Tem sentido um “passaporte digital” com base em testes imunológicos? Por enquanto não

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15 Abril 2020

O teste, que se espera ainda seja aplicado em muito mais pessoas, serve para saber se alguém realmente contraiu a covid-19.

A reportagem é de Mariella Bussolati, publicada por Business Insider, 14-04-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

A análise que poderia nos permitir sair da pandemia no futuro com uma estratégia de aberturas progressivas, no entanto, é outra: é a que permite detectar quem possui os anticorpos.

Além de testemunhar que a pessoa se recuperou, deveria confirmar o fato de que não pode mais contagiar ninguém.

O teste procura o material genético do vírus e utiliza um método chamado PCR, reação em cadeia da polimerase, que só funciona quando o patógeno está presente, mesmo se não houver sintomas. Portanto, não pode ser usado quando a patologia tiver terminado e o vírus já tenha saído do corpo. O teste imunológico que confirma a presença dos anticorpos permite, por outro lado, entender quem foi infectado, inclusive os assintomáticos, quando a doença já acabou.

Vários tipos de testes já estão disponíveis, alguns podem até ser feitos em casa, sem a necessidade de um laboratório. Uma empresa chinesa, Innovita, colocou no mercado um que fornece a resposta em menos de 15 minutos. Em breve, será possível comprá-lo online. Na Alemanha, o Helmholtz Centre for Infection Researchers planeja analisar 100.000 pessoas nas próximas semanas para decidir se reabrirá parques e escolas. O governo britânico, que usa um teste desenvolvido pela saúde pública, encomendou 17,5 milhões para triagem em massa, mas há uma proposta que possam servir principalmente para os profissionais de saúde.

A Itália também desenvolveu um teste no laboratório de virologia do Policlinico San Matteo em Pavia, com a empresa DiaSorin. É o que já foi experimentado em Robbio, onde a investigação foi estendida a todo o país e se descobriu que 10% da população foi afetada pelo vírus. Se isso correspondesse a dados nacionais, significaria que 6 milhões de italianos, e não 150.000, tiveram a Covid-19.

Se pudéssemos determinar quem já estava doente, novos cenários poderiam se abrir. Ter os anticorpos poderia permitir a alguns voltarem ao trabalho e retomar as atividades, enquanto aqueles que não os têm deveriam continuar a se proteger.

Um passaporte ou pulseira de imunidade poderia ser emitido, que permite aos privilegiados voltarem a viver e trabalhar, ir correr nos parques, ver as pessoas.

O presidente da região do Vêneto e Matteo Renzi propuseram um Covid pass. E também Giuseppe Conte declarou que está consultando cientistas para entender como se poderia recolocar no trabalho os demitidos. Bill Gates propôs isso como um método para recolocar em funcionamento a economia.

Os residentes da província de Hubei receberão um código QR. Será vermelho para aqueles que foram confirmados com Codiv ou para aqueles com febre. Seus contatos, mesmo que saudáveis, terão um código amarelo. Aqueles que superaram a doença, verde.

Por enquanto, no entanto, os resultados do teste de imunidade não são cientificamente certos. E há muitas dúvidas.

A presença de uma reação é medida por dois valores de: a sensibilidade (capacidade de encontrar anticorpos) e a especificidade (a capacidade de encontrar anticorpos específicos). Em média os testes disponíveis têm uma precisão entre 87,3 e 90 por cento. Significa que são conseguem reconhecer anticorpos em cerca de 10% das amostras. Na Itália, isso significaria que cerca de 6 milhões de pessoas obteriam um falso resultado. Ou seja, poderia acontecer que alguém que é imune não consiga o passaporte, mas também que quem não é imune possa ser equivocadamente considerado como tal, com o resultado de que facilitaria a disseminação.

Por enquanto, portanto, só poderia servir para determinar a efetiva disseminação da pandemia.

O sistema em que a análise imunológica se baseia pressupõe que tenham ficado em circulação no sangue os anticorpos que sempre são produzidos quando um patógeno estimula nosso sistema imunológico. O teste analisa o soro sanguíneo, a porção líquida do sangue sem glóbulos vermelhos. Basta um pequeno furo no dedo para obter um resultado. Com a técnica chamada Elisa, quando o anticorpo está presente, reage com o antígeno e a solução muda de cor.

A pesquisa dos anticorpos funciona entre 6 e 10 dias após o início da doença. O primeiro produzido é a imunoglobulina M (IgM), que tem vida curta e permanece apenas por algumas semanas. Posteriormente, são produzidas imunoglobulinas G (IgG) e IgA, muito mais específicas, que no caso de alguns patógenos podem permanecer inclusive por toda a vida. Infelizmente, depende de quais, e esse é outro elemento de incerteza.

A catapora confere uma imunidade que dura por toda a vida, mas o tétano obriga as pessoas a contínuas revacinações. Os resfriados comuns, que são coronavírus, dão imunidade por apenas algumas semanas. Depois pode haver recaída. O Sars, similar em 76% ao Sars Covid-2 em circulação atualmente, dura apenas por até três anos.

Quanto à Covid-19, por enquanto ainda não sabemos muito. Pouco tempo se passou desde que apareceu. Nem sabemos se uma resposta imunológica impede a reinfecção ou não, e se aqueles que desenvolveram IgG ainda podem infectar outras pessoas. E parece haver uma alta variabilidade individual. Algumas pessoas poderiam ter desenvolvido poucos anticorpos para se considerarem protegidos.

De qualquer forma, existem problemas mais amplos. Antes de tudo, a população poderia ser dividida em duas categorias e a mensagem veiculada até agora, estamos todos juntos, todos devemos nos proteger, de repente poderia não ter mais valor. Quem está trancado em casa poderia experimentar uma sensação de injustiça.

Durante a Grande peste de Londres, em 1665, as casas dos infectados eram pintadas com uma cruz vermelha, para que ninguém pudesse chegar perto. Também deveria haver muitas forças policiais em circulação, para poder controlar todos aqueles que realmente têm direito de circular. Além disso, pode acontecer que as pessoas deixadas sem trabalho decidam voluntariamente se infectar e depois, uma vez recuperadas, ter a permissão de sair.

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