Os escravos republicanos

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09 Mai 2018

Conheci David Serrano Blanquer em um encontro em Buenos Aires na casa da filósofa, poeta e familiar das vítimas da matança em Jedwabne, Laura Klein, onde nos reunimos junto a outros pensadores para refletir acerca dos fenômenos de extermínio e dos campos de concentração.

O artigo é de Federico Pavlovsky e introduz sua entrevista com David Serrano Blanquer, publicados no Página/12, 07-5-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

David chega quase três décadas obstinado em manter a memória, aquela frágil condição humana, treinada diante do horror. Está obcecado em deixar registros, áudios, escritos e imagens que testemunhem para sempre o que ocorreu.

Na cena final do filme israelita Há’Edut (2017, em português: O testamento, tradução livre), sobre as valas comuns na Shoá que seguem buscando e escavando na atualidade, um dos personagens ilumina: “Não estamos falando da história dos livros; isso é atual, pode acontecer em qualquer momento”.

Durante o franquismo, em um feito pouco conhecido, existiram em torno de cem campos de concentração, que seguiram o modelo alemão de Dachau, conhecido já em 1938. Em 1939, com a derrota republicana na Espanha, aproximadamente 400 mil republicanos se exilaram na França (militares, líderes políticos, educadores, famílias, etc.), muitos dos quais, com a invasão nazista em 1940, foram detidos nos campos de concentração alemães. Quinze mil foram fechados nos campos nazistas (Mauthausen, Dachau, Ravensbrück e Buchenwald principalmente) e se estima que apenas sobreviveu um quinto deles. Os espanhóis nos campos tinham um triângulo vermelho com um “S” e o número de preso. Os republicanos no campo nazista representavam um coletivo singular, provinham do âmbito militar e político ou associativo, com um alto nível de organização e não eram o objeto central da maquinaria de extermínio próprio da solução final, como se fosse o coletivo soviético ou judeu. Aos republicanos se utilizavam como mão de obra escrava e para tarefas administrativas. Um deles é o escritor Joaquín Amat-Piniella, autor da célebre novela, K.L Reich, que esteve preso durante quatro anos no campo de Mauthausen, localizado na Alta Áustria. Serrano Blanquer assinala que esse campo foi para os espanhóis republicanos o que foi Auschwitz para o povo judeu. Mauthausen representa o “núcleo do mal” para os republicanos (como Ravensbrück às mulheres republicanas) de onde ajudaram a construir seu próprio cárcere e deixaram a vida em uma pedreira de granito a qual se acessava por uma sinistra escada de 186 degraus. Os prisioneiros sob estrita vigilância dos kapos (prisioneiros que oficiavam como sádicos carcereiros em troca de algum favor das autoridades) subiam nas suas costas grandes pedaços de granito na tristemente célebre “escada da morte”. Morriam diariamente pela dinamite, pelo desprendimento de pedras ou pela ação de algum oficial das SS que empurravam prisioneiros ao vazio como passatempo. Inclusive jogavam um tipo de boliche humano. Os escravos que apenas mostravam algum sinal de enfermidade eram selecionados para serem aniquilados na enfermaria (com injeções de gasolina no coração, ou gaseados). Na nomenclatura do Terceiro Reich era um campo de concentração nível III, isto é, para os considerados irrecuperáveis, onde os presos deveriam trabalhar até a extenuação, até que deixassem de ser úteis para o trabalho, até a morte. Esse campo contava com dois diretores a serviço da destruição sistemática: Georg Ziereis e Hans Bachmayer, que trabalharam febrilmente para colaborar com um método massivo de eliminação que cumpria um objetivo triplo: sistemático, asséptico e industrial. É assim que na primavera de 1942, em Mauthausen, se desenvolveu uma das primeiras câmaras de gás do sistema concentracionário nazista. O cheiro doce proveniente dos fornos, invernos de 20 graus abaixo de zero, água com nabos e batatas com casca como comida principal, fragmentos da vida em Mauthausen.

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