“Nuestro senderito!”. O encontro do Papa com os jesuítas da Tailândia e do Japão

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Francisco e as uniões homossexuais

    LER MAIS
  • “A dignidade é a resposta popular ao cinismo aberto dos que estão no poder”. Entrevista com Slavoj Žižek

    LER MAIS
  • Dom Paulo Cezar Costa, novo Arcebispo de Brasília. Nota da Comissão Justiça e Paz de Brasília

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


06 Dezembro 2019

Durante sua viagem apostólica à Tailândia e Japão, o papa Francisco saudou a um grupo de 4 jesuítas provenientes da área do Sudeste Asiático. No encontro manteve com eles uma conversa de meia-hora. Depois do seu encontro com os bispos da Conferência Episcopal da Tailândia e da Federação das Conferências Episcopais Asiáticas no santuário do beato Nicolás Bunkerd Kitbamrung, Francisco se deslocou à uma sala contígua onde era esperado pelos religiosos. Foi recebido pelo padre Augustinus Sugiyo Pitoyo, superior da região da Tailândia, composta por 33 jesuítas (17 padres, 14 estudantes em formação, um irmão coadjutor e um noviço). Participou também do encontro dom Enrique Figaredo Alvargonzález, jesuíta espanhol, prefeito apostólico de Battambang, no Camboja.

A reportagem é de Antonio Spadaro, s.j., publicada por La Civiltà Cattolica, 04-12-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Ao entrar na sala, o Papa quis saudar a todos os presentes, um por um, e depois lhes disse:

"Bom dia. É um prazer cumprimentá-los. Quantos jovens! Me alegro por ver a média de idade, é uma promessa de futuro! Me disseram que temos pouco tempo, assim me façam perguntas rápidas".

No contexto asiático existem muitas situações de tensão e sofrimento. Poderíamos fazer o elenco. Minha pergunta é: como se faz para equilibrar, por outra, usar dessa prudência necessária que muitas vezes sugere melhor calar por bem maior, ou para não complicar mais as situações?

Não há uma receita para isso. Existem os grandes princípios de referência, porém depois o que cada um tem de fazer é mais que um caminho, é um senderito (um pequeno caminho, uma pequena trilha). Um senderito que tem que ser descoberto a cada dia na oração e no discernimento das situações concretas. Não há regras fixas. O caminho se abre caminhando com pensamentos abertos e não com princípios abstratos de diplomacia. É preciso ver os sinais e discernir o caminho a se tomar. Nisso é importante se deixar guiar pelo Senhor. Às vezes, essas trilhas funcionam mais que as autopistas, esses caminhos que são periféricos, porém que te fazem chegar à meta. Não são rígidos, grandes, evidentes, porém são eficazes.

Para nós jesuítas, em particular, nos é pedido que abramos os olhos à nossa realidade, que nos ponhamos diante do Senhor com essa realidade e rezemos para encontrar nosso senderito. Às vezes, em troca, quando queremos que tudo esteja bem organizado, preciso, rígido, definido de modo sempre igual, então nos convertemos em pagãos disfarçados de sacerdotes. Creio que Jesus falou claramente da hipocrisia farisaica em respeito a isso.

Temos que fazer nosso senderito através da oração, da contemplação da realidade, do discernimento e da ação. E, claro, através do compromisso e da coragem. Ao nos comprometermos, entendemos as coisas. Necessita-se, portanto, da virtude da prudência, que é também uma virtude de governo. Porém é preciso estarmos atentos! Não se pode confundir a prudência com o simples equilíbrio. Os prudentes do equilíbrio, com sua falta de compromisso, sempre terminam lavando as mãos. Seu patrono é “são” Pilatos.

Como a sua encíclica Laudato Sí está sendo recebida na Igreja e no mundo?

Antes do encontro da COP21, de dezembro de 2015, em Paris, havia muitas expectativas. Ali foi feito um grande esforço para favorecer o encontro de líderes mundiais a fim de buscar novos caminhos para enfrentar as mudanças climáticas e salvaguardar o bem-estar da terra, nossa casa comum. Esse encontro de Paris foi verdadeiramente um passo adiante.

Porém depois começaram os conflitos, os compromissos entre o abordado em Paris e o “bolso” de alguns países. E assim, alguns foram se retirando. Porém hoje o povo é muito mais consciente que antes a respeito do cuidado da casa comum e da importância que isso tem.

