“Nós entramos no mundo das pandemias”. Entrevista com Frédéric Keck

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18 Abril 2020

Para o antropólogo Frédéric Keck, o episódio da Covid-19 deve se repetir. Um novo modelo, baseado na previsão, e uma outra relação com a natureza devem ser construídos.

A entrevista é de Pascale Tournier, publicada por La Vie, 14-04-2020. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Após a gripe aviária, SARS, chikungunya e hoje o coronavírus, somos regularmente confrontados com vírus emergentes. Estamos nos encaminhando para um mundo permanentemente “gripado”?

Estamos entrando no mundo das pandemias. Até agora, prevíamos a natureza cíclica das gripes que vinham das aves do sul da China desde os anos 1970. Sabíamos como gerenciar a passagem da pandemia à gripe sazonal, que afeta apenas as pessoas mais vulneráveis. Agora, com o coronavírus, não temos nenhum retrospecto sobre os mecanismos de transmissão de animais para humanos e ainda não foi encontrada nenhuma vacina.

Quais devem ser as respostas das autoridades públicas?

Precisamos passar de um modelo de prevenção e de precaução, que envolve o abate em massa de animais e campanhas de vacinação, para o da preparação. As políticas de prevenção ou de precaução são baseadas em cálculos de riscos. A preparação envolve imaginar o pior, cuja probabilidade não pode ser calculada, para limitar os danos, que podem ser catastróficos. Esse modelo de prevenção baseia-se no papel primordial das sentinelas, que detectam o mais cedo possível a transmissão de vírus de animais para os seres humanos. Em seguida, vêm as simulações realizadas em hospitais, o armazenamento de máscaras, antivirais, vacinas etc. Em 2005, a França havia estabelecido um plano de pandemia. Considerado muito caro, não foi mantido como era depois da pandemia de 2009, que era menos grave do que o previsto.

Você pode explicar o conceito de sentinelas?

São, por exemplo, aves não vacinadas em uma fazenda, mas também um território inteiro como Hong Kong, expostos aos vírus provenientes com mais frequência do sul da China. Hong Kong tem uma tradição em laboratórios de bacteriologia desde a época colonial. No final do século XIX, Alexandre Yersin, aluno de Pasteur, descobriu aí o bacilo da peste. É também o ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente. Mas Hong Kong está competindo em seu papel de sentinela de saúde com Wuhan, na China, onde foi aberto um laboratório P4 que manipula micro-organismos muito patogênicos, com Cingapura, muito avançado em tecnologias de sequenciamento, com Taiwan e a Coreia do Sul, no rastreamento de informações da população.

No mundo de amanhã, teremos que usar mais a máscara em ambientes abertos, como os asiáticos? Para nossa civilização herdada do Iluminismo, dominada pelo contato pessoal entre as pessoas e que se sente desconfortável com o véu islâmico, isso não é difícil?

Ao contrário dos chineses rurais, apenas os chineses costeiros usam a máscara como sinal de modernidade higiênica. Eles querem tanto se proteger como proteger os outros. É também uma maneira de evitar a poluição do ar. É verdade que usar uma máscara seria uma revolução no espaço público na França. Para nós, não usar tecido no rosto é sinal de modernidade. Mas não teremos escolha a não ser seguir os conselhos da Academia de Medicina, pois estudos mostram que o coronavírus é transmitido através de gotículas.

Novas palavras são mais marcantes no vocabulário: biossegurança, biopolítica... É o retorno do biológico a todos os níveis de poder?

Na França, a biossegurança é uma noção nova. Jamais houve uma tradição biológica orientada para a guerra bacteriológica. Para nós, na tradição pasteuriana, a microbiologia permite fabricar cerveja ou cuidar de galinhas e ovelhas. Este não é o caso nos Estados Unidos e na China. Durante a Guerra da Coreia, os chineses suspeitavam que os americanos usassem armas bacteriológicas fabricadas no Japão. Essa acusação permaneceu como um trauma entre essas duas grandes potências. Hoje, a biossegurança refere-se à circulação de material entre laboratórios. A biopolítica é uma noção filosófica que surgiu em 1976 sob o impulso de Michel Foucault e que tem sido muito discutida desde o final dos anos 90, porque levanta a seguinte questão: as medidas para controlar epidemias atentam contra a tradição liberal europeia? A este debate, respondo promovendo a criopolítica.

O que é a criopolítica?

Para combater as futuras pandemias, precisamos confiar no trabalho dos caçadores de vírus. Eles rastreiam os vírus nos reservatórios de animais, como as fazendas de criação ou as reservas naturais, observam os padrões de circulação e armazenam as amostras em refrigeradores e bancos de dados. Seus métodos, que misturam alta tecnologia informática e gestos arcaicos de manipulação, marcam um retorno às relações cinegéticas entre animais e humanos. Eu os oponho às relações pastoris, em virtude das quais os seres humanos, como o pastor e seu rebanho, se posicionam acima dos animais e podem decidir cuidar deles ou sacrificá-los para proteger os outros.

O trabalho dos caçadores de vírus lembra o de cientistas naturalistas do século XVIII como Buffon e até Darwin no século XIX que classificavam as espécies...

Sim. Frequentemente teólogos, esses cientistas do passado estabeleceram uma cartografia da diversidade do vivo, para homenagear a glória do criador, mas também para entender as transformações da natureza e prevê-las. Aparecidos na década de 1970 com o ebola na África Central, os caçadores de vírus abrem uma nova página do projeto naturalista: com a ajuda de técnicas de sequenciamento genético, não se trata mais simplesmente de mapear ao nível do visível, mas também ao nível do invisível.

O aparecimento desses vírus emergentes está ligado às práticas de criação em escala industrial e ao desmatamento, no caso do coronavírus. Não é hora de rever o papel do homem em relação à natureza?

A criação industrial de animais padroniza a genética. Quanto menor a diversidade, maior a transmissão de patógenos aos seres humanos. Até agora, os vírus dos morcegos, que são a fonte do coronavírus, estão mudando silenciosamente. Devido ao desmatamento que aproxima os morcegos dos centros das cidades e à demanda exponencial de pangolins usados na medicina tradicional, a cadeia de transmissão encurtou. A medicina chinesa tradicional está sendo exigida de maneira exponencial devido ao enriquecimento das classes médias na China.

Não é a natureza que se vingaria, como alguns acreditam, mas os excessos do capitalismo chinês com os quais o Ocidente deve lidar...

Certamente. Entre 1949 e 1980, a China manteve-se afastada do capitalismo mundial. Ela entrou neste sistema com 1,3 bilhão de pessoas. Os chineses queriam recuperar o tempo perdido e tornar-se a maior potência mundial, como se isso lhes tivesse sido roubado. Mas se eles consomem muito, mantêm os princípios da regulação. O homem permanece uma espécie entre as outras; para eles, não há interrupção entre este e a natureza. Devemos inspirar-nos nesta sabedoria asiática.

As religiões podem nos ajudar nesta tarefa? Com a Laudato Si’, o Papa Francisco faz esse discurso...

Até então, os debates teológicos cristãos oscilavam entre duas visões: o homem é o senhor e o dominador da natureza, como pensava Descartes, ou o guardião da natureza? O Papa Francisco traz um elemento novo: a própria natureza sofre com o pecado original. A terra grita sob o arado, e devemos ouvir as mensagens de todas as criaturas.

 

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