Thomaz Lisboa: um exemplo da radicalização da missão da Igreja junto aos povos indígenas. Entrevista especial com Aloir Pacini

Thomaz Lisboa | Foto: Guilherme Cavalli

Por: Patricia Fachin | 30 Março 2019

Thomaz de Aquino Lisboa, que faleceu no dia 22 de março de 2019 aos 82 anos, “teve sempre muita lucidez para saber como reagir diante dos desafios de seu tempo”, diz o padre Aloir Pacini à IHU On-Line, ao comentar a atuação de Lisboa na recondução da missão da Igreja junto às comunidades indígenas nos anos 1970 no Brasil, e seu trabalho na Operação Amazônia Nativa - Opan, e na fundação do Conselho Indigenista Missionário - Cimi, juntamente com Burnier, Antonio Iasi, Vicente Cañas, Adalberto Holanda Pereira e Egydio Schwade. Lisboa e seus contemporâneos “pensavam a Missão e os efeitos destas Missões junto aos indígenas, por isso perceberam com clareza que as ações do Estado e mesmo da Igreja junto aos povos indígenas traziam mais prejuízos do que auxílios de fato”. Entre as iniciativas de Lisboa, Pacini lembra que ele assinou o documento de denúncia Y-Juca-Pirama. O índio: aquele que deve morrer, em 1973, em “um momento chave na história dos povos indígenas durante o regime militar”.

Segundo Pacini, o trabalho de Thomaz Lisboa contribuiu fundamentalmente para mudar o modo de tratar a questão indígena no Brasil e fez frente ao projeto governamental de integração do indígena à sociedade nacional. “Em vez de catequizar e trazer os indígenas para serem mais um brasileiro sem identidade e sem direitos, o trabalho era inverso: garantir seus direitos ao território tradicional e trabalhar estreitamente com eles para que mantivessem seus costumes tradicionais como legítima forma de viver neste mundo, e mais, estas maneiras de eles viverem tinham um ensinamento valioso para toda a sociedade brasileira, para a Igreja”, conta.

Aloir Pacini (Foto: Reprodução Facebook)

Aloir Pacini é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - Faje. Padre jesuíta, é mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e doutor na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Atualmente é professor da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como o senhor conheceu Thomaz de Aquino Lisboa? Quais são suas lembranças sobre ele, seu trabalho e sua atuação com os indígenas?

Aloir Pacini - Desde que saí de casa em 1983 para a Unisinos e fiz um processo de discernimento para ser jesuíta, os missionários Claudio Lehnen e Felício Fritsch, que eram, respectivamente, de Dois Irmãos e Novo Hamburgo, estavam na nossa roda de conversa, e fizeram os últimos votos no final daquele ano e foi toda uma movimentação na região. No ano seguinte entrei para a Companhia de Jesus e conheci o Thomaz através de comentários, pois no noviciado estava um que tinha vindo do Mato Grosso com esta vocação indigenista. Falava-se muito da radicalidade de inserção do Irmão Vicente Cañas com os Enawenenawe e do Thomaz Lisboa com os Mÿky. Os diálogos que mantínhamos entre nós noviços eram sempre muito fortes em relação aos jesuítas que tinham este despojamento de estarem morando com os indígenas, sujeitos aos processos vividos na região, com ameaças de morte e tudo o mais que esta vida missionária assim significava.

Os Mÿky (com a supervisão da esposa) chamaram Manoel Manoki para preparar o sepultamento do amigo Thomaz e o fizeram com muito esmero. O pajé cantava e conduzia os rituais com sentimentos e dor; a vida possui dentro de si este momento de morte, mas desta forma anunciam que a continuidade da vida é um mistério que deve ser cuidado. Encarregaram o Padre Rafael Lería para registrar, a ele agradeço as fotografias.

IHU On-Line - Quem foi Thomaz de Aquino Lisboa e que papel ele desempenhou no trabalho missionário junto aos indígenas brasileiros, especialmente aos povos que estavam em situação de isolamento em Mato Grosso?

