O antropocentrismo moderno contaminou o cristianismo. Artigo de François Euvé

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08 Janeiro 2020

Contra toda atitude de superioridade, o papa encoraja o encontro, o diálogo, um conhecimento do outro (tanto humano quanto “natural”) que supere as aparências ou o “bem conhecido”.

A opinião é do físico e teólogo jesuíta francês François Euvé, professor da cátedra Teilhard de Chardin do Centro Sèvres. O artigo foi publicado em Le Monde, 26-12-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Sínodo sobre a Amazônia, que foi realizado em Roma em outubro, confirmou o compromisso da Igreja Católica com uma nova relação com a terra, à altura da sensibilidade ecológica atual, consciente dos impasses do modelo tecnicista e neoliberal. Tal compromisso já havia sido bem afirmado na encíclica Laudato si’, do Papa Francisco, publicada em junho de 2015.

Enquanto a COP-25 manifestou mais uma vez a reticência das grandes potências em se comprometerem com uma verdadeira transição, a autoridade moral da Igreja, embora atacada em outros âmbitos, poderia desempenhar um papel significativo junto à opinião pública e aos tomadores de decisão.

Na sua encíclica, o papa denunciava a inação das instâncias políticas. A predominância dos interesses particulares sobre o bem comum se traduz em uma “submissão da política à tecnologia e à finança” (n. 54). Soma-se a isso o fato de que os centros de poder, ao se encontrarem “em áreas urbanas isoladas”, não têm “contato direto com os problemas dos excluídos” (n. 49).

A Amazônia não foi escolhida por acaso. É uma região do mundo particularmente sensível, tanto do ponto de vista ecológico (um terço da biodiversidade do mundo, um quinto da água doce da superfície do planeta, sem falar da sua função de “pulmão” do planeta), quanto do ponto de vista social, pelos inúmeros abusos cometidos contra os povos que lá vivem. “O clamor da Terra” lá ressoa junto com “o clamor dos pobres” (Laudato si’, n. 49).

O novo poder brasileiro entendeu isso. O presidente Bolsonaro, que havia denunciado o caráter “político” do Sínodo, vendo nele uma violação da “segurança nacional”, não deixa de atacar os bispos brasileiros quando defendem a floresta e os povos autóctones.

O Sínodo encorajou a implementação de rituais litúrgicos inspirados nos cultos tradicionais dessas regiões. Em particular, para honrar a “terra mãe” (Pachamama). Para expressar isso, cinco estatuetas representando uma jovem mulher grávida, símbolo de fecundidade, foram expostas em uma igreja perto do Vaticano. Isso não agradou a todo mundo. Elas foram jogados no Tibre por um jovem militante austríaco que queria denunciar um “sacrilégio pagão”, para a grande alegria dos grupos conservadores norte-americanos que não cessam de denunciar o compromisso do Papa Francisco em favor da ecologia como uma heresia “neopagã”.

Estátuas amazônicas | Foto: National Catholic Reporter

Esse incidente não perturbou os participantes do Sínodo, onde as mulheres, aliás, eram mais numerosas do que de costume. O compromisso em favor da terra é acompanhado por uma denúncia dos crimes cometidos contra ela. Falou-se depecado ecológico, para dizer que toda culpa contra a natureza é culpa contra Deus. A terra não se torna “sacralizada” como tal, mas é preciso respeitá-la, porque somos dependentes dela. A solidariedade inter-humana, que é um componente essencial do discurso social da Igreja (e que deveria ser intrínseca à sua prática) se estende às outras criaturas na sua diversidade.

Esse compromisso se desenvolve, como atestam diversas iniciativas (por exemplo, a marca “Igreja verde” na França). E se beneficiaria ao se basear em uma “teologia da terra” mais elaborada.

O antropocentrismo moderno contaminou o cristianismo. Ele se associa a uma atávica desconfiança em relação a todas as formas de paganismo. A título de exemplo, seria preciso desenvolver uma teologia animal, ainda muito embrionária. Dos Padres do deserto egípcio do século IV, passando por Francisco de Assis, as grandes figuras espirituais foram muito sensíveis a isso. No seu Cântico das criaturas, o santo padroeiro dos ecologistas havia definido a terra como “mãe”. Ele instaurava uma relação de fraternidade, isto é, uma relação ética com todos os componentes do universo. Mas uma teologia racionalista demais veio apoiar a atitude tecnicista de exploração da natureza.

O compromisso ecológico se une à luta contra o clericalismo, do qual se constatam cada vez mais as consequências nefastas em matéria de abusos. Nada mais é do que uma cultura do “grupo fechado”, que torna as pessoas surdas ao “clamor do mundo”, insensíveis às situações de necessidade, sejam elas humanas ou não. Pode-se ver uma convergência entre o domínio sobre as pessoas (particularmente as vulneráveis) e o domínio sobre a natureza. Um desejo de domínio, a “libido dominandi”, já denunciada por Santo Agostinho, faz do outro um objeto à disposição.

O que está em jogo, portanto, é a capacidade de se descentralizar e de se abrir ao outro. Contra toda atitude de superioridade, o papa encoraja o encontro, o diálogo, um conhecimento do outro (tanto humano quanto “natural”) que supere as aparências ou o “bem conhecido”. Comprometendo-se com esse caminho de abertura, a palavra da Igreja poderia reencontrar uma credibilidade que um clericalismo ainda muito presente a fez perder.

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