De Bolsonaro à direita curial, os inimigos do Sínodo Amazônico

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07 Outubro 2019

O governo brasileiro de Jair Bolsonaro chegou a sugerir um contra-sínodo nos mesmos dias em que Roma, de 6 a 27 de outubro, se celebrará o Sínodo sobre a Amazônia. Mas o leque de inimigos da assembleia convocada pelo Papa Francisco é amplo, da direita curial às multinacionais que extraem matérias-primas na floresta tropical, dos conservadores que temem rachaduras no muro da doutrina que poderiam causar o colapso de todo o edifício aos reacionários que se mobilizam contra um evento que eles consideram de viés paganista.

A reportagem é publicada por Askanews, 04-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Na Cúria Romana expressaram suas reservas, com diferentes tons e matizes, vários cardeais. O alemão Walter Brandmueller chegou a falar em "heresia" e "apostasia" no documento preparatório e a se perguntar: "É preciso se perguntar: o que ecologia, economia e política têm a ver com o mandato e a missão da Igreja?", escreveu em um texto amplamente repercutido pelos jornais e blogs que nunca suportaram este Papa. Uma pergunta à qual, na realidade, outro Papa poderia responder, o emérito Bento XVI: que, como revelou a jornalista Maria Antonietta Calabrò no Huffington Post, já dez anos atrás, em resposta às objeções encaminhadas por "sua" congregação para a Doutrina da Fé, explicava, em preparação da encíclica Caritas in veritate, por que um Pontífice precisa tratar de ecologia.

O sucessor de Bento XVI no ex-Santo Ofício, cardeal Gerhard Ludwig Müeller, provavelmente não pensava como ele, e nos últimos meses concedeu repetidas entrevistas para dar voz à preocupação de que a assembleia pan-amazônica seja "um pretexto para mudar a igreja".

Mais moderado, também o cardeal Marc Ouellet, canadense, prefeito da congregação para os bispos, também quebrou o silêncio alguns dias antes do Sínodo e convocou uma conferência de imprensa para apresentar seu livro sobre a ordem sagrada e se dizer publicamente "cético" em relação à hipótese de que o Sínodo dê abertura à ordenação de homens casados. Mais pirotécnicos, o cardeal estadunidense Raymond Leo Burke e o bispo cazaque Athanasius Schneider, desde sempre vozes expoentes da áreas ultraconservadora da Igreja católica, chegaram a lançar uma “cruzada de oração e jejum" contra as supostas "heresias” do Sínodo sobre a Amazônia. Em um documento de oito páginas, também repercutido por blogs e jornais reacionários, os dois homens da Igreja afirmam que o documento sinodal de trabalho, o Instrumentum laboris, conteria seis "graves erros e heresias teológicas" e, por isso, chamam de fiéis à oração e ao jejum, para que não sejam aprovados pela assembleia. Os supostos seis "erros ou heresias" são os seguintes: o implícito panteísmo, as superstições pagãs como fonte da revelação divina e caminho alternativo para a salvação, o diálogo intercultural em vez da evangelização, uma concepção errônea da ordenação sacramental que postula que ministros de ambos os sexos possam conduzir rituais até mesmo xamânicos, uma "ecologia integral" que diminui a dignidade humana e, finalmente, um coletivismo tribal que mina a singularidade e a liberdade pessoal. Segundo Burke e Schneider, que assinaram o texto em 12 de setembro, dia do santíssimo nome de Maria, os erros e as heresias “implícitas e explícitas" no Instrumentum laboris "são uma manifestação alarmante da confusão, do erro e da divisão que ameaça a Igreja hoje" e "cada católico, como verdadeiro soldado de Cristo, é chamado a salvaguardar e promover as verdades da fé e a disciplina com que essas verdades são honradas na prática, para que a solene assembleia dos bispos no sínodo não traia a missão do Sínodo".

O cardeal dos EUA e o bispo cazaque invocam "os muitos missionários católicos que evangelizaram os povos indígenas americanos", os santos indígenas e a Virgem Maria, "que dissolvam toda heresia", para que os padres sinodais e o Papa Francisco "sejam protegidos do perigo de aprovar erros doutrinais e ambiguidades e comprometam a norma apostólica do celibato sacerdotal ".

E se Jair Bolsonaro acelera a exploração de recursos e o ataque aos direitos dos indígenas da Amazônia ("O inimigo da floresta", assim o define o último número de Nuova Ecologia, que também apresenta um amplo estudo sobre o Sínodo do Papa Francisco), para lançar o alarme contra a assembleia se movimentou por último um arquipélago que responde ao filósofo, político e jornalista católico brasileiro Plinio Correa de Oliveira ( 1908-1995). Visceralmente hostil ao Concílio Vaticano II ("um momento da história tão triste quanto a morte de Jesus", assim o definiu), há muito tempo em contato com o monsenhor Marcel Lefebvre, em 1960 fundou a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição da Família e da Propriedade (ou, mais sinteticamente, TFP) para defender precisamente os ideais da tradição, da família e da propriedade de toda forma de socialismo e comunismo na sociedade e na Igreja. Sua discordância da conferência episcopal brasileira, nos anos da teologia da libertação, era total e o episcopado retribuía, chegando a reprovar publicamente seu movimento. Com sua morte, Monsenhor João Scognamiglio Cla Dias fundou uma associação distinta, os Arautos do Evangelho, que em 2001 passaram a ser reconhecidos pela Santa Sé e que sofreram intervenção por vários abusos pelo Vaticano na semana passada. Entretanto, a TFP continuou suas atividades. Com posições ultraconservadoras e simpatias trumpianas, hoje está na linha de frente das críticas, às vezes virulentas, do próximo Sínodo sobre a Amazônia. São a TFP, juntamente com o Instituto Plinio Correa de Oliveira (Ipco), que organizaram o mais odioso site sobre o Sínodo Pan-Amazônico, o "Pan-Amazon Synod Watch", que registra toda contestação à iniciativa organizada pelo Papa. O diretor do escritório romano, Juan Miguel Montes, deu recentemente uma entrevista ao jornal La Verità, intitulada "O Sínodo Amazônico diminui o Evangelho". E no sábado, véspera da abertura do Sínodo, o Instituto Plinio Correa de Oliveira está organizando uma conferência internacional em Roma intitulada "Amazônia: a aposta em jogo". Dentre os temas, Roberto de Mattei, presidente da Fundação Lepanto, fará uma reflexão assim intitulada: "Os documentos preparatórios do Sínodo abrem caminho para uma relação panteísta homem-natureza e para uma religião neopagã".

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