Quarenta anos depois da morte de Aldo Moro. Além da escuridão

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09 Mai 2018

"Um homem bom, gentil, sábio, inocente e amigo." Com estas palavras, Paulo VI saudou Aldo Moro na cerimônia de seu funeral na Basílica de São João. Quarenta anos mais tarde, podemos voltar àqueles dias trágicos através de suas próprias palavras, em cartas pessoais dirigidas à sua família, à sua esposa Eleonora, a seus filhos Maria Fida, Anna, Agnes, João e ao seu neto Luca, não com declarações públicas mediadas, manipuladas e extrapoladas. "Sejam forte e orem por mim". "Eu não quero me lamentar e aceito de Deus o meu destino". "Para o futuro, sinto neste momento uma ternura infinita por vocês, a lembrança de todos e de cada um, um grande amor cheio de memórias aparentemente insignificantes, mas, na realidade, preciosas. Unidos na minha memória, vivemos juntos. Para mim será como estar entre vocês". "Eu tentei de tudo e agora que seja feita a vontade de Deus, acho que voltarei para vocês de outra forma". "Creio que não vai ser fácil aprender a olhar e falar com Deus e com os entes queridos. Mas há outra esperança diferente dessa?". "Enquanto deixamos tudo, fica o amor". "Eu gostaria de ter a fé que você e a sua avó têm, para imaginar os coros dos anjos que me levam da terra ao céu. Mas eu sou muito tosco. Eu só percebi nestes dias o que significa ser preciso adicionar o próprio sofrimento ao sofrimento de Jesus Cristo para a salvação do mundo". "Eu gostaria de entender, com os meus olhos mortais, como é que se enxergará depois. Se houvesse luz, seria muito bom".

O texto é de Francesco Scoppola, publicado por L'Osservatore Romano, 08/09-05-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Muitas são as análises publicadas sobre Aldo Moro: desde aquelas tentadas na proximidade da época de sua morte até as mais recentes e meditadas, mas uma história fidedigna e aceitável daqueles eventos ainda não foi escrita, apesar da quantidade e da importância das pesquisas que se seguiram. A bibliografia é vasta. Devemos considerar a presença de muitas razões para explicar porque voltou a se reacender esse interesse geral, esse grito que também é sede de justiça (mas não de cadafalso): entender e saber, escrever a própria história, especialmente nos maiores desastres, certamente não visa realizar vinganças. Serve para retomar o caminho, para se proteger contra os perigos presentes e futuros. Para prosseguir dentro do possível em segurança e em paz, com a necessária consciência dos fatos acontecidos e dos sacrifícios que as escolhas virtuosas comportam.

Devemos voltar para as ideias que nortearam Moro e recordar que recém se passaram setenta e cinco anos desde a fundação da Democracia cristã. Em 19 de março de 1943, em Roma, na casa de Giuseppe Spataro, foi discutido e aprovado, na presença do jovem Moro, o documento que De Gasperi havia redigido pessoalmente, As idéias de reconstrução da democracia cristã, considerado o ato de fundação oficial do partido.

Os caminhos da paz são aqueles da justiça e a paz é também a reestruturação de fraturas que na Itália estavam particularmente enraizadas. Dos princípios que nortearam Moro pode-se entender melhor quais foram, em conclusão, as "motivações" daqueles que o queriam morto. Moro entendia que o partido comunista de Enrico Berlinguer podia ser subtraído e já estava livre ou estava saindo da esfera da influência soviética, e com uma visão a longo prazo queria incentivar esse processo de desgaste do clima, ou melhor da cobertura, que havia alimentado e alimentava há décadas a Guerra Fria e a corrida armamentista, melhorando as condições de governabilidade.

Acreditava que existia uma capacidade para construir o futuro, não só o imediato, uma capacidade praticamente desconhecida na política. Mediador, harmonizador, Moro foi o criador do princípio da democracia de consociativismo. A solidariedade nacional foi entendida por ele como uma segunda fase de implementação da unificação da Itália. Mas não o compreenderam e não o seguiram seus muitos detratores, tanto internos como externos. Fracassadas as tentativas de desacreditá-lo com acusações de escândalos e corrupção, foi sequestrado na véspera de seu grande acordo populares inclusivo, no parlamento.

Em breve a história acabaria lhe dando razão, com o fim da União Soviética e a queda do Muro de Berlim, com a emergência das contradições do imperialismo industrial das multinacionais e do capitalismo globalizado, com a evidência de guerra sem fim e com o terrorismo a ela vinculado, mas tarde demais. Moro demonstrou uma capacidade de antecipação, de escuta e de serviço, incompreendida pela miopia política dominante e totalmente coerente com o sentido do testemunho enraizado na fé cristã, e acabou por expô-lo - certamente não de propósito, mas com sua grande dor e desconforto - à prova irrefutável e incontestável da disponibilidade para o sacrifício total de si mesmo. Com esse testamento deveria confrontar-se depois dele o curso do presente, ao longo daquele mesmo caminho estreito por ele percorrido: aquele do itinerário de um mártir laico e cristão.

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