Surgiram muitos movimentos, especialmente os animados por jovens. Esse é o caminho que precisa transitar. Hoje são os jovens os que entendem com o coração que a sobrevivência do planeta é um tema fundamental. Eles compreendem bem, com o coração, a Laudato Si’. Creio que isso é toda uma promessa. “O futuro é nosso”, dizem. Há que seguir trabalhando para que a mensagem da Laudato Si’ seja compartilhada a nível mundial. A encíclica está escrita para ser compartilhada amplamente. O que afirma hoje já é assumido por muitos. E sem pagar direitos autorais! Isso é muito bom. É uma mensagem que pertence a todos.

Trabalho no SJR, O Serviço Jesuíta a Refugiados. Aqui na Tailândia há muitos refugiados e não nos faltam problemas. Como viver esse ministério da acolhida?

Para os jesuítas o trabalho com refugiados se transformou em um verdadeiro “lugar teológico”. E eu considero assim: um lugar teológico. Esse foi o testamento do padre Pedro Arrupe, que precisamente aqui na Tailândia em sua última alocução reafirmou a importância dessa missão. Para mim, o padre Arrupe foi um profeta: seu “canto do cisne” foi a fundação precisamente aqui, em Bangkok, do Serviço Jesuíta a Refugiados. Depois, durante o voo da Tailândia a Roma, sofreu um acidente vascular cerebral.

Sempre houve refugiados no mundo, porém hoje em dia o fenômeno é mais conhecido devido as diferenças sociais, à fome, às tensões sociais e, sobretudo, à guerra. Por esse motivo, os movimentos migratórios se intensificam. Qual é a resposta que o mundo dá? A política do descarte. Os refugiados são material de descarte. O Mediterrâneo se transformou em um cemitério. A impressionante crueldade de alguns centros de detenção na Líbia toca meu coração. Aqui na Ásia, todos conhecemos o problema dos rohingyas. Devo reconhecer que certas narrativas sobre as fronteiras que escuto na Europa me escandalizam. O populismo está tomando força. Por outra parte, há muros que separam inclusive aos filhos de seus pais. Vem à minha mente a figura de Herodes. E para a droga, por outro lado, não há muros que resistam.

Como te dizia, o fenômeno migratório está muito acentuado pela guerra, pela fome e por uma “filosofia da defesa” que faz crer que somente com o medo e reforçando as fronteiras é possível se defender. Por outra parte, está o tráfico de seres humanos. Sabemos bem quanto a Igreja trabalha para salvar as jovens da prostituição e de tantas formas de escravidão. Quantas religiosas trabalham nesse campo! A tradição cristã tem uma rica experiência evangélica em afrontar o problema dos refugiados. Recordemos a importância de dar acolhida ao estrangeiro, com nos ensina o Antigo Testamento. Porém, há também tantos pequenos costumes populares de acolhida, como a de deixar uma cadeira vazia em um dia de festa, para caso algum hóspede inesperado bater à porta. Se a Igreja é um hospital de campanha, um dos campos onde há mais feridos é precisamente este. São estes os hospitais que mais precisamos frequentar.

Voltando ao “lugar teológico”: o testamento do padre Arrupe deu um grande impulso ao trabalho com os refugiados, e o fez pedindo sobre tudo uma coisa: a oração, mais oração. Devemos recordá-lo sempre: a oração. É como dizer-lhes: nessa periferia física, não se esqueçam desta outra, a espiritual. Porque somente na oração vamos encontrar a força e a inspiração para nos metermos nessas “bagunças” da injustiça social.

Nas comunidades existem católicos divorciados e que voltaram a casar. Como se comportar pastoralmente com eles?

Posso te responder de duas maneiras: de uma maneira casuística, que não é cristã, ainda que possa ser eclesiástica; ou, como diz o Magistério da Igreja, em Amoris Laetitia, no capítulo oitavo: fazendo um caminho de acompanhamento e discernimento para encontrar as soluções. E isso não tem nada a ver com a moral da situação, mas sim com a grande tradição moral da Igreja.

Porém vejo que o tempo terminou. Uma última e breve pergunta...

O que você mais gosta na Igreja na Tailândia e como podemos trabalhar para fazê-la melhor?

