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08 Mai 2020

Para combater a pandemia, o governo francês criou um conselho científico, correndo o risco de lhe dar muito poder ou, pelo contrário, de instrumentalizá-lo. Este não é um caso isolado na história, mas que lembra que é preciso tempo e ética para enfrentar as crises.

A reportagem é de Marion Rousset e Pascale Tournier, publicada por La Vie, 06-05-2020. A tradução é de André Langer.

Nunca sem o meu cientista. Este poderia ser o título da atual sequência. Desde o início do confinamento, os políticos foram constantemente vistos com médicos, virologistas ou infectologistas para validar suas decisões. Desde o dia 12 de março, em seu discurso aos franceses, Emmanuel Macron dá o tom: “Um princípio nos guia na definição de nossas ações (...): é a confiança na ciência”. Assim, a figura do médico e diretor-geral da Saúde Jérôme Salomon, que apresenta o balanço diário do número de vítimas da Covid-19, estabeleceu-se em nosso cenário mental.

Mas é especialmente para os dois órgãos criados ad hoc – o conselho científico da Covid-19 e, em menor grau, o Comitê de Análise, Pesquisa e Expertise (Care) – que o governo deu um peso político sem precedentes. Em 16 de março, para justificar a quarentena, o Presidente cita cinco vezes o areópago presidido por Jean-François Delfraissy e reúne 11 pesquisadores e médicos. O mesmo desejo de se abrigar atrás dos especialistas na decisão de manter o primeiro turno das eleições municipais, depois do recrudescimento do confinamento, em 24 de março.

Mudança de tom a partir do dia 16 de abril. A partir deste momento, privilegia-se a emergência econômica e social para legitimar o início de um retorno à vida normal em 11 de maio. Alguns dias depois, o Élysée desaprova Jean-François Delfraissy, que pediu para prolongar a reclusão dos idosos. Mesmo sobre a reabertura das escolas, há divergências. O conselho científico recomendou uma volta às aulas para todas as crianças em setembro, e não em 11 de maio, como deseja o governo para os mais jovens. Todo mundo parece encontrar seu lugar. O político decide e os cientistas se limitam a fazer suas recomendações. Mas até quando?

A questão democrática em jogo

É importante não misturar os papéis. Uma distância entre o poder e a ciência é mais do que nunca necessária. Ao não respeitá-la, as duas partes podem perder muito: se a pesquisa corre o risco de ser instrumentalizada, a política pode mudar para uma forma de despotismo científico ou de epistocracia, isto é, que a decisão política emana dos cientistas. Portanto, é a questão democrática que está em jogo. Por sua capacidade de dizer o que é, para ser objetivo, a ciência nem sempre se dá bem com a democracia deliberativa: quando é mobilizada pelo executivo para promulgar normas, o que não é sua finalidade, faz com que os políticos percam sua soberania.

“A ciência é legítima se permanecer em seu domínio, e ela sabe muito bem disso, lembra o filósofo Frédéric Worms, autor de Pour un humanisme vital (Odile Jacob). Ela não deve invadir a decisão política, caso contrário corre o risco de ser usada pela ideologia”. E vice-versa. “Quando o pensamento científico é chamado a apoiar teses políticas, isso leva a situações perigosas para a democracia, acrescenta o historiador Jean Garrigues. Os nazistas apoiavam-se nos conceitos ditos biológicos para legitimar seu projeto racialista, Stálin simpatizou com o engenheiro agrônomo Lyssenko e seu conceito de ‘ciência proletária’”.

Para a filósofa Isabelle Stengers, o uso político da ciência é até antinômico com um dos fundamentos da democracia, a participação dos cidadãos: “Todos os argumentos que invocam a ciência seriam argumentos de poder, prejudiciais às exigências de uma democracia que não se reduziria a uma versão sofisticada da velha arte de liderar um rebanho”, propõe ela em Sciences et Pouvoirs (La Découverte, 2002).

Certamente, é normal que os dirigentes se voltem para a expertise, em uma realidade cada vez mais complexa e, sobretudo, em meio a uma emergência sanitária. “No final de 2014, quando a epidemia de Ebola estava fora de controle em vários países da África Ocidental, o primeiro-ministro Manuel Valls chamou um médico especializado em imunologia, Jean-François Delfraissy, para coordenar uma força-tarefa interministerial”, recorda Corinne Delmas, socióloga da expertise, professora da Universidade de Nantes.

Mas quando existe um sistema relativamente grande de agências e de institutos que produzem expertise, por que foi preciso institucionalizar esse conselho científico e nomear seus membros por decreto, sem explicar como foram escolhidos? “Na França, gostamos das altas instâncias, mas cuidado com o papel que lhes damos e o poder que lhes concedemos”, alerta o filósofo Jean-Claude Monod. Para Olivier Borraz, diretor de pesquisa do CNRS e especialista em gestão de crises, o governo passa uma visão ingênua da ciência: “Tudo se passa como se, diante de algo muito sério, estivéssemos colocando o destino do país nas mãos dos cientistas. É o oráculo de Delfos. Estamos esperando que eles nos entreguem uma verdade pura e etérea, permitindo saber o que deve ser feito”.

Ora, a ciência não é a verdade. Mas um método para encontrá-la. Sua história está repleta de múltiplas controvérsias entre pesquisadores, como a que cerca o uso da cloroquina hoje pelo professor Didier Raoult. “A ‘verdade’ é uma palavra que pertence ao campo da filosofia e da moral”, lembra François Beauducel, geofísico e pesquisador do Instituto de Física do Globo de Paris, frequentemente em diálogo sobre a questão do risco com os tomadores de decisão políticos. “Este termo não traduz as incertezas de um conhecimento nunca alcançado. Melhor falar de tentativa de aproximação do real. Um cientista sempre complementa suas afirmações sobre o que sabe com a longa lista do que não sabe”, especifica.