Aloir Pacini - Thomaz Lisboa teve sempre muita lucidez para saber como reagir diante dos desafios de seu tempo. Ele é um dos que assina o documento de denúncia no natal de 1973 Y-Juca-Pirama. O índio: aquele que deve morrer (CNBB). Trata-se de um momento chave na história dos povos indígenas durante o regime militar e a Igreja foi a instituição que teve coragem de enfrentar os desmandos provocados durante a ditadura. No Mato Grosso, o grupo de jesuítas foi profético na denúncia destes massacres e assim se articulava para que as propostas de desenvolvimento do país às custas da morte dos indígenas não fossem tão perversas. Foi ele que teve a coragem de fechar o Internato de Utiariti e ir à frente neste processo de inserção junto aos povos indígenas. Um momento crucial foi quando recebeu a proposta de casamento dos Mÿky e ele fez um discernimento para saber que o mais radical naquele momento era fazer esta opção, com todas as consequências e incompreensões que esta atitude representava. Thomaz Lisboa recebeu dos Mÿky o nome Jaúka, a quem deu a vida concretamente na maior parte de sua vida missionária. Casou-se com Ñankau Mÿky em 1987, e teve um casal de filhos, Tupy e Jemiu, e sete netos.

Trabalho com os indígenas

Para responder esta pergunta, vou usar do motivo que trouxe os jesuítas para o Mato Grosso em 1929, depois da restauração, o trabalho com os indígenas. Como já tinham uma atuação discernida com os povos indígenas, foram chamados pela Funai para atuar junto aos Tapayunas, em 1969, porque estes estavam sendo dizimados por uma epidemia de gripe, levada por uma reportagem que queria registrar a ação pacificadora da Funai. Com o Irmão Vicente Cañas, espanhol radicado no Brasil, Thomaz e equipe conseguiram que sobrevivessem 41 desta etnia. Depois Thomaz e Kiwxi estiveram conduzindo duas operações de contato com os Mÿky (1971) e os Enawenenawe (1974) [1] .

Compreender que o governo militar estava distribuindo as terras do Mato Grosso para a colonização é importante para também entender por que a Prelazia de Diamantino (MT) atua tão profeticamente na região norte, pois os jesuítas trabalharam intensamente nesta região com os indígenas e criaram instituições que pudessem levar uma mudança de rumo no extermínio dos indígenas no Brasil. Não é por acaso que a Primeira Companhia de Jesus teve tanto problema com os colonizadores e sempre estava em conflito com as instituições da época e finalmente foram expulsos em 1759. Aqui a mudança começou com as primeiras terras indígenas demarcadas em 1968 e os jesuítas indo morar como os índios em suas aldeias.

Pressionaram para o governo demarcar e homologar as Terras Indígenas Enawenenawe (1987) e Mÿky (1996). Claro que a primeira custou a vida do Irmão Vicente Cañas. Em 1987 Kiwxi foi assassinado em seu barraco que fora construído com o auxílio dos Rikbaktsa para cuidar melhor da saúde dos Enawenenawe, distante alguns quilômetros de sua aldeia para ali fazer a quarentena e não levar doenças aos indígenas.

Thomaz, profundamente identificado com esta visão de trabalho inculturado, radicalizou sua entrada no meio do povo e casou-se com Ñankau. Passou a viver a rotina dos Mÿky, uma etnia que vivia refugiada depois do ataque dos seringueiros por volta de 1910. Ao abraçar o trabalho missionário por mais de 50 anos, Thomaz também é um exemplo de coerência e perseverança nos compromissos assumidos. Muitos jovens católicos foram enviados a diversas prelazias de todo o país a fim de buscar a “encarnação” com os povos indígenas.

IHU On-Line - Como se deu a atuação de Thomaz Lisboa na Missão Anchieta - MIA, Operação Anchieta - Opan (hoje Operação Amazônia Nativa) e posteriormente no Conselho Indigenista Missionário - Cimi? Em que consistia sua proposta de elaborar uma nova forma de indigenismo e missão?

