Os missionários jesuítas que inspiraram “A Missão”, filme de Roland Joffé

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20 Dezembro 2019

Entre as muitas obras da Companhia de Jesus em sua história de quase 500 anos, as suas missões entre o povo guarani do Paraguai e da Bolívia permanecem sendo, talvez, as mais lendárias. Conhecidas coletivamente como a República Jesuíta ou o Paraíso Perdido, as missões, ou reduções, combinaram a visão do Reino de Deus, dos séculos XVII e XVIII, com um respeito pela cultura indígena que enfureceu os poderes seculares que haviam autorizado os jesuítas acessarem a região. Durante certo tempo, a música católica criada pelos guarani trespassou os cristãos da Europa. Mas os jesuítas acabaram expulsos pela oposição aos proprietários de escravos e terras espanhóis e portugueses, o que levou ao desaparecimento de suas missões nestas comunidades.

A reportagem é de Jim McDermott, publicada por America, 10-12-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Inspirada em uma pesquisa sobre as reduções feita pelos jesuítas Philip Caraman e C. J. McNaspy e outros, a Warner Brothers lançou um filme em 1986 sobre esse momento brilhante e trágico da história católica. Para os envolvidos, a produção de “A Missão” recriou inesperadamente elementos da experiência original dos jesuítas e dos guarani, com o filme inspirando uma nova geração de missionários.

A história original

Em 1984, “Os Gritos do Silêncio”, drama sobre o Khmer Vermelho [nome dado aos seguidores do Partido Comunista da Kampuchea, partido governante no Camboja de 1975 a 1979], estreou com grande sucesso. Era a estreia de Roland Joffé no cinema, com a produção recebendo sete indicações ao Oscar, vencendo em três categorias: com Chris Menges ganhando na categoria fotografia e Jim Clark na categoria edição. Normalmente, quando um projeto termina os membros da equipe de produção seguem em caminhos separados. Mas Joffé e seu parceiro de produção, David Puttnam, tinham algo mais para a equipe de “Os Gritos do Silêncio”.

“Depois de produzir ‘Os Gritos do Silêncio’”, contou Joffé à revista America, “me reuni com Robert Bolt e um produtor italiano chamado Fernando Ghia”. Bolt, cujo conjunto da obra incluía os roteiros para “Lawrence da Arábia”, “O Homem que não Vendeu sua Alma” e “Doutor Jivago”, tinha uma peça teatral não produzida a respeito de um santo jesuíta e um ex-proprietário de escravos, o qual tenta se redimir nas reduções jesuítas do Paraguai. “Ele dizia: ‘Sempre achei que isso daria um filme maravilhoso’”.

“O pobre Robert era um homem que se esquecia fácil”, escreve Jim Clark em suas memórias, livro intitulado “Dream Repairman”. Em 1979, um AVC paralisou o lado direito de Bolt e quase o impossibilitou de falar. “Era extremamente emocionante [ver ele] se esforçando para encontrar as palavras”, lembra Joffé. Joffé contou a Bolt que estava interessado em adaptar a peça de teatro, porém com uma recomendação: “Precisamos dar vida aos índios”.

Com a aprovação de Bolt, Joffé foi em busca de uma comunidade indígena que se encaixasse no projeto. Os próprios guarani não eram uma opção. “Há muito poucos deles”, explicou. “De fato, eu quis usá-los, mas eles foram tão mal tratados, tão dizimados espiritualmente, não havia como dar certo”.

Joffé viajou inúmeras vezes à procura de um substituto. Finalmente, em uma região remota da Colômbia encontrou os waunanas, uma comunidade indígena de 300 pessoas. A tribo havia sido exposta à civilização metropolitana, mas não muito. “Eles meio que sabiam o que era uma televisão”, recorda Joffé. “Não sabiam o que era um filme, mas meio que entenderam a ideia”.

“Me vi em uma posição estranhamente parecida” com os jesuítas, disse ele, “tentando explicar do que se tratava a história e sugerindo, talvez, um modo de trabalharmos juntos”.

