É o momento de ver os pobres. Artigo de Joachim von Braun, Stefano Zamagni e Marcelo Sánchez Sorondo

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27 Abril 2020

Se quisermos sobreviver ao Antropoceno, é necessária uma sociedade mais responsável, mais solidária, mais inclusiva e mais justa.

Essa é a opinião conjunta do economista alemão Joachim von Braun, presidente da Pontifícia Academia das Ciências, do economista italiano Stefano Zamagni, presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, e do bispo argentino Marcelo Sánchez Sorondo, chanceler das duas academias.

O artigo foi publicado em L’Osservatore Romano, 22-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A pandemia da infecção por coronavírus (Covid-19) revelou as profundas desigualdades que colocaram os pobres, tanto nos países de baixa renda quanto nos países ricos, em maior risco de sofrimento. Em uma entrevista há alguns dias, o Papa Francisco enfatizou que “este é o momento de ver os pobres”.

Enquanto a ciência não encontrar medicamentos adequados e uma vacina para o tratamento e a prevenção da Covid-19, o paradoxo atual é de que todos devem cooperar com os outros e, ao mesmo tempo, se autoisolar como medida protetiva.

No entanto, embora o distanciamento social seja bastante viável para os ricos, os pobres aglomerados nas favelas urbanas ou nos campos de refugiados não têm essa opção e carecem de máscaras faciais e de estruturas para lavar as mãos. Para enfrentar os riscos nas grandes cidades lotadas dos países em desenvolvimento, devemos apoiar a prevenção mediante testes, fornecendo acesso a dispositivos de proteção e comprometendo-nos seriamente a construir hospitais provisórios a fim de isolar as pessoas infectadas.

A brecha digital entre ricos e pobres também poderia custar muitas vidas. A distribuição iníqua das novas tecnologias e dos recursos online implica que as informações cruciais sobre a Covid-19, em particular os avisos preventivos e as intervenções recomendadas para a fase inicial, não chegam a tempo, ou nem chegam, nas comunidades de baixa renda. Sem acesso a informações responsáveis, transparentes e atualizadas, uma cacofonia de hipóteses não comprovadas pode se espalhar perigosamente nessas comunidades pobres.

A brecha no acesso à tecnologia também se traduz em uma séria falta de oportunidades de aprendizagem a distância, já que universidades e escolas estão fechadas. Por outro lado, o teletrabalho durante o confinamento social é impossível para milhões de trabalhadores de baixa renda por causa da natureza do seu trabalho e da falta de acesso às infraestruturas de comunicação. O que a Covid-19 nos ensina é que o acesso universal à internet e às tecnologias de comunicação deve se tornar um direito humano.

Infelizmente, nas comunidades pobres, essas desigualdades estão na origem de outros efeitos devastadores. A Covid-19 está influenciando negativamente as economias nacionais, destruindo as pequenas empresas e os agricultores. As consequências perturbadoras sobre os sistemas alimentares, em particular, prejudicam os pobres, que gastam a maior parte do seu poder de compra em alimentos.

Assim, a fome aumenta, e se agrava a ameaça das pandemias à saúde pública. O programa global para alcançar as metas de sustentabilidade das Nações Unidas (ONU), em particular aquelas relacionadas à pobreza, à fome, à saúde, ao trabalho digno e ao crescimento econômico, também será comprometido pela Covid-19, a menos que o mundo coopere e inclua o resgate das pequenas empresas e dos agricultores na tentativa de evitar uma crise econômica global.

A Covid-19 também trouxe à tona a fragilidade da interconexão. As crescentes interações econômicas intercontinentais abriram o mundo a maciços fluxos transfronteiriços de bens, serviços, dinheiro, ideias e pessoas. Isso permitiu que muitos saíssem da pobreza.

No entanto, frear a rápida disseminação da síndrome respiratória aguda grave – novo coronavírus (Sars-cov-2) – requer o fechamento das fronteiras ao redor dos focos da infecção. Esses fechamentos, porém, devem ser apenas temporários e não devem obstaculizar a cooperação entre nações para gerir a pandemia.

Os recursos humanos, os equipamentos, as competências sobre os tratamento e os suprimentos, além dos bens não comerciais e espirituais, devem ser compartilhados também com os países pobres. Inicialmente, a pandemia levou as nações a pensarem em si mesmas. Mas procurar uma solução para a Covid-19 através do isolamento nacional seria contraproducente. A Sars-cov-2 não reconhece as fronteiras. As nações ricas devem apoiar as organizações transnacionais e as das Nações Unidas no seu compromisso mundial para controlar a disseminação desse contágio.

As capacidades científicas em geral e, especificamente, aquelas correlacionadas às doenças infecciosas são fortemente desiguais no mundo. Isso contribui para um maior risco de sofrimento nas nações pobres. As causas que estão na raiz das doenças infecciosas causadas por bactérias, vírus ou parasitas que se espalham dos animais para o ser humano, por exemplo, requerem uma pesquisa de tipo cooperativo próxima das potenciais áreas de risco, também nas nações pobres.

Chegou o momento de o mundo desenvolvido se comprometer para alcançar esse objetivo. Se a brecha nas competências científicas continuar a crescer, o interesse das nações ricas também sofrerá pesadamente com isso, deixando o ônus da doença para os pobres.

Outras importantes crises globais, como as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade, requerem respostas igualmente mundiais e cooperativas que não ignorem os pobres. Uma vez que a Covid-19 esteja sob controle, o mundo não poderá voltar à rotina anterior. Devem ser profundamente revistas as nossas concepções de mundo, os estilos de vida e os os problemas da avaliação econômica de curto prazo.

Se quisermos sobreviver ao Antropoceno, é necessária uma sociedade mais responsável, mais solidária, mais inclusiva e mais justa.

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