Aloir Pacini - A Missão Anchieta - MIA era o início dos trabalhos com os indígenas na Missão Prelazia de Diamantino e o Padre João Dornstauder havia chamado voluntários da Áustria para este trabalho. Depois foram chamados também do Brasil voluntários, especialmente das Congregações Marianas e com isso foram aglutinados estes que não eram jesuítas e nem Irmãs na Operação Anchieta - Opan em 1969. Mais tarde, vendo a necessidade de aglutinar os trabalhos da Igreja junto aos povos indígenas, e não sendo mais possível cada congregação religiosa fazer seus trabalhos e contribuir com a divisão entre os indígenas, posteriormente criam o Conselho Indigenista Missionário - Cimi, em 1972. Assim o braço indigenista da Prelazia de Diamantino que era Missão Anchieta, foi capaz de um novo indigenismo missionário que não focasse na catequese, mas na garantia de direitos dos povos indígenas, o que deixou o governo em polvorosa.

Importante é perceber que Thomaz não trabalhou sozinho, mas fazia parte de um grupo de companheiros jesuítas do calibre dos Padres Burnier (martirizado em Ribeirão Cascalheira em 12/10/1976) [2] Antonio Iasi, Vicente Cañas (martirizado em 06/04/1987 junto aos Enawenenawe) [3], Adalberto Holanda Pereira e Egydio Schwade, que tinham carismas diferentes, mas colocados a serviço dos povos indígenas. Mas o mais importante é que pensavam a Missão e os efeitos destas Missões junto aos indígenas, por isso perceberam com clareza que as ações do Estado e mesmo da Igreja junto aos povos indígenas traziam mais prejuízos do que auxílios de fato. A mudança começou com o Concílio Vaticano II e se alastrou para as conferências de Barbados: a decisão de grupo foi garantir o direito indígena fundamental da posse e usufruto das terras tradicionais, respeitar suas culturas e, no seu bojo, as religiões indígenas muito associados aos tratamentos de saúde e trabalhar a conquista da escrita com uma educação diferenciada e específica a fim de favorecer a autonomia destes povos que estavam sendo invadidos e despojados desde a chegada dos invasores europeus (portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, ingleses etc.). Atento aos sinais dos tempos, Thomaz foi sensível o suficiente para estar com os outros jesuítas como Egydio e Cañas (Kiwxi) que eram mais práticos e menos sonhadores para enfrentar de forma orquestrada a opressão do sistema colonial. Jaúka clama por justiça desde o seu batismo de fogo, quando foi se colocar decisivamente a serviço para que sobrevivessem os Tapayunas (Kajkwakratxi), que viu serem levados, de forma criminosa, para o Xingu. Até hoje o Estado não devolveu a sua terra tradicional que já estava designada oficialmente para eles em 1968.

No encontro de 50 anos da Operação Amazônia Nativa - Opan, Thomaz senta-se ao lado de Egydio Schwade, ao microfone. Foto: Egon Heck 

A profecia de Thomaz está nas suas palavras, nos seus escritos e nas suas atitudes, também no casamento assumido com uma indígena. O novo indigenismo missionário, construído na ruptura-continuidade da Missão Anchieta com a Opan e o Cimi, possui uma arquitetura de atuação específica tanto nos métodos, práticas e discursos, que são claramente diferenciadas das agências indigenistas do governo (SPI e Funai) ou dos institutos de pesquisa acadêmica. Este novo posicionamento inculturado e profético da Igreja na defesa dos povos indígenas, de suas identidades culturais e de seus territórios, trouxe a coerente consequência de correr a mesma sorte que os irmãos indígenas: a perseguição e o martírio de muitos missionários e missionárias! Dois desses mártires eram jesuítas e estavam profundamente inseridos na Missão Anchieta e em todas as mudanças de paradigma missionário que naquela época se vislumbrou.

