O ‘Piroceno’ chegou e agora?

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21 Janeiro 2020

"Os incêndios na Austrália são o alerta mais contundente do aquecimento global na atualidade", escreve Sucena Shkrada Resk, jornalista formada pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional pela FESPSP e autora do Blog Cidadãos do Mundo, em artigo publicado por Blog Cidadãos do Mundo, 16-01-2020.

Eis o artigo.

Nem nos longas-metragens mais dramáticos, poderíamos imaginar o roteiro da vida real de incêndios florestais que atingem com mais intensidade até agora especialmente a Austrália, desde setembro de 2019, com um efeito devastador nunca antes visto: mais de 11,8 milhões de hectares e 3 mil casas destruídos e mais de meio bilhão de exemplares de fauna mortos e 28 vítimas humanas fatais. Cenas dantescas chocam o mundo, mas será que têm o poder de mudar o rumo mais grave que teremos de enfrentar diante da inação ao combate às mudanças climáticas e ao aquecimento global?

Uma combinação de fatores torna a situação complexa: um governo negacionista quanto ao comprometimento das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs) por combustíveis fósseis, como o carvão; temperaturas que só aumentam; secas extremas; ventos fortes; dificuldades de acesso e origens do fogo naturais e criminosas. A intensidade e os comprometimentos são cada vez maiores e mais rápidos. O que estamos vendo é um do exemplos mais catastróficos da Era do Fogo (florestal) ou Piroceno, termo criado pelo historiador norte-americano Stephen Pyne, professor emérito da Universidade Estadual do Arizona, que é um estudioso deste tema. Ele é o autor do recente título “Fire: a brief history” (Fogo: uma breve história).

O que Pyne observa é que de uma forma direta ou indireta o ser humano está por trás destes focos de incêndio, o que tem como premissa o chamado Antropoceno.

Os danos são incalculáveis e atingem ecossistemas, a saúde e a economia. A Agência Espacial Americana (Nasa) informa que a fumaça da Austrália dará, pelo menos, uma volta pelo mundo, na estratosfera. Por sinal, já passou pelo Chile, pela Argentina e pelo Brasil e completou metade desta trajetória. Por onde passa deixa rastros de fuligens e altera a qualidade do ar.

A vulnerabilidade exposta demonstra que o que acontece na Austrália é, sim, uma preocupação de ordem global. Nem todo o aparato com aviões, por terra, com mais de 4000 bombeiros, brigadistas e integrantes da Marinha e da Aeronáutica estão conseguindo dissipar o fogo. A população se vê em uma encruzilhada, tendo de evacuar as áreas atingidas, como em um front de guerra. Decisões governamentais polêmicas de exterminar por volta de 10 mil camelos entre outros animais também se somam neste caos instalado.

A Austrália tem uma predominância de fonte energética baseada no carvão e o seu sistema de precaução e mitigação praticamente inexistem. O governo foi extremamente criticado pela própria população, em manifestação que ocorreu na semana passada. O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, está sofrendo pressão de sair do governo por menosprezar os registros desde o início dos focos de incêndio e chegou a tirar férias no Havaí, enquanto o país estava em chamas. Agora, faz anúncios de liberação de cifras bilionárias de verbas para o combate ao incêndio que já se alastrou. Isso sem falar no que se perdeu de vidas e, de forma geral, no ecossistema, quando se fizer um rescaldo.

A Agência Federal de Ciência da Austrália chegou a emitir um relatório, no ano de 2007, que apontava para cenários mais intensos de incêndios no país em 2020. Um relatório de 2007 da Agência Federal de Ciência da Austrália previu que incêndios mais intensos ocorreriam partir de 2020, segundo Tim Curran, professor de ecologia da Lincoln University, na Nova Zelândia.

Neste cenário praticamente apocalíptico, cenas de salvamento e união são o que causam empatia. Mas a proporção da destruição é incalculável. Nestes respiros, saber que estão sendo salvas espécies raras pré-históricas, como as araucárias de Wollemi (Wollemia nobilis), as chamadas árvores dinossauros é algo positivo mas ao mesmo tempo pensar em quantos animais sucumbiram sem chance de se salvar é algo desolador.

O exemplo da Austrália é um alerta real para todo o planeta de que a tendência é que estes eventos extremos se tornem cada vez mais intensos e devastadores por causa da falta de comprometimento de governantes com a complacência da sociedade com os modelos de desenvolvimento predatórios que comprometem os rumos da humanidade. O Piroceno chegou!

 

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