Desencanto na caserna: militares não aprovam atuação de Bolsonaro, mas mantêm neutralidade. Entrevista especial com Antonio Carlos Will Ludwig

Participação do presidente Bolsonaro em atos antidemocráticos visa enfraquecer e arruinar o ordenamento político democrático, diz o pesquisador

Foto: Divulgação

Por: João Vitor Santos, Patricia Fachin e Ricardo Machado | 15 Mai 2020

Apesar de a história política do Brasil estar intimamente relacionada à história das Forças Armadas desde a guerra do Paraguai, o envolvimento dos militares com a política, especialmente durante a ditadura militar, "trouxe graves sequelas" para as instituições e, por causa disso, "os militares do presente não mais aprovam a ideia de atuar como poder moderador ou de participar de golpes", afirma Antonio Carlos Will Ludwig à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail. Segundo ele, "declarações públicas de preferências partidárias e emissão ostensiva de opiniões sobre as ocorrências políticas não são bem-vindas no interior da caserna".

A atual postura das Forças Armadas e sua subordinação hierárquica ao presidente explicam a posição de “neutralidade” assumida pelos militares em relação à participação do presidente Jair Bolsonaro em manifestações antidemocráticas. Entretanto, o número de militares que discordam da postura de Bolsonaro é “majoritário” e muitos “estão bastante desencantados com a atuação dele e preferem ver em seu lugar a figura do vice-presidente”, assegura.

Na avaliação do pesquisador, a neutralidade assumida pelos militares não é adequada por três motivos. “Primeiro, porque desconsidera o papel constitucional das Forças Armadas de defesa da democracia. Segundo, porque passa a impressão de que os militares estão concordando com as reações antidemocráticas. Provavelmente deve existir um grupo insignificante deles favoráveis a tais reações, porém a grande maioria inclina-se para o lado contrário. Terceiro, porque alimenta a desconfiança dos civis em relação aos militares”. E acrescenta: “Penso que as forças militares devem contribuir bastante para a diminuição dos atos antidemocráticos, quiçá para impedir o surgimento de qualquer outro. Declarações públicas contra tais atos por parte de militares são muito bem-vindas. Pedidos de demissão daqueles que se encontram exercendo cargos no governo bem como a recusa de outros para preencher os que vagarem ou os que forem criados têm o poder de contribuir vigorosamente para conter os arroubos do presidente contra a democracia”.

Antonio Carlos Will Ludwig (Foto: Arquivo Pessoal)

Antonio Carlos Will Ludwig possui licenciatura em Pedagogia pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro, mestrado em Filosofia da Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba, doutorado em Metodologia do Ensino pela Universidade Estadual de Campinas e pós-doutorado em Metodologia do Ensino e Educação Comparada pela Universidade de São Paulo. Entre suas publicações, destacamos A Reforma do Ensino Médio e a formação para a cidadania (Campinas: Pontes Editores, 2019) e Democracia e Ensino Militar (São Paulo, Cortez Editora, 1998).

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Qual é o objetivo do presidente Jair Bolsonaro ao participar de manifestações que pedem a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal – STF?

Antonio Carlos Will Ludwig – Ele participa dessas manifestações porque é adepto do ideário defendido pelos integrantes dos grupos que as realizam. Sua intenção é tentar mostrar que, tanto o povo quanto as Forças Armadas, estão ao seu lado para ajudá-lo a enfraquecer e se possível arruinar o ordenamento político democrático.

IHU On-Line – Durante as manifestações, o presidente disse que “está no limite e os militares estão com ele”. Mais tarde, o vice-presidente Hamilton Mourão e outros membros do governo amenizaram as declarações. Que leitura o senhor faz desse cenário? 

Antonio Carlos Will Ludwig – A grande maioria dos militares, principalmente da ativa e dos escalões mais elevados, não aceita embarcar em nenhuma aventura golpista. As amenizações têm sido proclamadas pelos militares palacianos, os quais estão convictos de que Bolsonaro não é adepto da ruptura democrática. No entanto, tais proclamações têm servido como um aval para ele continuar praticando ações reprováveis.

