Crise da pandemia revela uma pobreza de compreensão e de solidariedade

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02 Abril 2020

Será preciso mais do que a Covid-19 para matar as ideologias dos nossos dias que distorcem o nosso cenário político e distendem os nossos órgãos de governo para além do reconhecimento. Ou eu sou a única pessoa cansada do gênero “O que o coronavírus significa para mim” e de como os exemplos desse gênero, independentemente da persuasão ideológica, geralmente resultam em alguma versão desta alegação: neste momento completamente sem precedentes, tudo aquilo em que tenho acreditado o tempo todo está enfaticamente confirmado. Reivindicações de presciência são tão contagiosas quanto o vírus!

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado em National Catholic Reporter, 01-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eu espero que algum pesquisador brilhante encontre uma cura para o coronavírus. Hoje, vamos tentar acabar com algumas das estupidezes ideológicas que a crise colocou em foco.

Na semana passada, uma votação no Senado dos EUA sobre um projeto de estímulo foi realizada no último momento, quando quatro senadores republicanos – Lindsey Graham, Ben Sasse, Rick Scott e Tim Scott – manifestaram objeções à disposição que daria 600 dólares extra por semana a todos os que se declararem desempregados. Graham disse que a proposta “paga mais para você não trabalhar do que se estivesse trabalhando”, criando um desincentivo ao trabalho, um fantasma de longa data do Partido Republicano.

Abandonar o próprio emprego, em meio a uma recessão pandêmica e econômica, a fim de obter benefícios de desemprego mais altos, seria uma decisão tão estúpida que é difícil ver como qualquer política do governo poderia afetá-lo de um modo ou de outro. Mas a estupidez de Graham resplandecia por aqui: se você abandonar o seu emprego, você não terá direito a benefícios de desemprego. Eles só entram em ação se você for demitido ou dispensado.

O problema, no entanto, é mais profundo. Os republicanos e os economistas que os amam, mentem essencialmente ao povo estadunidense sobre a natureza dos incentivos econômicos há muito tempo. As pessoas reais certamente são motivadas pela perspectiva de ganhar mais dinheiro, mas essa não é a única motivação que elas têm.

O trabalho traz dignidade existencial e também um salário. Poucas pessoas que eu conheço têm inveja de qualquer outra pessoa que esteja desempregada. Desde que me tornei escritor, eu ganho quase a metade do que ganhava ao administrar um restaurante, e eu amava o meu trabalho da mesma maneira que eu amo agora, mas as minhas razões para mudar tinham a ver com o envelhecimento e outras considerações, não principalmente com o salário.

Você vê essa manipulação política de uma ideia econômica de outras formas também. Os republicanos sempre justificam os cortes de impostos para os ricos, alegando que isso incentiva o investimento. Uma taxa de imposto marginal mais alta significa que um investidor tem menos incentivo para investir do que um imposto mais baixo.

Mas essa equação compara as escolhas erradas que um investidor enfrenta. Digamos que você seja convidado a investir em uma empresa, e o seu investimento poderá lhe render um milhão de dólares. A sua motivação ficará reduzida consideravelmente se você for tributado, digamos, em 40% no seu retorno em vez de 35%, uma diferença de 50.000 dólares? A comparação real é entre o um milhão que você poderá ganha, menos qualquer que seja a taxa de imposto, com as várias outras coisas que você pode fazer com o seu dinheiro.

Os ideólogos políticos de esquerda também estão a todo o vapor. Andrew Yang está muito feliz em fazer comparações entre seus “dividendos da liberdade” e o pagamento direto a indivíduos incluídos na nova lei de estímulos.

“Portanto, existem algumas diferenças, mas os fundamentos são idênticos no sentido de colocar dinheiro diretamente nas mãos dos nossos cidadãos, para que possamos resolver os nossos próprios problemas, permanecer mais saudáveis e, nesse caso, alimentar nossas famílias”, afirmou.

Se algo é absolutamente óbvio sobre essa pandemia é que não podemos “resolver os nossos próprios problemas”. A hostilidade agressiva do libertarianismo à solidariedade pode ser menosprezada por Yang, alguém indubitavelmente decente, mas, mesmo assim, produz apenas uma compreensão muito empobrecida da solidariedade.

O ensino social católico exige mais: um entendimento de que o trabalho confere dignidade, não apenas um salário, e que os laços sociais não podem ser reduzidos a conceitos contratuais e baseados em direitos. O ensino católico nos ensina que é possível melhorar a dureza da nossa fusão hobbesiana de leis econômicas com leis naturais por meio de propostas como a de Yang, mas a nossa cristologia exige uma rejeição, não apenas uma melhoria dos efeitos nocivos, do nosso Weltanschauung laissez-faire, de estilo thatcheriano-reaganiano.

O Papa Francisco, citando a encíclica Novo Millennio Ineunte do seu antecessor São João Paulo II, nos lembra na Gaudete et exsultate: “O texto de Mateus 25, 35-36 não é um mero convite à caridade, mas uma página de cristologia que projeta um feixe de luz sobre o mistério de Cristo” [n. 96]. Nossa postura antilibertária não é uma mera conclusão ética: organizar a sociedade civil em torno da autonomia humana é criar um novo bezerro de ouro. A evidência é óbvia demais para exigir uma demonstração.

Infelizmente, algumas lideranças católicas também foram levadas à estultificação ideológica. Como observado ontem, Dom Joseph Strickland, bispo de Tyler, Texas, foi ao programa “The World Over”, da EWTN, apresentado por Raymond Arroyo, e explicou que a subsidiariedade é “a minha nova palavra para tudo isso”, preocupando-se com “essa mega-Igreja que controla tudo”, e “não foi isso que Cristo nos deu”.

Tendo dado um passo gigantesco na direção da eclesiologia congregacionalista, ele também se recusou a assinar uma declaração emitida pelos seus irmãos bispos do Texas sobre os escassos recursos da saúde. Em um post no site diocesano, ele invocou novamente a subsidiariedade: “O princípio de ordenamento social da subsidiariedade deve ser aplicado. Em suma, uma abordagem de ‘tamanho único’ não reconhece plenamente a necessidade de atender às necessidades de determinadas pessoas”. Oi?

Strickland parece estar operando a partir de uma má compreensão do princípio da subsidiariedade, comum entre católicos que frequentam o Instituto Napa, a Escola Busch de Negócios e Economia e outras sedes libertárias. A subsidiariedade recomenda a tomada de decisões no nível mais baixo possível da organização social, ao mesmo tempo no nível mais alto necessário. Ou seja, é uma via de mão dupla. Em uma emergência de saúde pública, as decisões locais não podem ser tomadas fora do contexto do todo, ou serão inúteis. O vírus não reconhece fronteiras locais. Além disso, em nosso sistema federal [dos EUA], apenas o governo nacional tem os recursos para enfrentar uma pandemia.

Talvez não deveria nos surpreender que, diante de uma situação sem precedentes e extremamente desafiadora, as pessoas vão buscar aquilo que elas conhecem e se apegar à sua ideologia como uma criança se apega ao seu cobertorzinho durante uma tempestade. Mas nós, cristãos, recebemos um exemplo diferente. “Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança”, o apóstolo Paulo nos diz. “Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança.”

Crises criam fissuras, limpam caminhos desgastados, subvertem formas estabelecidas de fazer as coisas. Elas criam aberturas através das quais surgem novas coisas maravilhosas e das quais também surgem novos males. É por estes que devemos comparecer na Sexta-Feira Santa.

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