Farda, família e mercado: os homens que compõem o círculo de poder de Bolsonaro

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03 Outubro 2018

Grupo mais próximo do candidato tem familiares e parlamentares conservadores. Militares também atuam e cerca de 40 deles se reúnem semanalmente para debater os planos de Governo.

A reportagem é de Gil Alessi e Afonso Benites, publicada por El País, 02-10-2018.

O candidato à presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) é frequentemente chamado por seu círculo mais próximo pelo apelido de 01, uma referência ao papel de liderança que o capitão da reserva desempenha na campanha. Se ele é o 01, o cargo de 02 é disputado por vários membros de sua entourage, composta por familiares, amigos da caserna e parlamentares. A internação de Bolsonaro após o ataque sofrido em Juiz de Fora mostrou que sem o capitão, peça responsável por unir a polifonia de vozes dentro sua campanha, todos batem-cabeça. Veja quais são os diferentes núcleos que rodeiam Bolsonaro, e quem são os principais “soldados” do candidato.

O chefão do PSL

O advogado Gustavo Bebianno, presidente interino do PSL, é um dos mais próximos de Bolsonaro. Foi responsável pelas negociações entre o deputado e seu novo partido em um momento no qual o capitão era assediado por outras legendas ao anunciar que deixaria o PSC, no início do ano. Bebiano diz que Bolsonaro foi dispensado pelos Patriotas, com quem negociava havia quase um ano. Uma das razões foi que o partido não queria entregar sua direção a seu grupo, o que o PSL prontamente fez. Assim, Bebiano assumiu o comando do PSL logo após se filiar, colocando Luciano Bivar (que disputa uma vaga na Câmara), o dono da sigla, temporariamente para escanteio.

Há mais de uma década está ao lado de Bolsonaro. Antes, trabalhou no Jornal do Brasil, na área administrativa. Com perfil centralizador, o advogado é responsável pela estratégia jurídica da campanha, além de ser um conselheiro de Bolsonaro para praticamente todos os assuntos. Assim que o capitão foi esfaqueado, ele declarou à imprensa que a guerra do bem contra o mal havia começado. Foi um dos poucos de fora do círculo familiar do candidato a ter acesso a ele durante todo período de internação no hospital Albert Einstein. Costuma dizer que não entende de política e que só preside o PSL para proteger Bolsonaro.

O czar da economia

O economista e banqueiro Paulo Guedes dá as cartas na campanha quando o assunto é economia. Antes de assumir o plano econômico de um possível Governo do capitão, no entanto, Guedes chegou a tentar convencer o apresentador Luciano Huck a disputar a presidência. Quando a campanha do global fez água antes de começar, ele migrou para o bloco bolsonarista. Apesar de ter muita autonomia, concedendo entrevistas e falando seus planos para a Fazenda, o economista também levou puxões de orelha do candidato, o mais recente após defender a volta do imposto CPMF, Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. No twitter o candidato escreveu que "equipe econômica trabalha para redução de carga tributária, desburocratização e desregulamentações”. Apesar da campanha negar que qualquer um de seus integrantes sofra qualquer restrição na hora de se pronunciar publicamente, após o episódio do imposto Guedes desmarcou alguns eventos de sua agenda.

O núcleo fardado

Capitão reformado do Exército, Bolsonaro se cerca de militares para tentar cumprir a missão mais difícil de sua longa carreira política. O mais próximo dele é o general Augusto Heleno, que chefiou a missão de paz da ONU no Haiti. Heleno chegou a ser cotado para ser seu vice, mas o partido dele, o PRP, não quis se vincular oficialmente a Bolsonaro. A função acabou caindo no colo do general Hamilton Mourão, que já defendeu uma intervenção militar durante os anos de crise política vividos pelo Governo Dilma Rousseff.

Mourão já foi comandante de Bolsonaro na década de 1980 e, agora como comandado, tem sido apontado muitas vezes como uma pedra em seu sapato. Já proferiu declarações polêmicas, como a que disse que lares comandados por mães e avós são propícios para gerarem filhos desajustados, assim como a que sugere o fim do 13º salário e o de adicional de férias dos trabalhadores brasileiros ou ainda a que prevê a criação de uma constituinte formada por “notáveis”, sem a participação do Congresso Nacional. Depois da série de desvios de rumos, Mourão entrou na semana que antecede o primeiro turno no modo low profile. “Temos de manter a calma nessa última semana. Não vou aos debates de vice-presidente por orientação do Bolsonaro (...) Agora estou quietinho”, disse o general nesta segunda-feira ao desembarcar para encontros familiares em Brasília.

Sem se candidatar à vice, Heleno se dedicou voluntariamente a fazer a ponte com outros membros das Forças Armadas e a comandar grupos técnicos de discussões setorizadas. Duas vezes por semana, ele reúne em Brasília cerca de 40 técnicos e militares que debatem os planos de Governo de Bolsonaro. Discutem desde infraestrutura, até segurança pública, de esportes à questão indígena. Entre os participantes desses grupos estão os generais Oswaldo Ferreira, ex-chefe do departamento de engenharia e construção do Exército, e Aléssio Ribeiro Souto, que já chefiou o Centro Tecnológico do Exército. Eles são assessorados por civis que não os veem como uma ameaça para a democracia, como o professor de economia da UnB Paulo Coutinho e o professor da FGV e cientista político Antônio Flávio Testa.

