“Está chegando o fascismo eletrônico, mas vamos superá-lo”. Entrevista com Derrick de Kerckhove

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19 Junho 2020

Estamos passando por uma fase de transição sombria como a Idade Média e será impossível evitar o "fascismo eletrônico". No entanto, poderíamos nos salvar se conseguirmos negociar um novo contrato social para retomar o controle de nossas vidas digitais. Essa é a opinião de Derrick de Kerckhove, herdeiro de Marshall McLuhan, diretor científico do Observatório TuttiMedia e Media Duemila, professor do Politécnico de Milão, que hoje recebe o prêmio "The Medium and the Light Award 2020" em Nova York.

A entrevista com Derrick de Kerckhove é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Stampa, 18-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Por que não podemos mais ignorar o determinismo tecnológico?

Estamos passando por uma transição dolorosa, como aquela medieval que levou às guerras religiosas, mas em escala global. Tudo isso nasce da rede: sem ela não haveria terrorismo, fake news, pós-verdade. No passado, o sentido era o principal componente da comunicação, mas agora não é mais. Não há mais objetividade, mas uma explosão do eu freudiano, a subjetividade, os impulsos.

O que corrompeu as esperanças da aldeia global?

Como disse Umberto Eco, os imbecis tomaram o poder, que não precisam de um verdadeiro conhecimento, mas também os maus. Nos EUA, os republicanos renunciaram à moralidade constitucional e as pessoas votam sem saber se o que pensam é verdade. Os interesses especiais prevalecem e a rede cria conexões rápidas, inteligentes e perigosas entre grupos de pressão, terrorismo, pessoas que fazem coisas ilegais, como a supressão dos votos. Al Capone está no governo, mas ninguém se importa.

Além dos imbecis, também existem as fake news confeccionadas pela Rússia ou os terroristas que recrutam online.

Absolutamente, os maus. A verdadeira guerra global hoje é cyber. O Kremlin a lidera, que quer minar a ordem global e espalhar as bobagens de Trump. A China tem os créditos sociais para controlar seus cidadãos, enquanto políticos como Erdogan e Orban são os tiranos produzidos pela crise epistemológica de nosso tempo. Estamos falando de determinismo, porque são fenômenos que vêm de um sistema de comunicação que arruinou a ordem social e institucional. Vivemos uma ausência de sentido generalizada, que será seguida por uma repressão muito forte, no modelo chinês. Não podemos evitar esse determinismo social, que não provém das decisões não confiáveis dos seres humanos, mas da máquina do algoritmo cada vez mais intrusivo.

Por que as mídias sociais rejeitam a responsabilidade de controlar?

Faz parte do caos geral. As redes sociais não têm senso de ordem social e atuar como controladores significa estabelecer um sistema de valores, uma ideologia que pode ser contestada pelo público. Há também um enfraquecimento da imprensa adulta. Após a morte de Aldo Moro, McLuhan sugeriu puxar o fio da tomada. O mesmo deveria ser feito com Trump, mas a mídia o adora e o ajuda.

Quais são os remédios?

Quando o mal toca nesse nível a base do conhecimento, estamos em grave perigo no plano do sentido da vida. Talvez seja necessária uma crise ainda mais profunda que a Covid para nos fazer entender que precisamos mudar. O mundo perdeu suas raízes e só podemos reencontrá-las com um acordo global. Mesmo o futuro da política não será mais nacional, mas em todo lugar nascerão dois grandes partidos, um a favor das regras básicas de respeito ao meio ambiente e à sociedade e o outro contrário.

O abuso da mídia, da Internet e das redes sociais está na base desse caos?

A anarquia não pode continuar e não continuará, será controlada à maneira chinesa. Até agora, falamos sobre a transformação digital como um sistema industrial, sem entender que estava mudando por dentro a realidade social e pessoal.

Existe uma terceira via, entre anarquia e controle?

Haveria a religião ou a adesão a um sistema moral de valores. Uma visão de amor. Mas estou sonhando.

Ainda podemos remodelar as ferramentas de comunicação antes que elas nos moldem?

Entregamo-nos aos assistentes digitais que assumem o controle de conhecimento sobre nós, tipo Alexa. No futuro, teremos que "sequestrar" Alexa e torná-lo nosso gêmeo digital, o inconsciente digital que sabe tudo sobre nós. Eu gosto de um sistema que me conhece perfeitamente e conta ao médico o que eu comi três anos atrás que me fez passar mal. Mas por que deveríamos dar de presente todos esses dados à indústria ou ao governo?

Como se pode retomar o controle?

A Europa aprovou a RGPD (General Data Protection Regulation) e agiu certo, mas não é suficiente. Precisamos criar uma interface mais ambiciosa e controlável, negociando a autonomia ainda potencial do indivíduo. Os algoritmos decidirão tudo, com vereditos mais coerentes que os nossos. O gêmeo digital de um sujeito de 20 anos apaixonado será capaz de lhe dizer se aquela pessoa serve para ele ou não, mas a decisão final cabe ao jovem. Não podemos evitar o controle social generalizado e teremos o fascismo eletrônico. Mas então faremos um novo acordo social. Ainda não somos robôs e não nos tornaremos robôs. Devemos manter a possibilidade de negociar o nosso staItus social, a vida, as possibilidades de progresso.

 

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