IHU On-Line - Quais são as divergências entre os militares que apoiam e os que “não embarcam” na forma como Bolsonaro encara a sua missão junto ao Planalto?

Antonio Carlos Will LudwigBolsonaro é um ferrenho adepto do autoritarismo e sua pretensão é governar o país com superpoderes. Acreditamos que a grande maioria dos militares não aceita e nem apoia esta pretensão. É possível que haja um número inexpressivo deles que concorde com ela. 

IHU On-Line – Por que Bolsonaro faz referência aos militares no diálogo com seus eleitores? Qual é o peso dos militares tanto para a sua base eleitoral quanto para a população em geral?

Antonio Carlos Will Ludwig – Um número significativo dos eleitores de Bolsonaro é adepto da volta dos militares ao governo. Muitos militares que o apoiam pertencem aos escalões mais baixos e se encontram na reserva. Ele sabe também que as Forças Armadas se mostram hoje como a instituição mais confiável para 80% da população brasileira.

IHU On-Line - O que explica a adesão do eleitorado de Bolsonaro à volta dos militares? Como esses eleitores compreendem a ideia de democracia?

Antonio Carlos Will Ludwig – Existe uma parcela significativa da população brasileira que não tem demonstrado o devido apreço para com o regime democrático. As pessoas que dela fazem parte podem não ter sentido seus benefícios e inclinam-se a acreditar na ideia de que ela permitiu o surgimento de uma forte onda de corrupção no país. As Forças Armadas atualmente se mostram como a instituição mais confiável de todas. Assim sendo, creem que os militares são os personagens que devem ditar os rumos da nação. Tais eleitores preocupam-se essencialmente com a segurança da população, o combate à corrupção e a manutenção dos valores tradicionais. É de se supor que para eles este ideário só pode ser realizado por meio de um poder Executivo bastante forte e dotado de elevada autonomia.

IHU On-Line – Os militares têm assumido posições ambíguas e divergentes em relação à participação do presidente em atos antidemocráticos? Eles estão divididos acerca de como se posicionar em relação ao governo Bolsonaro? 

Antonio Carlos Will Ludwig – É bem majoritário o número de militares que discordam de sua participação nestes atos. O grupo palaciano, apesar de supor que sua participação não ameaça a ordem democrática, tem agido no sentido de tentar contê-lo. O Ministro da Defesa, o general do Exército Fernando Azevedo e Silva, juntamente com os comandantes das três armas, têm preferido não fazer menções porque Bolsonaro atualmente é o comandante de todas as Forças Armadas. Nos quartéis a hierarquia é muito poderosa. Assim sendo, beira o impossível, por iniciativa própria, um subordinado fazer uma crítica a um superior hierárquico. Entretanto, é viável supor que muitos militares estão bastante desencantados com a atuação de Bolsonaro e preferem ver em seu lugar a figura do vice-presidente.

IHU On-Line - Como o vice-presidente é visto pelas Forças Armadas? O que faz com que ele tenha maior adesão entre as Forças Armadas do que a figura do presidente? O fato de um ser general e o outro um capitão reformado complexifica essa relação política?

Antonio Carlos Will Ludwig – Entendemos que o vice-presidente é bem visto pelos seus colegas de farda porque é um militar que ostenta qualidades que devem fazer parte do perfil de um soldado, conforme se encontra previsto nos regulamentos castrenses. Além disso, ele galgou todos os postos da hierarquia militar desde aspirante até general. Embora ambos estejam na reserva e exercendo atividades fora dos quartéis, o fato de um general se mostrar subordinado a um capitão não se coaduna com o princípio da hierarquia. Note-se também que algumas concepções adotadas por Mourão não se sintonizam com as de Bolsonaro

IHU On-Line – O senhor critica a "neutralidade" dos militares tanto em ralação às manifestações contra a democracia, quanto em relação à participação do presidente nessas manifestações. Por que, no seu entendimento, os militares têm assumido essa posição?