Thomaz, quando estava inspirado, nos últimos tempos colocava seu xirete no nariz, o que o identificava desde o dia em que passou pelo ritual de iniciação e recebeu o nome Jaúka. Fundaram a Operação Amazônia Nativa - Opan, apoiaram a fundação do Conselho Indigenista Missionário - Cimi, e a partir da convivência nas aldeias favoreceram as assembleias dos povos indígenas.

Outro traço de sua profecia está na encarnação-inculturação que mostra um compromisso com a transformação da sociedade, algo próprio da práxis de Jesus Cristo que os jesuítas incorporam de forma particular. Thomaz acompanhou todas as etapas do Processo que apurava o assassinato de Kiwxi, desfecho difícil no Júri popular iniciado em 29 de novembro de 2017, um contentamento que Thomaz manifestava mesmo na sua saúde frágil. Thomaz já havia passado por um câncer de próstata, no ano passado vivera uma internação prolongada depois de uma infecção que foi muito difícil de curar por causa de bactérias resistentes, e recebeu o diagnóstico de câncer em estágio avançado uma semana antes. Morreu na sexta-feira (22), aos 82 anos de idade. Deixou a mulher, dois filhos, Tupy e Jemiu, e sete netos, todos vivendo na aldeia.

IHU On-Line – Qual é o legado de Thomaz Lisboa?

Aloir Pacini - O legado de Thomaz Lisboa no modo de tratar a questão indígena no Brasil muda de rumo e faz frente diretamente ao projeto governamental de integração do indígena à sociedade nacional. Em vez de catequizar e trazer os indígenas para serem mais um brasileiro sem identidade e sem direitos, o trabalho era inverso: garantir seus direitos ao território tradicional e trabalhar estreitamente com eles para que mantivessem seus costumes tradicionais como legítima forma de viver neste mundo, e mais, estas maneiras de eles viverem tinham um ensinamento valioso para toda a sociedade brasileira, para a Igreja. Isso é o que o Papa Francisco está trazendo para a nossa reflexão com a Encíclica Laudato Si' e com o Sínodo da Amazônia.

Thomaz veio como estudante jesuíta para o Mato Grosso em 1960 e foi criativo na sua forma de viver o cristianismo no meio dos índios. Quando designado como diretor do Internato de Utiariti, não teve dúvidas de atrair o Padre Arrupe em 1968 e propor claramente o seu fechamento, para ir morar com os indígenas de forma encarnada-inculturada. O Geral avisou que estas posturas trariam mártires, mas ele estava disposto a correr o risco. Iniciado ritualmente entre os Mÿky, depois de os ter encontrado fragilizados somente com 23 pessoas em 1970, não teve como dizer não e assumiu o casamento com esta etnia.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Aloir Pacini - Thomaz era um homem bom, generoso e paciente. Quando vim morar em Cuiabá, diante dos problemas psiquiátricos por causa da opção acima de suas forças, nós, jesuítas, pensamos em pagar Unimed para Thomaz, bancar sua seguridade social para poder se aposentar, pois tempos difíceis viriam por causa dos remédios fortes que passou a usar sistematicamente.

Trouxe da família profundamente católica uma religiosidade entranhada. O pai tornou-se diácono em Itapetininga (SP) e, entre os treze irmãos, três ficaram jesuítas e duas Irmãs consagradas. Assim partiu santamente, confessou-se, recebeu a unção dos enfermos e comungou no corpo e na Missão de Cristo. Sua vida foi doada aos povos indígenas e comprometeu-a radicalmente nesta Missão, até a sua saúde ficou fortemente prejudicada. Os amigos de Cuiabá se despediram dele na capela das Irmãzinhas da Imaculada Conceição no anoitecer do dia 22 de março de 2019. Ali tinham as Irmãs que o acompanham desde Utiariti. Depois seguiu com seu filho Tupy para ser sepultado na aldeia Japuíra, dos Mÿky, em Brasnorte, MT.

