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29 Novembro 2017

“As melhores fontes são pessoas que estão convencidas de que agem para o bem e aquelas que servem aos nossos interesses acreditando que estão servindo aos seus próprios interesses”. Esta é a impecável citação de um responsável da CIA extraída do livro Armas de desestabilização em massa e encaixa-se perfeitamente bem como um prólogo para entrar no turvo mundo da constante publicação dos famosos “leaks” [vazamentos].

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 28-11-20-17. A tradução é de André Langer.

Desde 2009, esses documentos confidenciais aparecem regularmente, tanto e com tanto impacto que dois jornalistas franceses, Pierre Gastineau e Philippe Vasset, se perguntaram: quem está realmente por trás dessas revelações? A resposta é muito menos inocente ou militante do que a opinião pública e os jornalistas supõem.

Os como e por quês são rigorosa e completamente narrados em um livro de pesquisa cujo título já é um programa: Armas de desestabilização em massa: investigação sobre o negócio do vazamento de dados (Armes de déstabilisation massive: enquête sur le business des fuites de données, Fayard). O grampo dos e-mails de Hillary Clinton, dos Panamá Papers, dos Paradise Papers, dos Malta Papers, Assange ou WikiLeaks, FootballLeaks, MacronLeaks, nada escapa da sagacidade desta investigação que corre a cortina de um palco em cujo quintal se deslizam as sombras de Estados como a Índia ou Israel, confrarias de hackers generosamente remuneradas por estes ou outros Estados, serviços secretos, agentes duplos e triplos, instrutores, escritórios de advocacia, jornalistas, bancos e multinacionais.

Se os vazamentos foram uma criação de honestos vazadores de informações que desejavam fazer o bem denunciando a podridão interna dos sistemas, atualmente, já se converteram em uma arma manipulada de grande eficácia.

Desde 2009, não menos de 50 escândalos planetários explodiram graças à publicação dos ‘leaks’. Nestes anos, houve três hits absolutos, cuja legitimidade ninguém questionou: em 2010, o WikiLeaks divulgou 251.287 telegramas diplomáticos norte-americanos; em 2013, Edward Snowden vazou dezenas de milhares de documentos secretos da NSA americana, e, em 2016, o informante anônimo John Doe divulgou 11,5 milhões de documentos do gabinete panamenho Mossack Fonseca, onde figuravam argúcias fiscais que envolviam desde o presidente russo Vladimir Putin até o argentino Mauricio Macri.

Praticamente não houve país ou associação que não saísse preso: atores, diretores de cinema, chefes de Estado, escritores, etc., etc. No entanto, somente após as eleições presidenciais dos Estados Unidos e da França, as redações começaram a se perguntar sobre quem está mexendo as cordas de tudo isso. No primeiro caso, em 22 de julho de 2016, 22 mil correios eletrônicos internos do Partido Democrata foram parar em praça pública. No segundo, em 6 de maio de 2017, um arquivo com as mensagens de vários conselheiros do atual presidente francês, Emmanuel Macron, foi postado no fórum 4achan, apenas dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais.

Pierre Gastineau e Philippe Vasset escrevem que ambos os acontecimentos “fizeram com que se tomasse consciência de que o vazamento em massa de dados não respondia exclusivamente a iniciativas desinteressadas de corajosos vazadores de informações, mas também a técnicas de manipulação”. No livro, os jornalistas respondem às seguintes perguntas: “Por que há uma generalização de vazamentos em massa de 10 anos para cá? Como estão os bastidores dessas manipulações? Quem faz as manobras e, acima de tudo, quem são os beneficiados?”

A primeira coisa que os autores constatam é que, no começo, “os espiões ficavam excedidos com o fenômeno, mas hoje chegam inclusive a encomendar o roubo de dados”. Graças a estes vazamentos, os “Estados e os interesses privados podem realizar “ataques nucleares de informações instantâneas com uma arma que não custa muito”, explica Pierre Gastineau. Um exemplo imperdível é a pirataria mortal dos correios eletrônicos da equipe de campanha da ex-candidata democrata Hillary Clinton. De acordo com os dois jornalistas, os russos estavam convencidos de que os Panamá Papers eram “obra” da administração Obama. Isso “provocou  uma paranoia no aparelho do Estado russo e Moscou decidiu fazer o mesmo”.

Muitos se perguntarão por que a Rússia acumula vitória sobre vitória nesta ciberguerra, onde parece ter um avanço considerável em relação ao Ocidente? Philippe Vasset observa que “a vantagem estratégica deste país reside no fato de ser um dos poucos Estados do mundo que conservou uma espécie de filial muito ativa de treinamento em manipulação de informações e propaganda. A guerra da informação começou a ocupar um lugar preponderante na doutrina russa a partir de 2010 e se acelera entre 2012 e 2013. Outro aspecto importante é o fato de que, enquanto a maioria dos países reduzia seus orçamentos de espionagem e informação no final da Guerra Fria, a Rússia manteve intacto o seu”.

No livro aparece justamente o testemunho de um espião russo que confessa que na academia onde são treinados os agentes, “as técnicas de manipulação e influência são os cursos aos quais se dá mais importância”.