Joffé também testemunhou o tipo de ameaça sistêmica que os guarani viveram. Depois de explicar a proposta para a comunidade, o grupo passou dias debatendo entre sobre se aceitavam ou não participar. “Eu me sentei perto do rio”, conta Joffé, “e um casal já idoso veio e se sentou perto de mim. O homem disse que eles dois estavam preparados para virem junto comigo de imediato, mas tínhamos de garantir que não levaríamos nenhuma criança”.

Era uma condição que Joffé não podia aceitar; as crianças teriam um papel central no filme. “Eu falei: ‘Ah, não tenho certeza que posso garantir isso’”, disse ele, perguntando-se por que o grupo fizera este pedido. O homem explicou que “quando isso tudo terminar, vocês vão nos matar. Nós já estamos velhos, então não tem problema. Mas se levarem os filhos, não vai haver mais tribo”.

Joffé não acreditou no que estava ouvindo. “Falei: ‘Por que eu mataríamos vocês?’ O homem respondeu: ‘Não sabemos, mas vocês sempre matam’.

“Eis a acusação, feita sem amargura”, lembrou Joffé. “Depois disso, não tinha como eu não fazer o filme”.

Elenco jesuíta

Respectivamente, Jeremy Irons e Robert DeNiro interpretaram o Padre Gabriel, músico e pacifista, e Mendoza, ex-proprietário de escravos. Mais tarde, o crítico de cinema do New York Times Vincent Canby descreveu a “seriedade singela” das performances dos atores. Mas, durante as filmagens, Clark preocupou-se com que Irons fosse jovem demais. “O papel do padre foi originalmente concebido por Robert para ser interpretado por Alec Guinnes”, escreveu o articulista. E o método de atuação de DeNiro significou desafios enormes de edição. Em cada tomada ele “experimentava todo o tipo de voz diferente, fazendo entregas diversas, variando a coisa toda”. No final, Clark observa, “não editamos ele. Não precisávamos criar a performance, porque ela variava muito de cena para cena”.

Ao desenvolver o filme, Joffé buscou os conselhos do jesuíta e ativista Daniel Berrigan. “Achei que para entender de fato o conteúdo psicológico e emocional do que é ser um jesuíta, uma pessoa como o Dan Berrigan daria uma contribuição tremenda”, disse ele. Os dois se encontraram na casa de Berrigan, “um cômodo bastante simples”, e enquanto conversavam Joffé teve a ideia de convidar Dan para se juntar à sua equipe. “Ele meio que me olhou como se eu tivesse perdido a noção das coisas”, lembrou Joffé. “E, para a minha surpresa, aceitou”.

Daniel Berrigan trabalhou como consultor: “Ele e Jeremy passaram cerca de três semanas juntos, falando do que significa ser um padre”, explica Joffé, “o que se ganha sendo um padre, de quais coisas precisamos abrir mão”. Joffé também acabou escalando Berrigan para atuar no filme como Sebastian, um dos jesuítas que trabalhavam com o Padre Gabriel.

Mais tarde, Berrigan escreveria um livro, intitulado “The Mission: A Film Journal” (A missão: o diário de um filme, em tradução livre), sobre a experiência daqueles meses na selva. Em Irons, encontrou um “espírito disposto, uma mente muito flexível, uma pessoa de escuta que se afastava em silêncio e voltava curioso (...) Ficávamos por muito tempo detidos sobre o significado da fé, que a mim parecia uma espécie de intervenção inesperada, uma terceira parte, por assim dizer, entrando em um impasse e trazendo, se não alívio, pelo menos uma medida de luz e esperança”.

Joffé recorda com gratidão a presença de Berrigan no set de filmagem. “Ele tinha um espírito indomável, uma espécie de mal-estar espiritual que era de fato envolvente”, explica Joffé. “De certo modo, ele representou uma inspiração para a minha vida, o tipo de pessoa que era, tão aberto e preocupado”.

“Acho que ele foi um ser humano que vivia a ideia de que o amor deve vir primeiro. E diariamente nas filmagens ele provava a pureza e a elegância de sua posição. Era inspirador”.