Em 1979, a Irmã Elizabeth Rondon Amarante, Irmã da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, uma das netas do marechal Cândido Rondon (1865-1958) também foi morar com os Mÿky, onde está até hoje. A Irmã Beth foi uma guerreira nestes dias junto ao Thomaz e à família dele. Nossa grande gratidão pelo bem que realiza junto desta etnia, não é por nada que é conhecida como Irmã Beth Mÿky. O sepultamento será no final da manhã seguindo os ritos cristãos católicos e Mÿky.
Termino esta homenagem ao legado deixado por Thomaz, com um escrito do Padre Paulo Lisboa, o irmão de Thomaz foi com o Padre Rafael que veio de Juína para representar a Companhia de Jesus. O escrito de seu irmão é forte, fala de sua “preciosa companhia nestes dias de dor misturada à alegria, de morte e ressurreição, no belo partir de Jaúka para a ‘Terra sem males’”.

“Legado deixado pelo mano Thomaz:

Não é meu propósito escrever sobre a pessoa de meu falecido irmão Thomaz. Isso cabe a outras pessoas amigas dele em suas lembranças e homenagens. Eu desejo apenas relatar a experiência emocionante pela qual passei, ao ter estado com ele na última manhã de sua vida terrena, culminada com a presença e participação em seu sepultamento, na aldeia Japuíra. Descreverei dois momentos de uma grande graça, recebida do grande Pai, como um legado.

Primeiro momento

Quero primeiramente dizer que a minha viagem a Cuiabá, onde o mano estava hospitalizado com câncer terminal, aconteceu no dia mesmo de seu falecimento, a 22 de março deste 2019, uma sexta-feira.

Graças ao bom Deus havia conseguido um voo bem cedo e assim ao chegar ao hospital Santa Rosa não era ainda as dez da manhã. Percebi logo que o Jaúka estava nas últimas: respiração ofegante e olhar perdido no infinito, como a esperar pelo último suspiro. Fiquei um bom tempo a seu lado, tentando que ele reagisse às minhas palavras e carícias. Na certa ele ouvia tudo e tudo guardava em seu espírito, ainda consciente.

Após uma hora de estar ali naquela simples enfermaria, dando paz e consolo também à esposa Nãnkaú e ao filho Tupy, retirei-me para a Residência Padre Burnier, na esperança de poder voltar naquela mesma tarde ao hospital. Contudo, isso não estava na história de Deus. Quando eu almoçava com outros colegas jesuítas, portanto pelas 11:30 horas foi-nos comunicada a morte do Thomaz.

No entanto, agradeci ao grande Pai do céu, ter permitido que eu o visse pela última vez, ainda com vida. Tive então a certeza de sua páscoa definitiva, após ter me ouvido e sentido como representante da sua família de sangue. Parece que eu o via então se desprendendo de tudo e já como transfigurado nos dizer: ‘cuidem dos pobres e dos mais desvalidos, à imitação de Jesus!’

Segundo momento

Na tarde desse mesmo dia 22 de março, enfrentaria a longa viagem até a aldeia do povo Mÿky. Estiveram me dando apoio e conforto durante todo o longo tempo, a companhia de três Irmãs ligadas ao Cimi, uma delas a Beth, bisneta do grande Rondon Amarante e residente na aldeia.

Thomaz sempre expressou seu desejo de ser sepultado na terra que ele e outros missionários jesuítas conseguiram para aquele povo, na época do primeiro contato, já quase em extinção, acossados pelos seringueiros. Durante a viagem eu imaginava como seria o sepultamento deste missionário com o coração ainda muito jesuíta, despedindo-se ritualmente daquelas crianças, jovens e adultos que o conheceram e amaram de perto.

Posso dizer que o longo momento do velório, à volta de um corpo agora transfigurado, em meio a flores e adereços indígenas, não me cansou. Eram cânticos e choros bem típicos dos mais velhos e muitos testemunhos bilíngues do que fora o líder branco aceito e respeitado há mais de 50 anos naquela aldeia.

