Em tempo de pandemia, obedecer aos médicos. Artigo de Aloir Pacini

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25 Junho 2020

"Nessa guerra cultural ou na politização da saúde que estamos vivendo por conta do corongo (covid-19), quem está levando o pior é o povo, passamos de 50 mil mortos quando outros países possuem baixo número de mortes. Isso não pode ser acaso, diz respeito a problemas quando o presidente quer se fazer de médico e receitar remédio, e os médicos não possuem autoridade de conduzir a saúde", escreve Aloir Pacini, padre jesuíta, antropólogo e professor da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT.

Eis o artigo.

Recebi a notícia que médicos estão sendo ameaçados por não receitarem cloroquina[1]. E pensei numa máxima que os jesuítas trazem do fundador Santo Inácio de Loyola que possuía uma disciplina militar: em questão de saúde, obedeçam aos médicos. Nessa guerra cultural ou na politização da saúde que estamos vivendo por conta do corongo (covid-19), quem está levando o pior é o povo, passamos de 50 mil mortos quando outros países possuem baixo número de mortes. Isso não pode ser acaso, diz respeito a problemas quando o presidente quer se fazer de médico e receitar remédio, e os médicos não possuem autoridade de conduzir a saúde, mas principalmente por falta de hospitais públicos adequadamente preparados para conduzir os tratamentos para toda a população. Outro fator é que a doença e a medicina virou negócio para enriquecer alguns.

 

O buraco da agulha. (Obra do pintor e escultor russo Vladimir Kush)

Quero usar uma metáfora O buraco da agulha, para pensar o que é a pandemia no meio de nós. Para Vladimir, a expressão "surrealismo metafórico" descreve o seu trabalho, pois combina o realismo fantástico com detalhes que transportam o espectador para uma atmosfera de sonho, mas uma crítica ao ser humano que manipula até a palavra de Jesus. Cuiabá e Várzea Grande (Mato Grosso) vivem agora o lockdown[2] e os Xavantes lançaram uma Campanha Cidadã e Solidária em apoio às ações emergenciais de enfrentamento da Covid-19 entre os Xavantes, o A'UWE TSARI que se traduz por “ajude o povo Xavante”, ou simplesmente SOS XAVANTE.

SOS XAVANTE. (Imagem: Marcelo Okimoto/OPAN)

No dia 21/06 já eram 71 casos confirmados de corongo e 50 suspeitos, 24 estavam internados e 6 óbitos. Desses, 4 óbitos são da Terra Indígena São Marcos (município de Barra do Garças). As informações são que um estudante Xavante, assintomático, voltou da UFG e a doença foi se espalhando. A tradução de parte de um vídeo feito por Crisanto Rudzo, mesmo internado no hospital em Barra do Garças, é importante nesse contexto para mostrar a preocupação, depois que pegou a doença:

“Xavante, povo verdadeiro, vocês da Terra Indígena São Marcos, estou gravando para vocês, mandando que vocês parem de fazer aglomeração, agora estou no hospital, falando daqui. Prestem muita atenção no que vou falar, se você está se sentindo mal, que a saúde não está boa, seu peito está doendo, se está sentindo falta de ar, não espere muito, você deve buscar o tratamento. Quando a doença já estiver tomando conta, é muito difícil curar.”[3] 

No dia 22/06/2020, os Xavantes da Terra Indígena São Marcos encaminham ofício ao Ministério Público Federal (MPF) onde relatam o medo que sentem e os riscos de contágio com a covid-19: "Estamos todos morrendo! Não queremos privilégios, queremos respeito!”[4] O documento é assinado pelo cacique Vanderlei Barure Wadi Wadzereprowe, da Aldeia Nossa Senhora de Guadalupe e por Lucio Wa Ante Terowa, Secretário Executivo da Federação dos Povos indígenas de Mato Grosso (FEPOIMT).

Publicação do filho de Crisanto Rudzo, com seu pai e avô, internado no hospital de Cuiabá. (Imagem: Enviada pelo autor)

Para aprofundar um detalhe sobre a eficácia do tratamento com cloroquina desejo mencionar um aprendizado: cada corpo humano é único e possui reações singulares. Mas isso não significa que não existe remédio mais ou menos universal, quero somente dizer que o uso de fitoterápicos é uma atividade ancestral que devemos levar em consideração nesse tempo de pandemia, porque nos preparam para enfrentar o corongo, quando ele chegar, se chegar.

