Ernesto Cardenal. Morreu um dos grandes poetas místicos da humanidade

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02 Março 2020

O pregador com austeras sandálias de pescador e boina preta, que escondia seus cabelos brancos e rebeldes, foi um dos grandes poetas místicos da humanidade. Desde uma estética da economia verbal que misturava as poéticas dos antigos latinos, dos indígenas pré-colombianos, dos chineses e japoneses – ademais do profundo sentimento bíblico dos Salmos e do Cântico dos Cânticos, sua palavra vai ao cerne para comunicar mais e melhor. “O que há em uma estrela? Nós mesmos. Todos os elementos de nosso corpo e do planeta estiveram nas entranhas de uma estrela. Somos pó de estrelas. Das estrelas somos e para elas voltaremos”. Vêm à mente esses versos da Cantiga 4 intitulada “Expansão” de Cântico Cósmico, de Ernesto Cardenal, o grande poeta e padre nicaraguense que morreu aos 95 anos em Manágua.

A reportagem é de Silvina Friera, publicada por Página/12, 02-03-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Cardenal foi ministro da Cultura da Revolução Sandinista e uma destacada voz da teologia da libertação, que será recordado por acreditar na revolução, no marxismo e no cristianismo contra o vento e a maré, uma espécie de suprema “heresia”, uma vez ratificada pela admoestação pública que recebeu do papa João Paulo II.

“A poesia tem sido minha vida. Sou poeta, padre e revolucionário, porém a primeira vocação com que nasci foi a poesia. Se algum impacto tem minha obra é por razões extraliterárias. Eu não sou grande como escritor, porém é grande a causa que inspira minha poesia: a causa dos pobres e da libertação”, resumiu Cardenal, sobre o sentido de sua existência que começou na cidade de Granada (Nicarágua), em 20 de janeiro de 1925. Uma influência capital para este padre e monge trapense comprometido com a libertação dos povos, sem dúvida, foi o descobrimento da poesia norte-americana e em particular o encontro com a obra de Ezra Pound, que Cardenal traduziu ao espanhol, depois de sua permanência em Nova Iorque, entre 1948 e 1949, como estudante da Universidad de Columbia. De Pound tomou um recurso que “consiste mais do que em uma colagem, mais que uma citação de um trecho poético, em uma redistribuição sábia da prosa do historiador ou do viajante até atingir um nível lírico ou épico.

Seus poemas são assim, belos e vastos documentos alheios cuja graça está nos cortes e junções”, apontou Pablo Antonio Cuadra. O próprio poeta, em uma conversa com Mario Benedetti, admitia a influência de Pound, que o fez ver que “não existem temas ou elementos que sejam próprios da prosa e outros que sejam próprios da poesia”. “Tudo o que se pode dizer em um conto ou em um ensaio ou em uma novela, pode ser dito também em um poema. Em um poema cabem dados estatísticos, fragmentos de cartas, editoriais de um jornal, notícias jornalísticas, crônicas de história, documentos, piadas, anedotas, coisas que antes eram consideradas como elementos próprios da prosa e não da poesia”.

Ao final da década de 1940 viajou por Paris, Espanha e Itália até que em 1950 regressou à Nicarágua e começou a escrever seus poemas, esses que por seu tom pausado inauguraram o que a crítica denominou “tendência neorromântica”. Seu mestre, o poeta nicaraguense José Coronel Urtecho (1906-1994), o ensinou “as técnicas de uma poesia de jornalista, escrita com imagens, não com metáforas, direta e concreta de coisas reais e a vida ordinária”, segundo confessou Cardenal.

Em 1954, participou do movimento conhecido com a “Rebelião de Abril”, que tentou acabar com a ditadura de Anastasio Somoza. Porém a tentativa fracassou e terminou com a morte de muitos de seus companheiros e amigos. O poeta decidiu ingressar na abadia trapense de Nossa Senhora de Getsemani (Kentucky, Estados Unidos) em 1957, onde Thomas Merton foi seu professor de noviços e mentor espiritual, embora por problemas de saúde Cardenal tenha saído do mosteiro e continuado seus estudos religiosos no Mosteiro Beneditino de Cuernavaca (México). “Seu trabalho poético – explicava Merton – foi bastante restrito no noviciado. Escreveu tão somente as notas mais simples e prosaicas de sua experiência, e não as desenvolveu em forma de ‘poemas’ conscientes. O resultado foi uma série de sketches com toda a pureza e refinamento que encontramos nos mestres chineses da dinastia Tang. Jamais a experiência da vida de noviciado em um mosteiro cisterciense havia se dado com tanta fidelidade e, ao mesmo tempo, com tanta reserva. Ele silencia, como deveria, os aspectos mais íntimos e pessoais de sua experiência contemplativa e, no entanto, essa se revela mais claramente na absoluta simplicidade e objetividade com que anota os detalhes exteriores e ordinários desta vida. Nenhuma retórica do misticismo, por muito abundante que fosse, poderia ter jamais apresentado tão exatamente a espiritualidade sem pretensões desta experiência monástica tão sumamente plena”.