Entre tantas expressões de carinho que o ritual, por ele mesmo significava, marcou-me a hora do sepultamento em cova não muito funda e aberta no pequeno cemitério uma particularidade. Thomaz levou consigo para junto do Senhor da Vida, tudo o que o mesmo Senhor lhe dera, como escritos, anotações, pertences e até roupas. Tudo colocado no caixão como frutos multiplicados a serem oferecidos. Só depois que tudo foi depositado junto ao corpo é que fecharam a urna e começaram a jogar a terra que agora cobre um filho que dignificou a ‘Mãe terra’”.

Para finalizar convém trazer a manifestação do bispo de Juína, Dom Neri Tondello que, mesmo estando em viagem acompanhou com sua solidariedade e orações os acontecimentos:

‘Em primeiro lugar, a minha solidariedade, meus sentimentos de dor pela passagem do nosso irmão querido, o Thomaz, que deu toda a sua vida acreditando no futuro de um povo simples, humilde, pobre e ameaçado de extinção, deu sua vida para defender essa grande bandeira. Ele nos deixa um legado forte de um homem que resistiu junto desse povo até o fim. Dele também aprendemos o compromisso de continuar na luta, no compromisso e na responsabilidade em favor deste povo. Que lá dos céus ele interceda junto de Deus para que esta missão de guardar os últimos e aos mais pobres seja compromisso desta nossa Igreja e, em particular, da Diocese de Juína. Deus o recompense. E que ele tenha uma feliz viagem à casa do Pai. E nós, como irmãos na fé, possamos dizer a Ele, muito, muito obrigado!’

E assim conclui: ‘Lamento pela sua passagem. Lamento não poder participar mais de perto deste momento de dor. Guardamos o legado de um homem de Deus que deu sua vida total pelos irmãos mais necessitados, os índios. Aprendemos com ele a lutar com esperança. Nossa missão e compromisso é prosseguir na fraternidade por uma terra de irmãos e pela paz na terra’”.

Notas:

[1] No rio Juruena, em Mato Grosso, o Padre Dornstauder tinha pacificado os Rikbaktsa. Mais nas cabeceiras deste rio, Thomaz e Kiwxi com os Rikbaktsa se aproximaram do grupo que era chamado “Salumã” pela etnografia da região. Os trabalhos dedicados do Padre Adalberto Holanda Pereira e Bartomeu Melià fez com que chegassem à autodenominação Enawenenawe. Esses diálogos iniciais foram fotografados e filmados.

[2] O Pe. João Batista Burnier foi baleado no dia 11 de outubro de 1976. O tiro a “queima-roupa” do policial levou-o à morte horas depois (no dia 12). Estava junto ao Bispo Pedro Casaldáliga defendendo duas mulheres injustamente encarceradas e denunciando que estavam sendo torturadas na Delegacia de Polícia de Alta Cascalheira (MT), na Prelazia de São Felix do Araguaia. No mesmo local onde foi martirizado, o povo derrubou a delegacia-cadeia e construiu ali um memorial. No outro lado do Ribeirão que corre ali perto, depois se construiu o Santuário dos Mártires da Caminhada, onde a cada 5 anos se celebra a Romaria dos Mártires.

[3] O Ir. Vicente Cañas foi assassinado quando tinha 48 anos de idade, no dia 06 de abril de 1987, por defender a vida e o território do povo contatado por ele e Thomaz em 1974, os Enawenenawe. O crime foi perpetrado quando estava no barraco de apoio que construiu junto ao rio Juruena, a 60 Km da aldeia dos Enawenenawe. No dia 5 de abril de 1987 fez seu último contato por rádio com os companheiros em Cuiabá (MT). Comenta que tudo estava bem e que pensava subir para a aldeia no dia seguinte. Por isso, o mais provável é que o assassinato foi perpetrado, cedo na manhã do dia 6. Seu corpo foi encontrado mumificado 40 dias depois, no dia 16 de maio, junto ao barraco de apoio. Ali mesmo, à sombra de uma árvore florida, foi enterrado ao modo de seus irmãos indígenas: um túmulo escavado nas entranhas da Mãe Terra, o corpo envolvido na sua própria rede e uma pedra de rio com o nome Kiwxi – seu nome indígena Mÿky – marcando a tumba.

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