Bispo nicaraguense visita o padre Ernesto Cardenal, convalescente em um hospital de Manágua

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18 Fevereiro 2019

"Ajoelhei-me e pedi sua benção como sacerdote da Igreja católica; e ele aceitou, com alegria. Muito obrigado Ernesto!", tuitou o D. Silvio José Báez, bispo auxiliar de Manágua. O idoso poeta e sacerdote trapista Ernesto Cardenal, internado há vários dias em função de uma infecção renal, concedeu sua bênção ao bispo profeta da Nicarágua, a voz mais respeitável da Igreja deste país centro-americano. A reportagem é de Israel González Espinoza, publicada por Religión Digital, 16-02-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.


Monsenhor Silvio Báez recebe a bênção do padre e poeta Ernesto Cardenal Foto: Reprodução Twitter/@silviojbaez

Mais do que um sinal, parecia a cicatrização de uma ferida (entre as tantas abertas durante o pontificado de Karol Wojtyla contra a Igreja latino-americana fiel à causa dos pobres). Ainda na memória de grande parte dos nicaraguenses está a imagem severíssima do Papa polaco empunhando o dedo contra o sacerdote que, de joelhos no chão e sem a boina, pedia uma bênção e, ao invés disso, recebeu uma repreensão midiatizada até a exaustão.

Segundo um relato jornalístico do portal socialdemocrata Confidencial, o padre Ernesto Cardenal (Granada, 1925) está internado em um hospital privado da capital nicaraguense desde o último dia 4 de fevereiro; no que seria sua quinta internação em uma unidade hospitalar em menos de 14 meses, ainda que fosse a primeira em que não precisou ir para a Unidade de Cuidados Intensivos (UCI).

"Ernesto Cardenal, nosso soldado das palavras, nosso progressista astronauta em suas explorações do cosmos, o doce e também rabugento ser humano que fez de sua vida uma incessante busca pelo sentido do ser, da imensidão do universo, da justiça terrena", expressou em sua conta do Twitter a poetisa nicaraguense Gioconda Belli, amiga próxima do padre Cardenal.

No último dia 20 de janeiro, o autor de Cântico Cósmico e Oração por Marilyn Monroe celebrou seus 94 anos em Manágua, celebrado pelos seus e pelos múltiplos prêmios que acumula em seu currículo, tendo um lugar especial o prêmio Ibero-americano de Poesia “Reina Sofía”, de 2014.

"Ele está pronto para partir. Em seus 94 diz isso com frequência. Quem não está pronto somos nós. Espero que ainda não nos deixe", tuitou Belli.

Perseguido político de Ortega

Sempre coerente com seus ideais, Ernesto Cardenal é um crítico enérgico do regime orteguista desde 2009. Devido a suas constantes afirmações sobre a corrupção da administração de Daniel Ortega, este empreendeu vários processos judiciais por meio de terceiros para tirar do sacerdote várias propriedades que possui no arquipélago mítico de Solentiname, onde criou uma comunidade contemplativa entre as décadas de 1960 e 1970.

Em dezembro último, o sacerdote e poeta cedeu seu lugar na entrega do prêmio internacional de poesia Mario Benedetti” para que a mãe do jovem Álvaro Conrado, um rapaz de 15 anos assassinado em 20 de abril, durante o início da grave crise sociopolítica que assola o país centro-americano. Os organismos internacionais de direitos humanos comprovaram que o adolescente morreu em consequência do disparo de um franco-atirador que estava encima do telhado do Estádio Nacional.

"Os opositores de Ernesto Cardenal não perdoam sua vinculação à revolução. Ele comentou essa relação em 2012, quando o entrevistei a propósito do Prêmio Reina Sofía. ‘Fui poeta, sacerdote e revolucionário. Usei a poesia para levar minha mensagem social, revolucionária'", pontuou o jornalista Carlos Salinas Maldonado, correspondente do El País em Manágua - e atualmente radicado na Cidade do México devido à sua condição de exilado político do regime orteguista.

Para Salinas, a situação de Cardenal é um fato que deve comover não só o meio intelectual nicaraguense, mas toda a sociedade e inclusive a Igreja, da qual Cardenal – apesar de tudo -, não deixou de pertencer mesmo com seus desencontros com a hierarquia católica nos anos 80. No entanto, hoje pesa sobre o veterano poeta a suspensão a divinis imposta por João Paulo II em 1984; a mesma que já havia sido levantada pelo Papa Francisco a outros sacerdotes que participaram na revolução, como seu irmão jesuíta Fernando e o ex-ministro das relações exteriores, Miguel D'Escoto Brockmann.

"Não é qualquer voz que pode nos apagar: Quem não se apaixonou pelos 'Epigramas', se comoveu com seus 'Salmos', se sentiu indignado e combativo com seu Canto Nacional ou amado a luta pela soberania de Hora Zero ou tenha se deslumbrado com seu canto ao universo, não sabe o que perdeu", insistiu o jornalista, na rede social Twitter.

Para Salinas, os resquícios novamente aflorados em alguns seguidores mais ultraconservadores do catolicismo nicaraguense, que nunca perdoaram que o poeta e sacerdote tenha abraçado a causa da revolução popular de 1979 contra a ditadura de Anastasio Somoza Debayle, foram, sobretudo, instigados pelo ex-arcebispo de Manágua, Miguel Obando, que no final de sua carreira eclesiástica terminou sendo aliado de Daniel Ortega e de seu regime.

"Gostaria que isto (críticas de católicos conservadores contra Cardenal) fosse uma piada de mau gosto. Ernesto Cardenal é quem professou o amor cristão, amou a seu próximo, lutou, como Cristo, pela justiça. Os seguidores de Karol Wojtyła o crucificam. Esse é o 'amor cristão' que aprenderam de João Paulo II. Não surpreende", finaliza Salinas.

No entanto, são outros tempos. Um jesuíta está sentado na cadeira de Pedro. Um Papa que se encarregou de reabilitar outros sacerdotes antes demonizados nos anos do inverno eclesial, como D. Oscar Romero ou Samuel Ruiz. E hoje, é possível que um bispo nicaraguense em atividade peça a bênção ao poeta, ajoelhando-se na cama para recebê-la.

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