entre nós. Como diz a Escritura, somos feitos à sua “imagem”. Ou, como diz Przywara, seguindo Tomás de Aquino, somos “análogos” ao “ser” divino. Baseando-se em Aquino e Agostinho, Przywara sustentava que Deus está tanto “dentro de nós” quanto “além de nós”.

Uma consequência importante disso é que, mesmo depois da Queda, a humanidade mantém algo que revela nosso parentesco original com Deus. Por causa de nossa intimidade com o ser divino, temos a capacidade de entender sua Palavra. Przywara teve o cuidado e a delicadeza de explicar esse conceito. Isso não significa que podemos desenvolver uma vida moral a nosso modo, somente a partir de habilidades humanas. Mas nós temos a capacidade de compreender o caminho de Deus uma vez que ele é revelado nas Escrituras. A graça vem a nós “duplamente”, através da obra redentora de Deus e de nossas capacidades de seguir sua Palavra em nossas atividades mundanas - por exemplo, na luta por amor e justiça contra o nazismo.

Isso era o que Barth não toleraria. Em Christian Dogmatics I, de 1931, ele chamou a analogia de Przywara de "a invenção do Anticristo" e declarou que "por conta disso não se pode mais ser católico".

Para Aquino e Przywara, o que resta depois da Queda é a natureza humana, análoga a Deus. Para Barth, o que resta é a graça de Deus.

Mas não é aqui que o debate realmente começou. Em 1929, Barth convidou Przywara para fazer uma palestra em seu seminário sobre Tomás de Aquino na Universidade de Münster e, novamente, em 1931, em Bonn. Os protocolos do curso de 1929 mostram que a recepção de Barth foi vibrante. Em uma carta ao teólogo suíço Eduard Thurneysen, Barth chamou a apresentação de Przywara de "uma obra-prima". No entanto, em duas palestras no final daquele ano, ele passou a criticar a posição de Przywara.

A questão de Barth era a Queda. Ele achava que a “analogia de ser” de Aquino era uma ideia perigosa porque colocava a humanidade que estava em declínio muito perto de Deus. Segundo Barth, Przywara engrandeceu a humanidade, permitindo nos imaginar como se fôssemos "semelhantes" a Deus e, portanto, capazes de agir corretamente por conta própria. Qualquer olhar sobre a história moderna da Europa dissipa essa ilusão. Na visão de Barth, a analogia do ser subestimaria a alteridade de Deus. A única ponte real entre a humanidade e Deus é Jesus, totalmente humano e totalmente divino. Mas a analogia do ser sugere que a própria natureza humana nos oferece outra ponte para o contato divino. Sendo assim, por estarmos atrelados à imagem de Deus, podemos entender a natureza de Deus apenas usando nossas capacidades naturais.

Barth não pôde aceitar isso. Segundo ele, tudo o que sabemos sobre Deus e o mundo vem de sua Palavra e revelação em Cristo, e não da razão ou de outras capacidades naturais. Esse conhecimento não é “dado a nós ao longo da história”. Se pudéssemos descobrir Deus e o mundo por conta própria, o Evangelho seria reduzido a um tipo de anúncio de serviço público, apenas para nos lembrar de fazer aquilo que já sabemos.

Essa também foi a objeção de Barth a Agostinho, cujo trabalho influenciou substancialmente Przywara. Agostinho incluiu boas obras - junto com a graça - no caminho para a redenção. Barth temia que isso implicasse numa continuidade entre os esforços humanos e os atos salvadores de Deus, ao passo que, a seu ver, a graça e o esforço humano são opostos.

Nossas capacidades naturais estavam em plena atividade na política daquela época. Apesar de seu suposto parentesco com o Criador, os seres humanos na Europa estavam se dirigindo ao fascismo. Se isso não fosse uma evidência da depravação radical do homem depois da Queda, o que seria? Entre dezembro de 1935 e março de 1936, a polícia nazista colocou o escritório de Przywara no jornal Stimmen der Zeit (Vozes do Dia) sob vigilância e o fechou permanentemente em 1941.

Przywara ficou intrigado: como chegamos de Agostinho e Aquino a Hitler? Przywara já havia escrito em 1927 que a analogia do ser não sugere uma semelhança indevida entre a humanidade e Deus. Significa apenas que Deus revela algo de si mesmo, tanto na revelação quanto na criação. Isso significa que nossa humanidade criada por Deus e a revelação de Deus não podem ser totalmente opostas - como Barth sugeriu que elas deveriam ser, trabalhando em sincronia. Para usar a formulação tradicional, “a graça não destrói, mas apoia e aperfeiçoa a natureza”. Przywara repetiu: a graça acontece “duplamente”, através da revelação de Deus e da capacidade humana, dotada por Deus, de receber essa revelação.

Barth, por sua vez, continuou a insistir que a graça vinha por conta própria, apenas através da revelação, mas acreditando que isso produzia uma consequência não intencional. Se não podemos confiar em nada em nossa natureza criada para entender a revelação, como sabemos que a entendemos corretamente? Como sabemos que nossos julgamentos morais, baseados em interpretações da Escritura, são sólidos?