Berrigan também se inspirava. “Os atores (todos homens) tentam algo audacioso”, escreveu ele, “imitando o espírito incandescente dos jesuítas que abriram caminho através das selvas de ignorância, luxúria e avareza do século XVIII e que criaram uma utopia tão esplêndida, em nome dos outros, uma utopia que ainda inspira admiração”. Sobre Joffé, escreveu: “Se nós [atores] somos o filme, o que dizer dele? Um espírito-guia? Portador da boa nova, sagrado e secular? Incentivador? Enxugador de lágrimas? Amigo? Padre confessor? Todos e nenhum. Na verdade, ele me aparece às vezes como o único jesuíta autêntico de todos nós”.

Graça improvisada

Ao assistir à cena inicial de “A Missão”, o espectador toma ciência imediatamente da audácia daquilo Joffé e sua equipe buscaram fazer. Em texto publicado no jornal The Los Angeles Times, Sheila Benson descreve as Cataratas do Iguaçu, que figuram com destaque em todo o filme, como “a estrela do longa-metragem”. “Eu meio que escalei e rastejei por toda as Cataratas do Iguaçu”, lembra Joffé. “Há algo de surpreendente e humilhante nelas, o poder que a natureza pode mostrar. De fato, eu quis capturar esse sentimento no filme”.

Estas quedas d’água ficavam milhares de quilômetros ao sul da principal locação do filme, na Colômbia, o que significou pedir que os wauannas andassem de avião. “Quando estavam subindo na aeronave, perguntei a uma mulher: ‘Está com medo?’ Ela disse: ‘Não, porque vimos vocês alimentando ele com borboletas’. Achei maravilhoso isso. E, de fato, eles entendiam tanto quanto eu que estávamos ‘alimentando o avião’”.

O filme exigiu muitas escaladas reais, não somente por parte de Joffé, mas de toda a equipe e elenco, para aquelas cenas surpreendentes em que o Mendoza, personagem de DeNiro, escala as cataratas com a sua velha armadura. “Tivemos de ter muito cuidado”, relata Joffé, e não só com as quedas d’água. “Robert precisou rastejar pela água e havia um ninho de escorpiões ou de cobra”.

Porém, a capacidade de DeNiro para a improvisação nestes momentos também mostrou um enorme talento. “Arrastando o seu bando através da selva, ele nos deu todos os tipos de coisas que não esperávamos”, disse Joffé.

No set de filmagem, surpresas e desafios “aconteciam o tempo todo”, notou. Por exemplo, o lugar para a missão “aconteceu de ser na principal rota da cocaína, no rio Santa Marta”, o que “não caiu muito bem com os vendedores de droga, porque muitas vezes tínhamos soldados armados entre a equipe”. Com esse trabalho próximo dos traficantes, Joffé aprendeu que a presença da equipe cinematográfica teria permissão para trabalhar desde que ela e os soldados saíssem a certa altura nas sextas-feiras e não voltassem até segunda-feira de noite.

Em certo momento, Joffé observou que uma caixa sobre a qual estava sentado tinha “seis ou sete cobras corais” debaixo dela. “São as cobras mais venenosas do mundo, e eu estava sentado sobre elas”.

Mas Joffé achou que esses desafios só acrescentaram à experiência. “O que estávamos vivendo e o que estávamos fazendo eram coisas extremamente próximas”, refletiu ele. “Era como tentar cozinhar um risoto. Tudo encaixava perfeitamente”.

Durante o curso das filmagens, Joffé e a equipe se debateram com o destino do Padre Gabriel. O roteiro original o via morrer com os paroquianos na igreja da missão depois que os soldados portugueses colocavam fogo nela. “Iremos admitir, como Milton em sua teologia, que o mal tenha a última palavra, que o malfeitor é essencialmente mais interessante do que o virtuoso?”, Berrigan escreve. No fim, o exemplo de Martin Luther King Jr. e de Gandhi os levou a uma resposta diferente para Gabriel. Observa Berrigan: “Ele toma nas mãos a sua vida e a vida de seu povo, e abandona a igreja de missão (...) confrontando o pior e evocando o melhor nos adversários em massa”.