Vivo aqui na casa de Cuiabá com o Padre Renato Barth que está acometido por uma doença que não podemos dizer que seja causada pelo corongo, porque não foi feito teste. Uma reação é estranha, pois as pessoas sentem vergonha quando estão com essa doença, sentem-se como se fossem leprosos. Os jesuítas nas Missões não preocupavam-se somente com as celebrações de Missas, com o que hoje poderíamos pensar como a vida espiritual como se isso não tivesse nada a ver com outras dimensões da vida das pessoas, a comida, a casa, a saúde, a política etc. Ou seja, nós somos um todo e temos que pensar as pessoas não como um aglomerado de células, mas um ser humano total (corpo, mente e espírito).

Por isso não se curam as pessoas apenas com remédio, mas exigem também rituais, com rezas e cantos. Os problemas de saúde envolvem a pessoa toda, também o fenômeno da colonização. A saúde buscada pela cura xamânica precisa envolver os poderes da pessoa enferma e da etnia representada pelo pajé que conhece as palavras encantadas que seriam usadas e as plantas que facilitariam a penetração das palavras pronunciadas nos lugares mais remotos da pessoa, para expulsar os vírus e bactérias que fazem mal ao equilíbrio da pessoa.

As atividades evangelizadoras e missionárias da Companhia de Jesus somente deram certo porque tinham nas Missões boticas e santas casas em locais onde os médicos e boticários eram os próprios indígenas assessorados pelos alguns jesuítas que estudavam como São José de Anchieta que chegou a fazer um livro sobre as plantas medicinais utilizadas pelos indígenas [5] e disseminar esse conhecimento para todas as Missões. Esse cuidado com a saúde fazia com que se fabricavam também medicamentos, aplicavam, distribuíam e comercializavam toda sorte de medicamentos. Podíamos falar da erva-mate, mas quero falar da crinaquina (quina peruviana), cuja cloroquina é derivada.

Sabendo da medicina dos jesuítas, por volta de 1800, o cuiabano Padre José Manoel Siqueira[6] já estudou a quina, substância predecessora da cloroquina e da hidroxocloroquina para o tratamento da malária e outras doenças. Encontrou a “casca peruviana” no cerrado seco e frio do morro São Jerônimo, na região de Chapada dos Guimarães, como narra o bispo Dom Francisco de Aquino Corrêa, que assim fala do Padre de sua Diocese:

"Em junho de 1802, subia novamente padre Siqueira a Serra de São Jerônimo, cujas cercanias amplamente cursou, no intuito de colher maior quantidade da valiosa casca, beneficiá-la, estudar melhor o habitat da nova cinchoneira, a possibilidade da sua cultura e transplantação, tudo em conformidade com as instruções recebidas da metrópole".

Alguns dos medicamentos que usamos hoje e que está no foco da polêmica deve-se ao conhecimento indígena que tradicionalmente observavam a natureza que os envolvia para encontrar o tratamento das doenças. A malária que matava muitos na Europa veio a bordo dos navios negreiros para o Brasil e foi também para a África. Esse mal que produzia febres altas cíclicas, calafrios, dores no corpo e na cabeça.

Os indígenas ensinaram os jesuítas no Peru a trataram a malária com crinaquina, que passou para o mundo como o remédio dos jesuítas porque os jesuítas levarem mudas da planta à Europa. No século 18, Joseph Pelletier e Joseph Caventou, dois químicos franceses isolaram a quinina. Hoje a conhecemos pouco como cinchona mas pelo seu princípio ativo, a quinina, que os índios já usavam como antitérmico (febre malárica).

Mas eu presenciei o trabalho do Padre Balduino Loebens e equipe no uso da cloroquina entre os Rikbaktsa no tempo em que a malária matava muita gente. A doença era endêmica na região de Juína por causa dos garimpos e não conseguíamos eliminar, trazendo muitas vítimas fatais, pois a cloroquina tinha efeitos colaterais sérios. Somente quando o Padre Balduino (falecido em 7/09/2014) começou a usar a homeopatia com o plasmódio da malária é que conseguiram dominar a doença da malária na região. Graças à Pastoral da Saúde já não morrem tantos com a malária.

Vi em Malhada Grande, no sertão da Bahia, sentado no banco de uma casa onde havia sentado Lampião e Maria Bonita uma briga entre um lagarto e uma jararaca. Quando a cobra picava o lagarto, este corria e mordia a raiz de uma planta. Com essa planta que foi desenvolvida para picadas de animais peçonhentos, usamos o Específico Pessoa, já vendido em farmácias. Depois de usar desse remédio, voltava até conseguir matar a cobra. Foi uma senhora da casa que pediu para observar a sabedoria da natureza. Os cientistas não descartam os medicamentos utilizados pelos indígenas e a nossa biomedicina tem que ser humilde para aprender com outras formas de tratamento de doenças.

