As missões jesuítico-guarani. Entrevista especial com Bartomeu Melià

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23 Outubro 2010

"A missão é uma experiência de contato”, com a finalidade de contar a “história de Jesus”, resume Bartomeu Melià, à IHU On-Line. Há 40 anos, o jesuíta convive com os guarani e dedica-se ao estudo dessa cultura milenar. A partir desta experiência missioneira, ele é categórico ao avaliar as semelhanças e diferenças entre a cosmologia indígena e a religião cristã: “A religião católica ainda está muito dominada pela hierarquia e pelo poder de uns sobre os outros. A diferença própria dos carismas se faz notar, sobretudo, no exercício do poder doutrinal e administrativo, o que leva a grandes desigualdades entre os que têm a mesma fé e a mesma esperança.” Para ele, a religião guarani “é mais igualitária (...) homens e mulheres, podem receber a inspiração divina, e de fato a grande maioria deles a recebe”.

Melià é o conferencista da noite do dia 26-10-2010, do XII Simpósio Internacional IHU – A Experiência Missioneira: território, cultura e identidade. Às 20h, ele abordará o tema A cosmologia indígena e a religião cristã: encontros e desencontros.

Melià é pesquisador do Centro de Estudos Paraguaios Antonio Guasch e do Instituto de Estudos Humanísticos e Filosóficos. Sempre se dedicou ao estudo da língua guarani e à cultura paraguaia. Doutor em Ciências Religiosas pela Universidade de Estrasburgo, conviveu com os indígenas Guarani, Kaigangue e Enawené-nawé, no Paraguai e no Brasil. É membro da Comissão Nacional de Bilinguismo, da Academia Paraguaia da Língua Espanhola e da Academia Paraguaia de História. Entre suas publicações, citamos El don, la venganza y otras formas de economía (Assunção: Cepag, 2004).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como descrever a experiência missioneira no Paraguai, especialmente no que se refere à religião entre os supostos feiticeiros guaranis e os sacerdotes jesuítas?

Bartomeu Melià – A missão é uma experiência de contato. Nesse caso, é o missionário que vai ao encontro do outro, com a finalidade de fazer com que esse outro conheça uma nova história da qual ainda não ouviu nada: a história de Jesus. Isso que parece tão simples supõe muitas condições e contextos. É preciso comunicar-se, e essa comunicação tem que se relativamente duradoura. Os primeiros jesuítas do Paraguai, em 1588, começaram com breves e superficiais missões itinerantes. O resultado foi um fracasso.

Só em 1610 – estamos celebrando o IV centenário –, os jesuítas começaram a missão por redução. O padre Antonio Ruiz de Montoya expressou claramente: “Chamamos reduções os povos de índios que, vivendo à sua antiga usança (…), separados, (…), a diligência dos Padres os reduziu a populações grandes e à vida política e humana”.

Os Guarani são, até hoje, especialmente religiosos, e não é de se estranhar a grande quantidade de conflitos que houve entre os chamados guarani e os sacerdotes jesuítas. Uma verdadeira guerra de messias, uns mantendo a religião tradicional, outros propondo uma nova linguagem e prática religiosa. A morte do hoje santo mártir Roque González de Santa Cruz se deve a um choque entre duas religiões e dois modos de ser.

IHU On-Line – Que aspectos favoreceram o processo de conversão dos guarani ao cristianismo? O temor da escravidão e da morte foram fundamentais?

Bartomeu Melià – Na realidade, as missões jesuíticas do Paraguai começam no pleno processo colonial, quando o sistema da encomenda, que consistia em entregar um determinado número de índios a um colono espanhol, para que lhe servissem por vários meses por ano, em troca de proteção, “civilização” e cristianização, já estava produzindo estragos no modo de viver dos Guarani, em seus costumes e em sua saúde. A encomenda, na realidade, era um “cativeiro dissimulado”. Desde o início do século XVII, os bandeirantes de São Paulo também iam penetrando na província do Paraguai, levando os índios como cativos para vendê-los nos engenhos de açúcar do Rio de Janeiro. Muitos já morriam pelo caminho.
As missões se apresentaram como lugares de proteção, e os jesuítas assumiram decididamente a defesa dos Guarani, conseguindo inclusive da Coroa espanhola, em 1640, o direito de utilizar armas de fogo para sua defesa. Antes dessa data, no entanto, muitos povos ou reduções foram destruídos, tiveram que ser abandonados e relocalizados em outros lugares. Com o tempo, nos 30 povos, chegou-se, em 1732, a uma população de 141.182 pessoas.

Os Guarani conheceram e apreciaram essa segurança, que se tornou mais efetiva com o passar os anos. A vida nos povos das Missões chegou a constituir um novo modo de ser que os Guarani sentiram como próprio e diferente dos colonos espanhóis. Na realidade, as missões, povos ou reduções guarani jesuíticas foram uma colônia espanhola sem colonos. Para Voltaire, “le triomphe de l’humanité”.

IHU On-Line – Quais são as diferenças entre os índios pré-cristãos e os pós-cristãos?