Berrigan pergunta se o seu personagem seria capaz de caminhar com Gabriel, em sintonia com a imagem dos jesuítas como uma comunidade religiosa de vínculos e de companheirismo. Joffé concorda.

A música e o desejo humano

Um dos elementos pelos quais “A Missão” acabou sendo lembrado é a trilha sonora do lendário compositor Ennio Morricone. Mas, de início, segundo Joffé, Morricone relutou ao compromisso. “No começo, usamos o Concerto para Oboé de Alessandro Marchello” como a música principal do Padre Gabriel, segundo Joffé. Em uma sessão individual pensada para captar o interesse de Morricone, “quando acabou, ele não tinha palavras para expressar. Estava em lágrimas”, disse Joffé. “Mas depois me olhou e disse: Rolando, vocês não precisam de música neste filme. Não consigo escrever nada melhor do que Marchello”.

Joffé teve medo de que, ao mostrar a Morricone o filme, ele cometeu um grave erro. Mas o seu parceiro de produção, Puttnam, o incentivou a aguardar e ver. “Três semanas depois, recebi um telefonema”, lembra Joffé. “Rolando! Ennio aqui! Tive uma ideiazinha”. E, então, depois de inicialmente tentar executar algo no piano ao telefone e não ficando satisfeito, Morricone começou a cantar o tema para o Concerto para Oboé de Gabriel. “Os meus cabelos se arrepiaram”, conta Joffé. “Isso não é uma ideiazinha”, contou ele a Morricone. “É o filme!”

Vendo hoje, Joffé reflete sobre esta reação instantânea. “Acho que aquela composição tem a mistura mais estranha de conforto e solidão”, disse a respeito do tema musical. “Estas duas coisas combinam; são solitárias e fortes, mas também surpreendentemente conectadas. Acho que esse é o significado do ser humano. Somos estas duas coisas o tempo todo, se formos honestos”.

“E então chegamos nos cantos, eles tinham uma certa alegria que pensei que vieram de fato no momento em que estas duas coisas se fundiram nos seres humanos. Alegria é isso, quando estes dois elementos de solidão e desejo, que normalmente vivem lado a lado em nós, se fundem”.

No começo, Clark, o editor do filme, teve medo da obra de Morricone. As duas semanas de gravação com a Filarmônica de Londres custaram 250 mil libras, escreveu ele, e na primeira semana “tudo o que ouvíamos era: ‘Zuuum zuuum, zuuum zuuum, zuuum zuuum’. (…) Não vimos nenhuma música”.

Na segunda semana, quando trouxeram outros instrumentos e os coros, a equipe começou a gostar das camadas de sons que Morricone criara. “Depois de duas semanas de gravação, pudemos realmente ouvir a partitura”, escreveu Clark. “Era magnífica”.

As composições de Morricone “eram muito mais reveladoras do que usar palavras”, disse Joffé. “As palavras são pobres em comparação à panóplia rica da música”.

Ao mesmo tempo, por mais que fossem inspiradoras as composições de Morricone, elas pouco se assemelhavam à música dos guarani, que era quase inteiramente desconhecida na época das filmagens. O missionário e musicólogo Piotr Nawrot, SVD, que havia passado três décadas em comunidades indígenas latino-americanas estudando a música local, explicou que, antes de 1987, estudiosos ocidentais, incluindo o jesuíta americano T. Frank Kennedy, encontraram 5 mil páginas surpreendentes de música manuscrita na Bolívia: “A música se perdeu para nós”.

Mas também esclareceu: “Para os índios ela nunca foi perdida”. Pelo contrário, eles prezavam estes documentos como textos sagrados das comunidades. “Era como a Arca para os judeus; não importa para onde iam, sempre levavam esta música sagrada. Para eles, a música não é apenas som e harmonia; é a história da salvação sagrada deles”.

Nawrot elogiou as partituras de Morricone. “O seu projeto não tem a ver com produzir algo o mais próximo possível” da música das reduções, explica Nawrot. Tem a ver com recriar na plateia que assiste ao filme aquele encontro com o divino que a música original dos guarani e jesuítas permitia. “A música de Morricone desempenhou o papel que a música original desempenhava na primeira evangelização dos índios”, disse ele. “A trilha sonora é completamente sedutora”.

