A conquista digital em meio à pandemia

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28 Mai 2020

“Longe de qualquer conspiracionismo, a conquista digital em meio à pandemia não é outra coisa que o aprofundamento do racismo, o capitalismo e o antropocentrismo, já que sob um discurso de economia verde, busca nos vender a ideia de um mundo sustentável, mas sem mudar suas bases”, escreve Andrés Kogan Valderrama, sociólogo, em artigo publicado por OPLAS, 27-05-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Se existe algum setor econômico beneficiado com esta nova pandemia da Covid-19 são as chamadas plataformas digitais, que aproveitaram as diferentes medidas de confinamento aplicadas pelos governos no mundo para ampliar seu negócio a nível global. Isto dentro de um marco onde empresas como Google (Alphabet), Apple, Facebook, Amazon, Microsoft, Alibaba e Tencent concentram 75% do mercado.

Um capitalismo digital concentrado, que se apresenta nos grandes meios de informação como uma economia digital livre, sustentável e segura para os milhares de usuários que a usam diariamente para armazenar dados na nuvem, especialmente neste contexto de confinamento e teletrabalho, em que seu uso cresceu explosivamente.

Não obstante, essa nuvem não tem nada de imaterial e está gerando cada vez mais impactos ecológicos. Segundo estudos recentes, calcula-se que o consumo energético no planeta proveniente do capitalismo digital atinja 7% e se projeta que, até 2040, chegue a 14%. Além disso, essa nuvem supostamente limpa é sustentada graças a gigantescas estruturas de servidores de dados, localizados em Tóquio (130.000 m2), Chicago (102.000 m2), Dublin (51.000 m2), Gales (70.000 m2) e Miami (70.000 m2).

As grandes empresas informáticas nos dizem que se comprometem a usar energias renováveis para reduzir o impacto das estruturas de servidores, mas não dizem que a pegada ecológica vai muito além de sua descarbonização. O caso do Projeto Natick, proposto pela Microsoft, instalando nas Ilhas do Norte um centro de dados no fundo do mar é uma mostra disso, não dimensionando os impactos que poderia ter ao brincar com os ciclos da Natureza.

Por sua vez, essa pegada ecológica segue acompanhada por um processo de colonialismo e pilhagem de bens comuns de países do Sul Global, já que a obtenção desses “recursos naturais” ocorre em países da África e América Latina, para depois se deslocar por milhares de quilômetros para ser fabricados na Ásia e ser consumidos principalmente nos Estados Unidos e Europa. O caso dos resíduos tecnológicos é um claro exemplo de como esse racismo digital se materializa, ano após ano, na África, recebendo milhares de toneladas de aparelhos eletrônicos de segunda mão, ficando com todos os produtos tóxicos em seus territórios.

Por último, esta conquista digital possui, além disso, um forte componente de vigilância e controle a partir de governos no mundo, para quem essas mesmas grandes empresas digitais vendem aplicativos de monitoramento com a justificativa de que é para prevenir o contágio da Covid-19, abrindo um perigoso caminho à venda de dados que podem ser usados para fins políticos e econômicos (Big Data).

Pelo que se destacou acima, abre-se a necessidade de visibilizar alternativas. O caso do Movimento Software Livre é um claro exemplo de como construir uma democracia digital, ao enxergar o código como um bem comum e não como uma mercadoria a mais. Daí este movimento estimular a ideia de soberania tecnológica, questionando a propriedade intelectual destas grandes empresas informáticas, mediante o uso e distribuição livre do código.

Por isso a crítica do Movimento Software Livre ao capitalismo digital não é muito diferente da crítica da Via Campesina ao capitalismo agrário, já que ambos finalmente estão questionando o mesmo processo colonial. Em consequência, busca-se democratizar o código, a terra e a água, frente a grandes empresas que buscam se apropriar do que é de todas e todos, como acontece com a Amazon, no plano informático, e a Cargill, no plano da alimentação.

Em síntese, longe de qualquer conspiracionismo, a conquista digital em meio à pandemia não é outra coisa que o aprofundamento do racismo, o capitalismo e o antropocentrismo, já que sob um discurso de economia verde, busca nos vender a ideia de um mundo sustentável, mas sem mudar suas bases.

Diante disso, é necessário entrelaçar alternativas a partir dos territórios, como é o caso da soberania tecnológica (software livre) com a soberania alimentar (agroecologia), já que só assim poderão ser geradas opções de vida realmente sustentáveis à crise civilizatória atual.

 

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