Aproxima-se a era da vigilância subcutânea, adverte Yuval Noah Harari

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20 Mai 2020

O historiador Yuval Noah Harari é um dos autores mais célebres de nossa época, especialmente reconhecido entre os executivos do Vale do Silício por articular uma visão da humanidade na qual a tecnologia desempenha o papel predominante, capaz talvez de criar uma nova espécie humana. Em uma entrevista recente para a BBC, Harari falou da covid-19 e de um aspecto inquietante que já pode estar sendo gestado: uma nova era de vigilância, baseada em tecnologia hipodérmica ou subcutânea (under the skin), capaz de monitorar sinais biométricos.

A reportagem é publicada por PijamaSurf, 15-05-2020. A tradução é do Cepat.

Harari disse que o novo coronavírus coloca sobre a mesa de discussão, obviamente, o uso de tecnologia de vigilância, por exemplo, para saber se uma pessoa tem febre. O historiador israelense afirmou: “não sou contra a vigilância, devemos utilizá-la, mas responsavelmente, para que não percamos nossas liberdades”. Harari afirmou que pela primeira vez na história os Estados podem vigiar não somente o que as pessoas fazem, como também o que sentem ou pensam, através de tecnologia que monitore sinais biométricos como a pressão sanguínea e o ritmo cardíaco. Parte-se da premissa de que os estados emocionais e anímicos são meros fenômenos biológicos que se correlacionam com sinais biométricos. Sendo assim, com este tipo de tecnologia, seria possível saber se uma pessoa está irritada ou ansiosa, por exemplo, lendo esta nota ou vendo o vídeo de Harari.

É claro, isto é uma faca de dois gumes, pois poderia criar um nível de totalitarismo nunca antes visto. Já vimos o que a vigilância ‘por cima da pele’ pode fazer, por exemplo, no caso do Facebook e das eleições presidenciais de 2016, nos Estados Unidos, onde a informação foi usada para promover certas condutas, mas isto possui uma dimensão muito maior.

Harari destacou que a covid-19 poderia passar para a história, mais que do pela importância da epidemia, como o divisor de águas do momento em se começou a implementar este tipo de vigilância: “Acredito que o desenvolvimento mais importante do século XXI é a habilidade de ‘hackear’ os seres humanos, ir por baixo da pele, coletar dados biométricos, analisá-los e entender as pessoas melhor do que entendem a si mesmas”.

Quando o jornalista da BBC o questionou se esta tecnologia não acarretará em ceder a privacidade de nossos sentimentos e liberdades, Harari destacou que não acredita que isto tenha que ser assim, pois a tecnologia pode ser usada para monitorar nossa saúde e se manter à margem da polícia ou de empresas privadas que busquem obter lucros com a informação. E disse que não acredita no determinismo tecnológico, ou seja, a tecnologia pode ser usada para o bem ou para o mal e não tem um efeito inerente.

Ficam dúvidas, no entanto, diante do apresentado por Harari, pois ainda que obviamente o uso de tecnologia biométrica subcutânea possa ter efeitos sumamente positivos em uma crise como esta, aprendemos também que as crises são utilizadas para aumentar o poder dos Estados e das grandes corporações, em detrimento geralmente dos indivíduos e do ecossistema.

Naomi Klein chamou isto de “doutrina do choque”. Em um artigo recente, Klein sugere que já estamos vendo os sinais de que a pandemia está beneficiando a companhias como Google e Amazon, que estão aumentando seu poder. Em Nova York, por exemplo, o governo anunciou um plano, encabeçado por Erik Schmidt, o ex-CEO do Google (empresa da qual ainda tem milhares de milhões de dólares), para colocar a cidade a se movimentar incorporando a tecnologia em todos os aspectos da vida civil. E uma sociedade similar com a fundação de Bill Gates também foi anunciada.

O problema em utilizar tecnologia subcutânea é que, se realmente é tão poderosa e é o maior invento no que vai do século XXI, é um tanto ingênuo pensar que esta tecnologia se manterá livre das ambições das grandes empresas do chamado “Big Tech”. Em outras palavras, que a informação que reúna não será analisada e usada também para criar novos produtos e manipular a conduta do ser humano. Ainda que Harari de maneira correta advirta sobre seus riscos, ao defender seu uso e postular uma solução tecnológica para todos os nossos problemas, sussurra aos ouvidos destas companhias e organismos governamentais, inclusive lhes oferecendo uma estratégia de comunicação.

Algo similar acontece com sua ideia de que a tecnologia pode tornar certos humanos deuses, ao mesmo tempo em que adverte que isso pode ser terrível para outros. Isto é música para os ouvidos dos executivos do Vale do Silício. Suas palavras podem ser lidas como roteiros e flertes transumanistas, uma forma de pensamento que reduz a essência do ser humano a mera informação: tudo é quantificável.

Contrário a esta postura, o filósofo Markus Gabriel disse: Quando entenderemos, enfim, que, comparado com a nossa superstição de que os problemas contemporâneos podem ser resolvidos pela ciência e pela tecnologia, o perigosíssimo coronavírus é inofensivo?

Gabriel enfatiza, como muitos antes dele, que o desenvolvimento tecnológico deve caminhar de mãos dadas com um crescimento moral similar. A total assimetria entre nosso desenvolvimento moral, entre nossa consciência individual e coletiva e o poder de nossa tecnologia é certamente a desastrosa fatalidade que nossa época enfrenta.

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