Antonio Carlos Will Ludwig – A posição de neutralidade foi assumida no primeiro comunicado emitido pelo Ministério da Defesa. No segundo comunicado ela foi deixada de lado porque houve muitos pronunciamentos nos meios de comunicação contra ela. Esta opção pela neutralidade se deve, essencialmente, ao fato de que os funcionários fardados não querem mais o envolvimento das instituições militares em questões políticas.

IHU On-Line – Por que as Forças Armadas não querem mais envolvimento das instituições militares em questões políticas? O que isso significa?

Antonio Carlos Will Ludwig – A história política de nosso país se encontra intimamente relacionada com as Forças Armadas. Pode ser dito que este relacionamento teve início na segunda metade do século XIX, atravessou quase todo o século XX e recaiu nos dias atuais. O envolvimento com a política no decorrer desse longo tempo trouxe graves sequelas para as mesmas. A mais séria foi a perda de prestígio perante a sociedade decorrente dos vinte anos de supressão do regime democrático. É válido inferir que os militares do presente não mais aprovam a ideia de atuar como poder moderador ou de participar de golpes. Declarações públicas de preferências partidárias e emissão ostensiva de opiniões sobre as ocorrências políticas não são bem-vindas no interior da caserna.

IHU On-Line - Como as Forças Armadas compreendem a política? Por que o Exército não apresenta publicamente seus líderes políticos como tais?

Antonio Carlos Will Ludwig – Como todas as pessoas esclarecidas, os militares devem enxergar a política como uma atividade importante porque diz respeito ao governo da sociedade, além de muito complexa, pois envolve interesses divergentes de difícil conciliação. Devem saber também que a mesma agrega muita negociação, a qual normalmente tende a dificultar bastante e até impedir a atuação de políticos comprometidos com determinados princípios que não pretendem abandonar. Supomos que as Forças Armadas não almejam possuir líderes políticos e, sim, líderes de tropa. A opção pelo protagonismo político tende a ser, portanto, uma decisão eminentemente pessoal. 

IHU On-Line – A neutralidade das Forças Armadas deve ser quebrada neste momento? Por quê?

Antonio Carlos Will Ludwig – Essa neutralidade não é adequada por três motivos. Primeiro, porque desconsidera o papel constitucional das Forças Armadas de defesa da democracia. Segundo, porque passa a impressão de que os militares estão concordando com as reações antidemocráticas. Provavelmente deve existir um grupo insignificante deles favoráveis a tais reações, porém a grande maioria inclina-se para o lado contrário. Terceiro, porque alimenta a desconfiança dos civis em relação aos militares.

IHU On-Line – O que o senhor espera dos militares neste momento?

Antonio Carlos Will Ludwig – Acredito que o mais importante já foi feito com o segundo comunicado do Ministério da Defesa, onde se encontra escrito que as Forças Armadas estão ao lado da democracia. Penso que as forças militares devem contribuir bastante para a diminuição dos atos antidemocráticos, quiçá para impedir o surgimento de qualquer outro. Declarações públicas contra tais atos por parte de militares são muito bem-vindas. Pedidos de demissão daqueles que se encontram exercendo cargos no governo bem como a recusa de outros para preencher os que vagarem ou os que forem criados têm o poder de contribuir vigorosamente para conter os arroubos do presidente contra a democracia.

IHU On-Line – O presidente perdeu bastante popularidade nos últimos meses, mas analistas apontam que, especialmente nessas manifestações, ele fala para uma minoria bolsonarista. Há risco de essa minoria crescer?

Antonio Carlos Will Ludwig – Não é possível asseverar que haverá crescimento. É aceitável supor que ele tem perdido adeptos por conta do desencanto com seu governo. Entretanto, o auxílio financeiro de 600 reais que já está sendo distribuído pode contribuir para engrossar a fileira de seus seguidores.

IHU On-Line – Que futuro vislumbra para o governo?

Antonio Carlos Will Ludwig – Por causa da grande quantidade de erros cometidos é provável que Bolsonaro não chegue ao fim de seu mandato.

IHU On-Line - Como avalia a postura e o depoimento dos militares no inquérito que investiga possível interferência do presidente na Polícia Federal?

Antonio Carlos Will Ludwig – Postura coerente com a ética militar. Os depoimentos foram singulares, claros e objetivos.

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