Eu mesmo vi a eficácia do melão-de-são-caetano, quando peguei a dengue ingerindo o sumo dessa planta, mas é muito usada contra doenças de pele, em banhos. Em homenagem ao cacique Lourenço (62 anos) do povo Kaingáng, que faleceu no dia 22/06, acometido pelo corongo, que rebatizou com o nome de novalgina uma espécie de artemísia que tem efeitos antifebris, aqui em casa o Padre Renato Barth está utilizando a Artemísia Anua, um remédio que ele trouxe da África e conseguiu equilibrar-se nessa cura da doença que o tomou.

O central na Antropologia é o reconhecimento do caráter simbólico como primordial na vida social-cultural, a dádiva como forma e razão das trocas simbólicas, o que faz superar a necessidade de incorporar o Outro, somente queremos entrar em comunhão e nos comunicar com os estudantes (indígenas) como diferente, dialogar sem abrir mão do próprio num falso romantismo culposo que escolhe o Outro “contra nós”, nem um etnocentrismo que escolhe eliminar o Outro. Aqui sabemos que o Cristo já indicou essa atitude com a categoria Amor.

Assim, podemos dizer que o caráter simbólico da comunhão e da comunicação já estava presente em Jesus Cristo quando deixou a Igreja para construir um lugar onde tudo é colocado em comum como nas Missões indígenas. Com os limites próprios de sua época, mas acolhendo o ponto de vista dos indígenas, puderam entrar em comunhão com eles. Os jesuítas fizeram frente à colonização reinante nas instâncias de poder dos exploradores que vinham para enriquecer, na lógica do capitalismo.

Equivocado é dizer que essas iniciativas das Missões jesuíticas são da mesma natureza que os empreendimentos dos colonizadores com seus Fortes, canhões e exércitos que se estabeleciam na dinâmica dos Estados nacionais, motores do capitalismo ocidental. Penso que essa diferença é reconhecida pelos próprios povos indígenas que aderiam às Missões e encontravam ali um bem estar muito diferente do trabalho escravo nas fazendas, contudo, distante de sua vida livre nas florestas. Mas o sinal mais claro de que essa iniciativa inaciana estava certa, é que o capitalismo ocidental não aceitou esse Outro, ou seja, podemos ver o que o sistema colonial fez com essas Missões: a expulsão dos jesuítas ou a sua destruição bélica[7].

Com o fogo de São João Batista vamos queimar o corongo e as maldades do capetão, para termos um feliz solstício de inverno ou de verão com a luz e energia renovada do tata inti, do “pai sol” que passa a irradiar e a iluminar por mais tempo a pachamama e a todos que nela vivemos.

 

Notas: 

[1] Clóvis Arns da Cunha no Conversa com Bial. Colaboração para o UOL, 19/06/2020. Disponível aqui.

[2] Justiça manda implantar barreiras e decreta lockdown. Disponível aqui.

[3] Disponível aqui.

[4] Disponível aqui.

[5] Depois da expulsão dos jesuítas dos domínios portugueses e espanhóis o tesouro dos jesuítas que foram encontrados não era ouro nem prata, mas uma série de obras (manuscritos e livros) que dão pistas sobre a ampla rede de informações e conhecimento produzida e transmitida entre os inacianos. A atuação dos jesuítas na confecção, elaboração e disseminação de mezinhas, um conhecimento das doenças que registravam suas experiências e indicações para a manipulação e aplicação de remédios, verdadeiras coleções de receitas que conjugavam os saberes dos médicos mais destacados daqueles tempos, entre eles os indígenas pajés, elaboradas e preparadas em suas boticas para medicar as pessoas que viviam nessas Missões.

[6] Foi ordenado aos 32 anos, em 1782, no Rio de Janeiro, quando ainda éramos império e a coroa decidia a vida dos clérigos. Atuou como Padre cerca de oito anos em Cuiabá e voltou a estudar em Portugal Filosofia e outras áreas da História Natural, especialmente Botânica, uma de suas paixões. Recebeu o título de “professor régio de Filosofia Racional e Moral” e associou-se à Academia Real das Ciências de Lisboa e voltou à terra natal, em 1798, e faleceu em 1825. Em “O Romance da Quina”, o Padre Siqueira descreve dois tipos de quina, a vermelha e a amarela, e menciona que colheu cinco arrobas da primeira e uma da segunda. Em 1928 Langsdorf também fala da “fava de Santo Inácio” na Chapada dos Guimarães onde teve o aldeamento de Santa Ana conduzido pelo jesuíta Estêvão de Castro entre 1750 e 1759.

[7] Nas Missões dos Guarani, por exemplo, o império de Espanha e Portugal se juntaram com seus exércitos para devastar essa experiência humana original. Pombal também conseguiu nas alianças das cortes europeias com as coloniais a supressão da Companhia de Jesus, nem que para isso tivesse que aliciar o Papa da época.

 

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