Influenciado inicialmente por Rubén Darío, Pablo Neruda, Rafael Alberti e Federico García Lorca, passou do poeta lírico e subjetivista ao poeta solar, diáfano e de tom épico que impera em boa parte do conjunto de sua obra. Depois de ser ordenado padre em Manágua, em 1965, conectou e integrou a escrita e a militância religiosa-política. Em 1966, junto a Merton, fundou uma pequena comunidade contemplativa em uma ilha do arquipélago de Solentiname, onde se fomentou o desenvolvimento de cooperativas, criou-se uma escola de pintura primitiva e um movimento poético entre os camponeses, ademais do trabalho de conscientização sobre a base do Evangelho interpretado revolucionariamente. Em poesia, publicou Hora 0 (1957), Gethsemani Ky (1960), Epigramas (2001), Salmos (1964), Oración por Marilyn Monroe y otros poemas (1965), El estrecho dudoso (1966), Mayapán (1968), Homenaje a los indios (1969), Canto Nacional (1973), Oráculo sobre Managua (1973), Canto a un país que nace (1978), Tocar el cielo (1981), Vuelos de victoria (1984), Los ovnis de oro (1988) e Cántico cósmico (1989), entre outros títulos.

Lutador incansável contra a ditadura de Somoza, colaborou estreitamente com a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Em 19 de julho de 1979, o dia da vitória da Revolução Nicaraguense, foi nomeado ministro de Cultura do novo governo do FSLN, cargo que ocupou até 1987, ano em que o ministério foi fechado por razões econômicas. Em 1983, quando João Paulo II visitou oficialmente a Nicarágua, o pontífice – em frente às câmeras de televisão que transmitiam a todo o mundo – admoestou e repreendeu severamente o poeta e padre, ajoelhado diante dele na mesma pista do aeroporto, por propagar doutrinas apóstatas segundo a fé católica e por fazer parte do governo sandinista. Cardenal rompeu definitivamente com o FSLN em 1994, em protesto contra a direção autoritária de Daniel Ortega, e denunciou a corrupção e a apropriação de bens do Estado por parte dos líderes da ex-guerrilha. Posteriormente, manifestou seu apoio moral ao MRS (Movimento Renovador Sandinista), fundado pelo escritor Sergio Ramírez. “Chesterton dizia que o cristianismo não fracassou porque não se pôs em prática. Eu digo o mesmo do marxismo, não foi posto em prática. O cristianismo e marxismo se parecem nisso: são dois projetos que não é que tenham fracassado, mas sim que não foram realizados ainda. E eu sigo sendo cristão e marxista”, destacava o poeta nicaraguense. Não perdia a oportunidade de afirmar sua convicção revolucionária. “A revolução é o que nos fez humanos, toda a humanidade viveu de revolução em revolução, desde que começou a falar, que foi a revolução da linguagem, ou o descobrimento do fogo. Tudo o que a humanidade foi adquirindo foi por meio da revolução”.

O poeta foi reabilitado pelo papa Francisco em fevereiro de 2019, quando o informou do levantamento da suspensão ad divinis (proibição de administrar os sacramentos) que Karol Wojtyla havia lhe imposto em 1984. “Sinto-me identificado com este novo Papa. É melhor do que poderíamos ter sonhado”, reconheceu Cardenal.

Os prêmios resistiam a ele ou o faziam rogar bastante. Recentemente em 2009 ganhou o Prêmio Ibero-americano de Poesia Pablo Neruda, em reconhecimento a sua larga trajetória e obra poética, o primeiro que recebeu, quando até então se considerava “o poeta menos premiado da língua castelhana”. Em 2012, para atemperar essa sentença ou preconceito, outorgaram-lhe o Prêmio Reina Sofia. “Os que administram a literatura e a cultura não simpatizam muito com a linha da minha poesia. Minha poesia é uma poesia muito democrática, eu me esforço para escrever uma poesia que se entenda, uma poesia do povo. Isso parece que não atrai muito em certos círculos acadêmicos”, conjeturava Cardenal. A última vez que esteve na Argentina foi em setembro de 2013, quando o Ministério de Educação da Nação e a Editora Patria Grande – que publicou sua Poesia Completa em três tomos – fizeram-lhe uma homenagem. “Minha primeira recordação não é escrevendo, é fazendo um poema antes de poder escrever. O recitava de cabeça, creio que tinha uns seis anos. Assim começou a humanidade e assim também começou minha poesia na infância – recordava Cardenal ao Página/12 –. A novela é o épico atual. E por isso a novela é muito popular e a poesia não. Quase ninguém lê poesia e isso é culpa dos poetas, que escrevem uma poesia que não interessa. São herméticos e não se entende, nem é para entender, e, portanto, não é para interessar à população. Eu sempre quis fazer uma poesia que se compreendesse e que comunicasse”.

 

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