Bartomeu Melià – Os jesuítas consideraram que três formas da vida e da cultura guaranis deviam ser proscritas para os cristãos: a nudez, a poligamia e a antropofagia. De fato, os Guarani abandonaram-nas tão rapidamente que se pode supor que não as consideravam tão essenciais. Foi mantida a língua guarani, o sistema econômico da reciprocidade sem mercado nem moeda dentro dos povos e a agricultura tradicional, que foi incentivada. Foi novidade a urbanização, com edifícios monumentais como as igrejas, os colégios onde estavam os padres e as oficinas e escritórios, a criação das vacarias, o exército com armas de fogo.

A religião tradicional com seus cantos e danças, conduzida e animada pelos xamãs, que eram chamados de feiticeiros pelos padres, foi substituída pela liturgia cristã, centrada na missa à qual se acudia mais de uma vez por semana, celebrada solenemente com cantos e música em templos rica e artisticamente guarnecidos com pinturas e imagens barrocas, próprias da época.

A grande praça do povo, nos domingos e festas, era cenário de diversas representações dramáticas, desde autos sacramentais até óperas, assim como diversos jogos e simulacros de lutas. Quando, na Europa, ainda não era conhecido, já se jogava entre os Guarani com bolas de borracha e com o pé. Isto é, foot-ball, como relatam com detalhes, mas sem dar as regras do jogo, os padres José Cardiel e Josep Manuel Peramàs.

IHU On-Line – Que encontros e desencontros pode-se perceber no universo simbólico entre a religião guarani indígena e a religião cristã?

Bartomeu Melià – A religião católica ainda está muito dominada pela hierarquia e pelo poder de uns sobre os outros. A diferença própria dos carismas se faz notar, sobretudo, no exercício do poder doutrinal e administrativo, o que leva a grandes desigualdades entre os que têm a mesma fé e a mesma esperança. As classes sociais são, na Igreja, tão marcadas quanto na sociedade civil. A religião guarani é mais igualitária. Todos e cada um dos Guarani, homens e mulheres, podem receber a inspiração divina, e de fato a grande maioria deles a recebe. Em suas cerimônias rituais, todos participam por igual, mesmo que sejam dirigidos por xamãs que, ao longo da vida, se tornam credores de reconhecimento e de respeito pela sua vida ao serviço dos demais e por suas qualidades espirituais.

O padre Montoya dizia que os Guarani se distinguiam por serem “finos ateístas”, o que não quer dizer ateus, mas sim que prescindiam de imagens e de objetos excessivos, o que os torna mais espirituais e dependentes unicamente da palavra inspirada que supõe uma notável vida ascética e desprendida das coisas materiais. Os pa’i e as ha’i – chamados também de ñande ru e ñande sy, nossos pais e nossas mães –, não só cantam e dirigem a dança, mas também costumam ser médicos, educadores e assessores da comunidade. Nesse sentido, cumprem funções sociais e espirituais mais claras do que os sacerdotes católicos em nossa sociedade.

IHU On-Line – O senhor conviveu com as comunidades indígenas desde 1969. O que destacaria dessa convivência?

Bartomeu Melià – Minha experiência começa em 1969, quando entrei em um lugar do Caaguasú, de cujo nome sempre me lembro. Mbariguí é até hoje um lugar onde as famílias guarani mbyá estão morando em plena selva. Já haviam tido seu 12 de Outubro [data da independência do Paraguai], seus primeiros contatos com a sociedade branca no início do século XX, quando estavam nas orlas do Monday, mas depois daquele contato inicial, do qual lhes havia ficado o uso da roupa e de alguns utensílios de ferro, haviam voltado para a vida do monte, para a sua liberdade antiga, ao seu tekó ymaguaré, dominado pelas longas horas de canto e de dança no opý, a casa de reza. Do seu antigo primeiro contato, conservavam o batismo cristão e a mudança de nome, ou, melhor dito, a duplicação de seu nome tradicional com outro emprestado do santoral cristão.

A cada dia percorríamos o monte em busca de mel e de palmito e passávamos revista às armadilhas, onde comumente algum animal havia caído: um pequeno porco do mato ou um veado. De passagem, se podia encontrar algum lagarto ou se tirava um tatu da sua cova. O índio Mbyá com quem eu caminhava ia tocando a flauta. Nos dias de inverno, dormíamos com os pés muito perto do fogo, tomávamos mate muito cedo à espera de que a neblina vivificante da madrugada se dissipasse, dissolvida pelo sol que entrava radiante pela porta da choça. Era um momento de encanto único. É a vida que surge de novo.

Um dia, ao sair do tekoa, como chamam o lugar e o ambiente em que vivem, um trator da colônia dos Mennonitas de Sommerfeld estava abrindo uma picada. Era um novo caminho, que anunciava o desmatamento da selva e sua conversão em campos de soja. A terra e os territórios já não seriam mais os mesmos.

IHU On-Line – Quais são as novidades de suas pesquisas sobre a língua guarani do século XVIII?

Bartomeu Melià – De certo modo, está de moda agora, entre os linguistas, o registro de corpus que dão testemunho real do uso da língua em um momento dado, pelo menos tal como aparece nos documentos. No Paraguai, estamos às vésperas de celebrar o Bicentenário da Independência de 1811 e queríamos saber qual era o guarani que se usava naqueles anos. Reuni uma série de uns 100 manuscritos, quase todos inéditos ainda. Transliterei-os à ortografia atualizada e os estou traduzindo. Em 2011, devem ser publicados em edição fac-símile, com sua tradução e notas correspondentes. É nisso que estamos.

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