Dois tempos diferentes

Se a ciência não é a verdade e “se é a autoridade e não a verdade que faz a fé”, como diz Thomas Hobbes no Leviatã, o tempo da política não é o tempo da pesquisa cientista, que é mais longo. O governante deve responder ao desafio do coronavírus, mas também aos medos coletivos. E, diante das preocupações da população, a maioria foi capaz de se apoiar para além dos limites razoáveis na palavra do cientista, sem dúvida para esconder melhor sua ignorância e sua falta de controle da situação.

O conselho científico, uma ferramenta de comunicação, até um contra-fogo? “Em um contexto de impregnação de ideias conspiratórias e de descrédito da política, o governante não pôde contar com sua única palavra para impor uma medida tão coercitiva quanto o confinamento”, considera Frédéric Worms. Mais popular, a chanceler alemã Angela Merkel, além disso uma ex-química, não enfrenta essa perda de crédito. Mas se o presidente francês pode instrumentalizar os cientistas, ao contrário de Donald Trump ou de seu colega brasileiro Jair Bolsonaro, que demitiu seu ministro da Saúde, pelo menos não procura desacreditá-los.

Uma constante histórica

Confiar na ciência para restaurar a imagem do político ou fortalecer sua legitimidade não é nenhuma novidade para os governantes. É uma constante histórica. E isso, desde a constituição dos Estados modernos, que queriam se opor à autoridade da Igreja Romana. “Desde o século XIII, os reis são tentados a apelar à garantia do conhecimento científico como um contraponto ao poder da religião”, diz Jean-Michel Besnier, filósofo especializado em ciência.

Francisco I cria o Collège de France para concorrer com a Sorbonne, considerada o bastião da escolástica e da Igreja Romana, e até atrai as graças de Leonardo da Vinci, considerado um pai da ciência moderna. Galileu é feito herói. Também no século XVII, o astrônomo Giovanni Domenico Cassini obteve os favores de Luís XIV, que fundou com seu ministro Jean-Baptiste Colbert a Academia das Ciências. Além disso, o Rei Sol é associado à euforia técnica de Versalhes. “Os dispositivos hidráulicos então em voga tinham como objetivo tornar o homem senhor da natureza em um momento contemporâneo de Descartes. Ao colocar o conhecimento a seu serviço, o rei justifica seu poder absoluto”, explica Jean-Michel Besnier. Com o Iluminismo, o poder mostra sua proximidade com homens do conhecimento. Durante a Revolução Francesa, um matemático, Gaspard Monge, foi nomeado ministro da Marinha.

Mas o chefe de Estado que melhor encarnou a feliz associação entre ciência e política é Napoleão Bonaparte. Os trabalhos sobre a “mecânica celeste” de Pierre-Simon de Laplace, matemático e físico, representam para ele a prefiguração de sua vontade de instalar uma ordem estável em escala da Europa. “Napoleão era um precursor politécnico. Ele foi eleito para a Academia, cobriu com honra os cientistas que eram seus amigos, usou-os para construir suas redes... mas em vez de se apoiar em grandes avanços técnico-científicos, suas guerras foram travadas com as ferramentas militares legadas pelo Antigo Regime”, pondera o historiador Bruno Belhoste.

Durante muito tempo, elogiamos a figura do físico, espelho da fé no progresso, correndo o risco do pior, como durante a Segunda Guerra Mundial. Sem falar da bomba nuclear, os químicos fornecem armas formidáveis aos nazistas, grupos de cientistas se mobilizam para desenvolver planos de bombardeios. “O físico Frederick Alexander Lindemann, chamado Lord Cherwell, torna-se a eminência parda de Winston Churchill. Responsável pelas estatísticas e pela produção industrial de aeronaves, ele oferece seus conselhos para o desembarque na Normandia e determina o número de bombas a serem usadas”, observa Jean-Charles Foucrier, doutor em história contemporânea.

Uma nova relação com a natureza

Em 1955, ocorre mudança de paradigma com o desenvolvimento da biologia molecular. Vemos o desenvolvimento das teorias da complexidade, uma ciência do caos, um retorno ao vivente que desconcerta completamente os políticos. “Com a física, dissemos que as causas nos permitiram antecipar um fenômeno, a cadeia de causas e efeitos deu certezas; o vivente nos ensina antes a complexidade, a ideia de uma incomensurabilidade entre os efeitos e as causas, o aparecimento de fenômenos de catástrofe e de ruptura”, analisa Jean-Michel Besnier. Pouco formados nas ciências e menos ainda na biologia, alguns políticos são muito cautelosos com essa abordagem do conhecimento. “Foi o caso de Nicolas Sarkozy, que apelou ao pragmatismo dos industriais contra a ciência fundamental”, cita como exemplo o filósofo.

Com a pandemia, a situação não está mudando? Os cientistas não têm certezas estabelecidas, mas têm métodos para apreender uma realidade probabilística, para adequar hipóteses com um conjunto de observações. Com os impressionantes progressos da medicina, a crise climática, a introdução da inteligência artificial em nossa vida cotidiana e hoje a situação de pandemia, entramos resolutamente no “momento do vivente”, sugere Frédéric Worms. Uma nova geração de pensadores, como Frédéric Keck e Pablo Servigne, refletem sobre uma nova relação com a natureza menos antropocêntrica. Sem fornecer uma solução chave em mãos, essas abordagens complexas agora convidam os políticos para fazerem sua parte do trabalho.

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