Lideranças católicas exortam governos a proteger indígenas durante pandemia

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02 Abril 2020

Enquanto o coronavírus se espalha pela América do Sul, as lideranças da Igreja Católica pedem urgentemente que os governos protejam os povos indígenas.

A reportagem é de Barbara Fraser, publicada em Catholic News Service, 01-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Muitos povos indígenas, especialmente na bacia amazônica, vivem em áreas remotas e distantes de instalações médicas ou em moradias precárias às margens de áreas urbanas, muitas vezes sem serviço de água e esgoto.

“Estamos em uma situação que revela profundas desigualdades no país”, disse Ismael Vega, diretor do Centro Amazônico de Antropologia e Prática Aplicada, uma organização sem fins lucrativos que apoia a Igreja Católica na Amazônia peruana.

Os povos indígenas correm um risco particular, porque muitos vivem em comunidades remotas, onde as viagens de rio até o hospital mais próximo podem levar dias, disse Vega ao Catholic News Service. Algumas aldeias têm postos de saúde pequenos, mas atendidos por técnicos de enfermagem que não estão preparados para o surto de coronavírus e geralmente carecem de medicamentos básicos, disse.

A região nordeste de Loreto, no Peru, que possui uma grande população indígena nas cidades de Iquitos e Nauta, e em comunidades distantes acessíveis apenas por rio, registrou 58 dos mais de 1.000 casos de Covid-19 no Peru no dia 31 de março. Dois pacientes morreram, e sete precisavam de respiradores.

O hospital público tem apenas 16 leitos de terapia intensiva e já estava enfrentando um surto grave de dengue quando a Covid-19 eclodiu, disse Percy Minaya, diretor regional de saúde.

No Brasil, o Conselho Indigenista Missionário, da Igreja Católica, que trabalha com os povos da Amazônia, suspendeu suas atividades com as comunidades e incentivou os indígenas a permanecer em suas aldeias e a evitar a entrada de forasteiros, disse ao CNS o arcebispo Roque Paloschi, presidente do conselho.

“Se uma pessoa indígena for infectada, o vírus poderá se espalhar por toda a comunidade devido à falta de profissionais de saúde para controlar a situação”, afirmou.

Grupos indígenas em partes do Peru e do Brasil tomaram medidas para impedir que pessoas de fora entrem em suas comunidades, emitindo comunicados e parando veículos.

A maioria das comunidades amazônicas depende da água de córregos e de rios para beber e se lavar, disse Vega. Em muitos lugares, essas fontes estão poluídas, de modo que as pessoas não têm água potável nem água não potável para lavar as mãos, uma medida crucial para evitar o contágio, disse.

Tradicionalmente, uma comunidade atingida pela doença teria que se mudar para proteger seus membros. Há 30 ou 40 anos, isso poderia ajudar os membros da comunidade a sobreviver, disse Vega, mas a invasão pelas operações de mineração, extração de madeira e petróleo praticamente impossibilita isso agora.

A Covid-19 pode ter um impacto especialmente devastador se atingir áreas habitadas por povos indígenas seminômades que evitam o contato com forasteiros. Alguns são descendentes de povos que fugiam das doenças e dos abusos dos barões da borracha, madeireiros e outros forasteiros ao longo dos anos, segundo os antropólogos.

O maior número de indígenas isolados do mundo vive em pequenos grupos em florestas densas e remotas ao longo da fronteira entre o Brasil e o Peru, mas mesmo esses grupos dispersos estão em risco, disse Paloschi.

Territórios habitados por pessoas isoladas estão oficialmente fora dos limites para estrangeiros no Brasil, embora invasões de madeireiros, caçadores e garimpeiros não sejam incomuns. No dia 17 de março, o governo brasileiro emitiu um decreto que permitia que autoridades entrassem em território habitado por povos isolados durante a pandemia, se o trabalho deles fosse “essencial para a sobrevivência do grupo isolado”.

Paloschi teme que o decreto seja outro passo rumo a uma mudança na política oficial da agência para os assuntos indígenas do governo, na qual um ex-ministro evangélico agora chefia o escritório responsável por proteger os povos isolados e os de contato recente.

Lideranças de uma organização que representa sete tribos no Território Indígena Vale do Javari, onde ainda vivem muitos grupos isolados do Brasil, reclamaram às autoridades que um missionário de uma organização estadunidense entrou na reserva várias vezes sem permissão e está recrutando indígenas para uma expedição para contatar um grupo de povos isolados.

“Infelizmente, o governo está incentivando o contato”, disse Paloschi. “Esse é um grande risco. O governo deve proteger e respeitar a vontade soberana desses povos de viver sem contato.”

O governo está “ignorando as invasões, o desmatamento, a mineração e a invasão da agroindústria em áreas indígenas” que já foram oficialmente reconhecidas por lei, disse.

Uma dessas áreas fica perto da fronteira do Brasil com a Venezuela, onde estima-se que cerca de 20.000 pessoas trabalham em minas de ouro não regulamentadas em áreas habitadas por grupos seminômades, assim como em aldeias dos Yanomami.

Se os mineiros que viajam para dentro e fora da área infectarem indígenas com a Covid-19, a doença poderá devastar esses grupos, disse Esther Tello, codiretora do escritório diocesano da Cáritas em Boa Vista, Brasil.

Paloschi apelou ao governo brasileiro para que aumente as equipes, o financiamento e a infraestrutura para proteger a saúde dos povos indígenas do país. Sem cuidados de saúde adequados, os povos indígenas serão forçados a abandonar as suas aldeias, disse.

No Peru, Vega instou o governo a estabelecer mais postos de saúde da comunidade, a equipá-los com pessoal bem treinado, a mantê-los abastecidos com remédios e a se prepararem para evacuar os pacientes rapidamente por via aérea ou fluvial.

Além da fragilidade dos cuidados de saúde para os povos indígenas, a pandemia aponta para uma lição mais profunda, disse Vega.

“Estamos pagando as consequências de um modelo de desenvolvimento que é obcecado pelo crescimento econômico às custas de direitos importantes”, disse ele, “como o direito à saúde e à educação, e, no caso dos povos indígenas, o direito ao território e a um ambiente saudável”.

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