Sinfonia dos dois mundos e Laudato si’ – a mística ecológica como proposta

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26 Mai 2020

"No que toca à proposta de uma espiritualidade ecológica, se faz necessário considerar que 'muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas antes de tudo é a humanidade que precisa de mudar'", escreve Emanuel Afonso da Silva, franciscano conventual, mestrando em Teologia Fundamental na Universidade Gregoriana em Roma

Eis o artigo.

Existe uma relação entre a “sinfonia dos dois mundos” (Pierre Kaelin, Dom Helder Câmara, 1979) e a proposta de uma mística ecológica sinalizada pelo Papa Francisco na Laudato si’ através daquilo que ele mesmo chama de espiritualidade ecológica? Talvez mais do que estabelecer uma relação, seja das causas ou dos efeitos de tais documentos como contributo a uma mística ecológica, seria mais interessante tentar colher a intuição primordial que animou Dom Helder e anima Papa Francisco a estabelecer com a criação uma relação de contemplação, admiração e empenho transformador, que se traduz em atitude de conversão ao plano salvífico do “Criador e Pai” – expressão esta tão cara ao coração do bispo dos pobres, como era assim conhecido.

Neste sentido, a obra “sinfonia dos dois mundos” recolhe as conferências de Dom Helder Câmara proferidas ao redor do mundo e são transformadas pelo padre e maestro suíço Pierre Kaelin numa sinfonia com um alcance de denúncia profética, e que ao mesmo tempo através de uma mística libertadora convoca mulheres e homens de boa vontade e de fé para um compromisso transformador do mundo e das estruturas de injustiças.

E a encíclica Laudato si’ (2015) do Papa Francisco, por sua vez, como o nome já indica, parte da primeira expressão do famoso Cântico das criaturas de São Francisco, que em si condensa toda a profundidade contemplativa e mística do Poverello de Assis no tocante a obra criadora de Deus. Um olhar que não é somente enxergar, mas ver com os olhos da fé os vestígios do Pai que em sua criação convida a mulher e o homem a serem seus colaboradores e não dominadores, a não serem senhores e patrões da criação, como se viu através da técnica pós iluminismo de influência cartesiana, entre outros.

Por isso, conforme Papa Francisco, no que toca à proposta de uma espiritualidade ecológica, se faz necessário considerar que “muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas antes de tudo é a humanidade que precisa mudar. Falta a consciência de uma origem comum, de uma recíproca pertença e de um futuro partilhado por todos. Esta consciência basilar permitiria o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração” (LS, 202).

Essa consciência de que fala o papa desemboca não somente em convicções, mas sobretudo em ações, que ainda segundo Francisco, não pode se desvincular de um olhar contemplativo e agradecido através de uma mística capaz de gerar uma espiritualidade encarnada e transformadora. Tal espiritualidade, segundo o papa é aquela ligada à grande experiência cristã e que, “[...] constitui uma magnifica contribuição para oferecer ao esforço de renovar a humanidade” (LS, 216).

Diante do exposto, um possível elo pode ser vislumbrado entre a “sinfonia dos dois mundos” e a Laudato si’, ainda que se tratem de duas realidades separadas no tempo e de autores distintos, a finalidade de ambos pode ser colhida naquilo que papa Francisco chama de “única crise” – “uma única e complexa crise socioambiental” (LS, 139).

Na “sinfonia dos dois mundos” na primeira e segunda parte, respectivamente, aparece em modo poético e musical como pano de fundo de uma mística comprometida com a transformação do mundo, a intrínseca unidade entre uma compreensão e contemplação do mundo como obra de Deus, e a sua salvaguarda da parte do ser humano através de uma política que não seja escrava de esquemas econômicos, mas que este mesmo ser humano possa responsavelmente colher dela o seu sustento de modo justo e equilibrado.

Dom Helder considera o ato criador de Deus como “audacioso”, pois somente Ele poderia criar e entregar esta obra em mãos tão vacilantes – confiará Ele a nós tal empreitada? Assim responde o bispo dos pobres: “Sim, Senhor, poder dizer-te enfim, Avante! Avante! Não hesites! Criar Senhor! Construir Senhor! É o que sonhaste desde o princípio [...]. Decidir fazer o Homem, pequeno verme da Terra – ela mesma, um grão de poeira – decidir fazer do homem Criador a teu lado” (SINFONIA DOS DOIS MUNDOS, I parte).

O sonho do Criador é fazer da pequena criatura seu co-criador, mas ao mesmo tempo este co-criador não pode exercer sua tarefa de modo isolado, porque como alerta o bispo: “homem, meu irmão, vê que a criação inteira de contempla” (SINFONIA DOS DOIS MUNDOS, II parte), e esta mesma criação exige dele, por assim dizer, uma postura responsável e condizente com a missão confiada pelo “Criador e Pai”.

No entanto, este sonho de Deus quase sempre é esquecido por aquele que foi eleito como co-criador, e a este propósito Dom Helder denuncia que tal colaborador do Pai foi longe demais na instrumentalização da criação ao invés de cuidá-la e protege-la. Em tom de advertência ele afirma: “[...] ousado tu vais tão longe na linha da inteligência, esta é a linha de tua chance? E ousado tu vais tão longe, emprestando tua inteligência a serviço do computador, no imenso mundo das estrelas, tu te tornas viajante em naves espaciais” (SINFONIA DOS DOIS MUNDOS, II parte).

E ele mesmo conclui que ao ir longe demais o homem acabou traindo o sonho do Pai ao dizer que: “ousado tu vais tão longe na linha do egoísmo, tão longe que te mostras indigno da preferência maravilhosa e quase escandalosa que o Senhor te manifestou [...]. Estragaste o melhor do que Ele te ofertou, inteligência e liberdade para ofender o Criador, tu traíste teu Pai” (SINFONIA DOS DOIS MUNDOS, II parte).

Desta traição, portanto, derivam tantas consequências que vai desde a instrumentalização da natureza, passando pelas guerras e armas de destruição em massa, pelos desequilíbrios técnicos, econômicos e sociais, bem como pela escalada da violência em todos os níveis; e no meio de tudo isso se arrasta a via sacra de todos os pobres deste mundo em condições sub-humanas.

Mas segundo Dom Helder, a vinda de Jesus, sua encarnação, vida, morte e ressurreição não foram em vão pois “[...] o Espírito sopra no meio da noite” (SINFONIA DOS DOIS MUNDOS, VI parte), e mesmo quando tudo parece não ter fim e os pessimistas insistem em apontar o caos, faz-se necessário não “[...] esquecer que mais escura é a noite mais bela é a aurora” (SINFONIA DOS DOIS MUNDOS, VI parte).

Por fim, poderíamos ousar dizer que a denúncia profética de Dom Helder feita em forma de música, poesia e movimento se une ao canto de louvor Laudato si’ de Francisco de Assis, que é retomado pelo papa que carrega seu nome como inspiração, e este mesmo papa convida a todos para um ato de contemplação da obra criadora de Deus, através de uma mística transformadora e uma espiritualidade ecológica, e ao mesmo tempo continuando a denúncia profética, oferece na sua encíclica inspirações e sugestões concretas para um caminho de cuidado e de salvaguarda da criação inteira e práticas compartilhadas; e assim o ser humano consiga cumprir aquela vocação de cuidador e colaborador a ele confiada pelo “Criador e Pai”.

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