Immanuel Kant afirmava que a mente humana vem equipada com categorias predefinidas, como duração e tempo, as quais projetamos no mundo. Da mesma forma pensava Barth. Nossas mentes criam conceitos das coisas a partir de sua duração no tempo. Assim, projetamos esses recursos no mundo, embora a mente humana não tenha acesso direto a esse mundo "externo". Então, somos capazes de produzir apenas imagens internas, como uma "exibição em casa", como diria o teólogo John Betz. A partir disso, como sabemos se essa triagem é precisa? Como a filosofia de Kant, a teologia de Barth parece isolar humanidade caída de Deus, ou pelo menos nos impedir de saber se estamos entendendo sua revelação da maneira que Ele pretende que seja entendida. Talvez fosse necessário realmente outra ponte entre Deus e a humanidade, uma que permitisse comunicar sua vontade para nós.

Apesar de uma certa fraqueza no argumento de Barth, sua crítica fez com que os católicos pudessem esclarecer as próprias posições. Gottlieb Söhngen, influente no avanço da carreira de Joseph Ratzinger, enfatizou que somos como Deus apenas analogamente: a analogia do ser mantido à distância apropriada entre Deus e sua criação. Por outro lado, ele temia que a posição de Barth excluísse a proximidade adequada. Transformaria qualquer relacionamento que tivéssemos com Deus no que ele chamava de “uma alocação puramente externa” - um acréscimo em vez de algo fundamental para a existência humana. Ninguém, incluindo Barth, queria dizer isso. Todos concordaram que nosso relacionamento com Deus era uma característica da condição humana. Então, o que a analogia do ser nos permitiu entender, de acordo com Söhngen, era nossa própria natureza e não a de Deus. Para entender alguma coisa sobre Deus, precisávamos de revelações. Este foi um pequeno pensamento que favoreceu Barth e enfraqueceu o ponto de vista de Przywara, que sustentava que nossa natureza sendo criada à imagem de Deus já implicasse o conhecer.

Barth seria persuadido pelas aberturas de Söhngen? Em “Church Dogmatics II” (Dogmas da Igreja II, em tradução livre) reconheceu que se Söhngen estivesse certo, “então naturalmente devo retirar minha afirmação anterior de que considero a analogia entis (analogia do ser) como 'a invenção do Anticristo'". Mas acrescentou que não tinha certeza se as visões de Söhngen representavam as da Igreja Católica: "Não estou ciente de que essa doutrina específica da analogia entis possa ser encontrada em qualquer outro lugar da Igreja Católica Romana". De certo modo, Barth estava certo. A Igreja ainda não havia sido instada a defender a analogia do ser de São Tomás contra uma crítica como a de Barth.

Hans Urs von Balthasar, aluno e amigo de Przywara que, em 1947, o trouxe à Suíça para se recuperar de doenças provocadas pela contínua vigilância nazista. Em “The Theology of Karl Barth”, Balthasar defendeu a analogia do ser, explicando que a alteridade transcendente de Deus não é diminuída por estar de certo modo presente em nós. É "um meio termo" entre um Deus absolutamente transcendente e incognoscível e um Deus imanente e conhecido. Balthasar acreditava que, após a publicação de seus livros e os de Söhngen, “a atitude de Barth mudaria gradualmente” para aceitar a analogia do ser “dentro de um contexto de uma analogia abrangente de fé”.

Ele estava certo? Ninguém pode ter certeza. Barth não discutiu a analogia do ser em qualquer livro escrito após a publicação do trabalho de Balthasar. Nos seus últimos anos, Barth confessou ter dito coisas “desagradáveis” sobre a analogia do ser. Mas em Princeton, em 1962, e em Tübingen, em 1964, manteve sua oposição à Analogia do Ser de Przywara.

No entanto, em seus últimos trabalhos, Barth incorporou um tipo diferente de analogia em sua própria teologia - não a analogia do ser, mas do ser-em-Cristo, em sua graça. Ele ainda reconheceu que, sem alguma conexão analógica com Deus, não poderíamos ter nenhuma base para escolher uma interpretação da Escritura. Para evitar o relativismo e a falta de esperança, Barth escreveu em “Christian Dogmatics III” que a humanidade é criada com a capacidade, e até a disposição, de receber a Palavra e a graça de Deus: “nosso ser e nossa natureza estão destinados, preparados e equipados para a graça. Esta preparação permanece mesmo após a Queda”.

Para Aquino e Przywara, o que resta depois da Queda é a natureza humana, análoga a Deus. Para Barth, o que resta é a graça de Deus, pois ele estava determinado a nos redimir o tempo todo e esta determinação sempre permaneceu “dentro de nós”. Estamos equipados para sermos redimidos, receber Cristo e as Escrituras. Além disso, pelo fato de que a humanidade é criada para receber a Palavra de Deus, cada um de nós pode ser um parceiro na graça de Deus. Embora não possamos acrescentar nada a essa graça, nossa fé pode dar testemunho da determinação de Deus em sua missão de salvar a humanidade.

Esta foi uma visão muito mais otimista do que se poderia esperar da oposição repetida de Barth a Przywara. Olhando para os registros violentos que temos na humanidade, Barth estava certo ao insistir que não poderíamos ser deixados por conta própria, sem uma orientação superior. Przywara respondeu: não estamos sozinhos, nossa própria natureza nos conecta ao nosso Criador. Isso estimulou Barth a desenvolver seu próprio entendimento de como Deus possibilita que recebamos sua revelação. No final, Barth - por toda a sua insistência na pecaminosidade humana - reconheceu que Deus deve ter nos dado algo que nos permitiu entender e responder à sua Palavra.

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