“Este relato é bastante exato”, observou Nawrot, “de exagero houve muito pouco”. E na falta dos textos musicais originais, “eu não conseguiria imaginar música melhor para esse filme do que aquela feita pelo Ennio. Sou um musicólogo, vivi nas comunidades indígenas por mais de três décadas, e posso garantir que ela é inacreditável. Só tenho a admirar. Eu chamaria o Ennio Morricone de um apóstolo da era moderna”.

Um foto que acende muitos fotos

Antes da estreia nos Estados Unidos, “A Missão” venceu a Palma de Ouro, o prêmio de maior prestígio do Festival de Cinema de Cannes. Mais tarde, foi indicado para sete Oscars, incluindo um para Joffé de melhor diretor e outro para Morricone de melhor música, com Chris Menges vencendo na categoria de fotografia.

O filme nunca foi um sucesso nas bilheterias americanas, fazendo somente U$ 17 milhões no país. Mas Nawrot disse que a produção teve um impacto radical no ministério católico entre as comunidades indígenas da América do Sul. “Não que ninguém sabia das reduções ou não sabia o que estava acontecendo”, explicou. Mas o filme foi “uma provocação”. “De repente, começamos a falar de novo sobre isso”, disse ele. E não só: “Queríamos fazer parte... Havia uma beleza [em ‘A Missão’] que nos seduzia. Queríamos esta história de novo”.

Nawrot deixou a Polônia, seu país natal, para trabalhar e estudar com os indígenas da América do Sul. Durante anos, as comunidades permitiram que ele lesse e compartilhasse as mais de 13 mil páginas de música das missões jesuítas e franciscanas. “Se quiséssemos ouvir a mesma missa [indígena] pela segunda vez, precisaríamos ir à missa todos os dias durante quatro meses”, disse ele. Nawrot também incentivou estas comunidades com suas músicas locais. Hoje, segundo ele, estas pessoas estão entre as mais proficientes em termos musicais na Bolívia e outros países. “Um a cada quatro bolivianos na selva sabe ler música”, segundo Nawrot.

E muito embora as músicas de “A Missão” não são composições guarani, a obra de Morricone permanece sendo a semente a partir da qual crescem as iniciativas missionárias. “Hoje, quando vamos à Bolívia e cantamos [músicas das reduções guarani]”, explicou, “em geral começamos com Ennio Morricone e, então, passamos ao original, como se ele fosse o pai delas. Eu diria que ele é um daqueles seres humanos que todos amam aqui, mesmo ele não saiba”.

O mesmo é dito por muitos jesuítas sobre o filme e sobre a obra de Morricone. O Concerto para Oboé, do Padre Gabriel, é frequentemente executado em instituições jesuítas durante as missas do Espírito Santo, celebrações de formatura, ordenações, funerais e no dia de Santo Inácio. Hoje, para muitos jesuítas aquela melodia simples captura a “estranha mistura” de consolo e de desejo presentes no coração da vocação e do sentido de humanidade da Companhia.

Berrigan escreveu que este filme foi “um empreendimento raro, até mesmo único. Ousa levantar questões fundamentais e, ao mesmo tempo, negligenciadas: como os humanos escolhem viver, para quem, e com quais recursos; também como escolhem morrer, e para qual causa (vã ou não) – questão central, contrariada, atormentada entre todas as outras.

Vendo hoje, diz Joffé, “para mim foi uma tentativa de tocar naquilo que reside por trás das caminhadas espirituais. Amo a ideia de que a verdade é evanescente, difícil de ser encontrada e pode muitas vezes assumir posições contrárias, geralmente por um mesmo motivo e uma mesma motivação.

“Hoje me descrevo como um agnóstico vacilante. E suponho que o meu sentido do divino é o de que ele fala através das pessoas, através da vida. Por um lado, tive Dan Berrigan; por outro, os índios waunanas”, observou Joffé. “O que nos leva a fazer sérias perguntas sobre o que é a vida, e para o que estaríamos aqui”.

Assista ao trailer de A Missão:

 

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