Uma política em estado de menoridade: precisamos do “pensamento longo”. Artigo de Massimo Recalcati

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09 Junho 2020

"A política é forçada a sair daquela condição de minoridade à qual a primeira fase da emergência a havia relegado à força. A razão pura da ciência deve dar lugar à razão prática da ética. Se a emergência relegou a política a uma condição infantilizada de minoridade, a política deve agora provar sua idade adulta", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Stampa, 06-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A reabertura é uma onda que, por mais governada que seja, implica uma parcela irredutível de risco. Mesmo o saber da ciência não pode fazer previsões que dependem em grande parte de algo que inevitavelmente escapa ao seu poder. Estamos aprendendo isso nas últimas semanas. Onde seu saber termina, começa a dimensão da responsabilidade coletiva e individual. E é precisamente dessa responsabilidade que a qualidade da onda de reabertura dependerá em grande parte.

A ausência de uma vacina no curto prazo impõe uma convivência forçada com o vírus. Isso significa que seremos entregues à responsabilidade de nossas ações individuais e coletivas. No primeiro momento da emergência, fomos protegidos por um Estado que decretando, com razão, o rigor da quarentena, protegeu nossa saúde. A mera observância da regra de ficar em casa era por si só suficiente para garantir a nossa segurança e fazer o bem coletivo. No entanto, não deve ser esquecida a condição regressiva em que nos encontramos: a proteção da vida prevaleceu nessa fase sobre a abertura da vida. Agora esse tempo definitivamente acabou.

A reabertura é um requisito que rompe a camada protetora do confinamento, expondo-nos não tanto ao risco de contágio, mas ao de nossas ações. Em primeiro plano, não está mais a violência imparável do vírus, mas, paradoxalmente, a dependência do vírus de nossas ações.

É uma passagem que também acontece na transição da infância e da juventude para a vida adulta: nossas ações não são mais guiadas pela mão segura de nossos pais (no nosso caso, o Estado e a Ciência), mas dependem de nós mesmos.

Em primeiro plano, como podemos ver, está a relação entre política e ciência. No primeiro momento da emergência, a política foi corretamente guiada pela ciência. Não podia prescindir de uma relação de dependência objetiva do saber dos técnicos. Agora, nesta nova fase de plena reabertura, o saber da ciência também deve dar um passo para trás. Não apenas porque pareceu nesses meses incompleto e insuficiente na definição da identidade do vírus e na previsão com certeza de seus futuros comportamentos - o saber científico em todo esse caso revelou sua natureza imperfeita e relativa contra todas as fetichizações científicas da própria ciência - mas porque nosso comportamento individual e coletivo agora parece muito mais decisivo para determinar a nossa salvação.

Nesse sentido, a política é forçada a sair daquela condição de minoridade à qual a primeira fase da emergência a havia relegado à força. A razão pura da ciência deve dar lugar à razão prática da ética. Se a emergência relegou a política a uma condição infantilizada de minoridade, a política deve agora provar sua idade adulta.

Isso significa que não poderá se limitar a gerenciar os danos causados pelo vírus, mas será forçada por uma prova traumática da realidade a assumir plenamente o seu papel de bússola na reconstrução.

O saber da ciência se move a partir de evidências objetivas ordenadas de acordo com um princípio de causalidade, enquanto o da política da capacidade de imaginar o que ainda não é evidente. Por isso, Berlinguer definia o pensamento político como um "pensamento longo". Longo, ou seja, não preso ao imediatismo do consenso eleitoral, nem ao tamponamento das emergências.

Mas longo também no sentido de sua capacidade de implicar as gerações futuras, de imaginar o devir, de saber se descentralizar suficientemente da resposta frenética da atualidade. Um plano extraordinário de reformas que invistam escolas, saúde pública e economia só pode responder à lógica de um pensamento longo que fatalmente vai além dos procedimentos do raciocínio técnico-científico.

Está em jogo o poder da política, que é sobretudo um poder épico-visionário. O princípio da causalidade que ordena o saber da razão pura deve dar lugar a um esforço de poesia, de criação, de geração de algo que ainda não existe.

É outra lição desse tremendo vírus: se queremos salvar o nosso país, seremos obrigados não apenas a gerir a crise, a amortecer a desestabilização econômica e social que provocou, mas a inventar inéditos e extraordinários programas reformistas. A obrigação de inventar é uma obrigação estranha; é algo que define a razão prática e não a razão pura.

 

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