O resto foi feito pela própria realidade e, nela, há dois símbolos: o ex-soldado Bradley Manning e o ex-consultor da Agência de Segurança Norte-Americana (NSA), Edward Snowden. Quando Moscou viu o dano que os ‘leaks’ provocaram ao império “entendeu rapidamente que dispunha de uma arma de altíssimo grau de desestabilização”. Mas os russos, é claro, não são os únicos atores destas guerrilhas digitais. Outro exemplo recente é a ruptura das relações diplomáticas entre os países do Golfo Pérsico e Catar devido a declarações do emir do Catar divulgadas na agência oficial do Catar.

De acordo com essa fonte, o emir disse que o Irã era um “sócio” de honra e que o movimento palestino Hamas era o “único representante da Autoridade Palestina”. Só que nada disso era verdade. A declaração “foi introduzida por um hacker na agência oficial”, conta Vasset. Mas... quem e por que fez essa introdução? Aqui está o motivo: "hoje sabemos que foram os Emirados Árabes Unidos que contrataram e pagaram os piratas que introduziram a falsa informação. E eles fizeram isso para se vingar do ‘hackeio’ do correio eletrônico do seu embaixador em Washington, fato pelo qual responsabilizaram o Catar”.

Isso leva os autores de Armas de desestabilização em massa a corroborar que agora se trata “de uma nova guerra clandestina em que um Estado ou uma empresa podem ser postos de joelhos sem que se veja o golpe chegando. É uma espécie de Guerra Fria em que os conflitos entre as grandes potências se desenvolvem no ciberespaço através de atores como os hackers, que, por sua vez, estão envolvidos em lógicas que os excedem e cujos objetivos servem para o acerto de contas entre Estados, empresas e outros atores poderosos”.

Este antagonismo desestabilizador converge na seguinte lógica: “a batalha das redes é apenas uma guerra de posição, um confronto entre pessoas interpostas que colocam em jogo a ambição, o orgulho, o lado cupido de uns e outros”. Nesta roda digital da fortuna ou do infortúnio, a Rússia não é, naturalmente, o único demônio que faz o sistema cambalear. Muito pelo contrário. Quando se pergunta a Vasset e Gastineau sobre os senhores do trabalho clandestino, a resposta é contundente: Índia e Israel.

Philippe Vasset resume sua pesquisa: “Israel e a Índia optaram por desenvolver plataformas informáticas muito ofensivas e, por conseguinte, capacitar hackers para depois integrá-los aos seus serviços secretos. Mas em vez de retê-los, deixaram-nos ir para outros lugares a fim de vender suas técnicas... sem nunca perder o relacionamento com eles, para que não atuem contra o seu próprio país. Russos e ucranianos também são muito ativos. No entanto, quando se olha mais de perto, muito fica reduzido a Índia e Israel. Os hackers geralmente são ex-membros dos serviços de inteligência que criaram empresas privadas, start-up, com recursos do Estado, que, por sua vez, é o primeiro cliente das empresas de ciberinformação. O Mossad acabou de criar Liberad, um fundo especial consagrado a essas empresas”.

Duas outras constantes também aparecem nesta mega investigação. A primeira delas é que, diante dos vazamentos e suas consequências, os europeus e os norte-americanos ficaram “nus”, paralisados em uma espécie de “estratégia defensiva. Eles investiram pesadamente em dispositivos complexos para tentar impedir vazamentos de informações em vez de usá-los”. A segunda evidência é que os interesses dos Estados e das empresas, ou seja, as ciberguerras cruzadas, começaram a ser defendidas ou montadas com os instrumentos outrora usados pelos ativistas da sociedade civil: “em apenas uma década, essas técnicas dos ativistas tornaram-se as técnicas dos poderosos”, alega Vasset.

Outra incógnita interessante: para quem de fato está trabalhando Julian Assange, fundador da WikiLeaks, que se refugiou na Embaixada do Equador em Londres? Como divulgou no WikiLeaks os correios eletrônicos de Clinton e nunca atacou a Rússia com outros vazamentos, muitos acreditam que ele é um agente de Vladimir Putin. De acordo com Pierre Gastineau e Philippe Vasset, a resposta é mais complexa, em primeiro lugar porque “a grande sede de celebridade que Assange tem é um excelente mecanismo de recrutamento”. Para os dois pesquisadores, “não há elemento tangível” que permita afirmar “com certeza que Assange é um agente pago pela Rússia. Em vez disso, se trataria de um idiota muito útil para o regime de Vladimir Putin”.

Os vazamentos, em suma, apresentam muitos problemas, e o anonimato da fonte é um deles. O Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) nunca revelou a fonte dos Panamá Papers ou dos 13 milhões de documentos correspondentes aos Paradise Papers. Por isso, Pierre Gastineau e Philippe Vasset admitem que “os jornalistas nem sempre estiveram suficientemente atentos às motivações dos vazamentos em massa que eles mesmos contribuíram para disseminar. Com isso, às vezes se tornaram cúmplices de operações cujos interesses estavam muito além das informações que eram publicadas”.

Neste mar de guerras assimétricas, espiões, hackers, mentiras robóticas e espionagem em massa, os dois jornalistas franceses têm apenas uma recomendação a fazer à sociedade civil ou às grandes potências: “verifiquem suas conexões de rede e troquem suas senhas: bem-vindos ao mundo das cibertrincheiras”.

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