Nos Estados, Bolsonaro incentivou candidaturas de generais para que servissem de palanque a ele e, em caso de eleitos, pudessem fazer parte de sua base de Governo. Nesse grupo encontram-se os generais Sérgio Roberto Petterneli (SP), Elieser Girão Monteiro (RN) e Mário Araújo e Marco Felício (ambos de MG). Outro que costuma ser ouvido por Bolsonaro é o general Paulo Chagas, que concorre com chances reduzidas ao Governo do Distrito Federal.

Família Bolsonaro

O capitão tem três filhos na política: o também deputado federal Eduardo (PSL-SP), o deputado estadual pelo Rio Flávio, e o vereador carioca Carlos. Os dois primeiros desempenham papel importante na campanha – principalmente Eduardo, que faz campanha em São Paulo e pôde acompanhar o pai durante a internação no hospital Albert Einstein. Carlos chegou a pedir licença não-remunerada da Câmara para poder ficar junto ao pai. Com Bolsonaro fora de campo temporariamente por ordens médicas, os filhos se dividem em eventos de campanha na reta final do pleito. Cabe aos filhos também o papel de rebater acusações e críticas contra o capitão nas redes sociais – muitas vezes recorrendo a fake News.

Os congressistas

Quatro parlamentares de fora da família desempenham papel importante na campanha de Bolsonaro. São eles os deputados federais Major Olímpio (PSL-SP), Fernando Franchischini (PSL-PR) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS), e o senador Magno Malta (PR-ES). Este último chegou a ser cotado para assumir o cargo de vice na chapa bolsonarista, mas declinou para continuar no Congresso. Os quatro são ligados às bancadas da bala e evangélica do Congresso.

Olímpio que disputa vaga ao Senado, tenta colar sua imagem à do capitão usando até mesmo o slogan “Bolsolímpio”. Assim como seu padrinho, o deputado defende o rearmamento da população, a redução da maioridade penal e outras pautas conservadoras. Olímpio desempenha o papel de coordenador de campanha de Bolsonaro em São Paulo.

O senador Malta, que é próximo do polêmico pastor Silas Malafaia – com quem visitou o capitão no hospital – é considerado um dos principais articuladores políticos a serviço da campanha bolsonarista. O parlamentar tem se empenhado em construir alianças para fortalecer o candidato à presidência em um eventual segundo turno, principalmente dos partidos do centrão que atualmente orbitam em torno de Geraldo Alckmin (PSDB). O DEM e o PSD são alguns dos maiores alvos do assédio de Malta.

Lorenzoni, que se destacou como o relator do projeto das 10 medidas contra a corrupção, é cotado para ocupar a Casa Civil caso Bolsonaro seja eleito. Filiado ao DEM, partido do centrão que apoia Alckmin até o momento, o deputado também terá a tarefa de costurar alianças.

Outro que auxilia nesse trabalho é o deputado Fernando Francischini, delegado de polícia aposentado, ele seria candidato ao Senado pelo Paraná, mas como não conseguiu coligações locais, seu tempo de TV ficou diminuto (menos de 10 segundos), o que fez com que ele concorresse para deputado estadual. “Se eu saísse para senador, não teria tanto tempo para me dedicar ao Bolsonaro. E para federal, estou lançando meu filho. Para estadual, eu consigo viajar mais com ele”. Francischini também é o responsável por angariar novos seguidores para os bolsonaristas nas redes sociais. Suas transmissões no Facebook rendem até 1 milhão de visualizações, segundo seus cálculos.

Adendos setorizados

Além de todos esses grupos, a rede de Bolsonaro também tentou incluir alguns especialistas setorizados. Vice-presidente do PSL e candidato a deputado federal, o empresário da segurança Julian Lemos, da Paraíba, é o principal cabo eleitoral do presidenciável no Nordeste. Foi ele quem intermediou o contado com a agência de comunicação responsável por fazer as peças publicitárias da campanha.

Lemos conheceu Bolsonaro há cerca de dois anos quando sua empresa foi contratada para fazer a segurança de uma palestra que o deputado federal faria em Belém. O auditório em que ocorreria o encontro estava lotado de manifestantes favoráveis ao candidato e, após um princípio de confusão, Lemos agiu praticamente sozinho para garantir a segurança de Bolsonaro. As relações entre eles se estreitaram e ele foi convencido a entrar para a política.

Na área de agronegócios, o principal assessor e apoiador de Bolsonaro é Luiz Antonio Nabhan Garcia, presidente da União Democrática Ruralista. Mas o diretor da Sociedade Rural Brasileira, Frederico D’Ávila, que já assessorou o PSDB, também tem apresentado suas sugestões.

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