Te conto um fato: há alguns meses tive uma experiência muito linda. Veio a Roma um missionário francês que trabalha no norte do país. Há quarenta anos que é missionário lá. Veio a Roma com vinte paroquianos que ele mesmo havia batizado. Pode batizar também os filhos daqueles primeiros batizados: as pessoas lá se casam muito jovens, e ele foi o primeiro evangelizador naquela zona. Pois bem, sonho com uma Igreja jovem, muito próxima do povo, arejada.

Certamente, conheço bem e me preocupam os problemas que precisam enfrentar como, por exemplo, a exploração ligada ao turismo sexual. Vocês, jovens jesuítas, devem fazer tudo que for possível para elevar o nível social do povo. Trabalhem pelo bem de seu país e pela dignidade do povo!

É preciso seguir! Lamento que nossa conversa tenha sido tão breve. Obrigado pelo que fazem! Deus lhes abençoe! Rezem por mim!

Depois da benção, dos cumprimentos e da entrega de alguns presentes, o encontro foi concluído com uma foto grupal.

***

Em sua viagem ao Japão, o papa Francisco dedicou a última jornada, em 26 de novembro, para visitar a Sophia University, de Tóquio, dirigida pela Companhia de Jesus [2]. Antes de falar aos estudantes e ao corpo acadêmico no Auditório, o Papa celebrou a Missa com os jesuítas da comunidade e depois tomou café da manhã com eles. Durante a celebração da eucaristia pronunciou uma homilia que transcrevemos aqui. A missa e o evangelho lido (Lc 9, 57-62) foram os da memória de São João Berchmans, jesuíta.

O texto de Lucas fala simplesmente de três encontros com o Senhor. Encontros no presente. Os três homens que se encontram com Jesus sentem desejo de estar com ele. O encontro de Jesus conosco sempre suscita desejo. Nos unge para sermos homens de desejos: homens que escutam Jesus pregar e desejam estar com ele, comprometendo inclusive a própria vida com ele.

E no momento do encontro com Jesus pode se sentir o desejo, mas talvez não avalie bem os requisitos que esse desejo carrega. Porém é um desejo generoso. O primeiro dos três homens, por exemplo, diz-lhe: “Seguir-te-ei aonde quer que vás” “Eu quero estar contigo”. O segundo “Quero te seguir”. O terceiro “Quero te seguir”. Porém o segundo e o terceiro colocam uma condição. Querem deixar tudo em ordem. Querem, de alguma maneira, olhar para trás para deixar tudo em ordem. E o Senhor condena esse olhar para trás. Não, assim não. Não voltes à morte. Não olhes para trás.

Porém aqui convém não nos equivocarmos: porque uma coisa é querer manejar o passado e outra coisa é ter memória do passado. O verdadeiro desejo de estar com o Senhor também tem uma memória, tem que ser um desejo memorável. Um desejo que não é condição, mas que é memória de todo um caminho andado, memória de tanta misericórdia de Deus com cada um de nós.

Aqueles de nós, que o Senhor chamou e permitiu que caminhássemos com ele pelo caminho da vida, pede-nos para não perdermos a memória. A memória de onde ele nos levou - cada um de nós. O encontro com Jesus está sempre grávido de memória. Quando alguém perde a memória de onde veio, perde a capacidade de fidelidade. E ele se torna o juiz dos outros. O Senhor já no Antigo Testamento disse a Davi: “Eu te tirei de trás do rebanho”, não se esqueça. Paulo diz a seu discípulo Timóteo: “Não esqueça sua mãe e sua avó”, isto é, seu caminho. O encontro de cada dia, como jesuítas, quando conversamos com ele, deve ser carregado de memória, de agradecimento. Uma lembrança como a do leproso samaritano que deixa os outros nove e volta a dizer a Jesus: “Você tirou-me daqui, curou-me disso, escolheu-me assim”.

O primeiro desses três homens parece não estar interessado no passado, olha para o futuro. Com sua generosidade, ele diz: "Olha, eu vou segui-lo onde quer que você vá, eu não estabeleço condições, eu sigo você". Talvez Jesus veja que ele idealiza um pouco o caminho do evangelho e o coloca em realidade, ou como, dizemos em minha terra, "ele o abaixa com um estilingue", ou seja, ele faz cair no chão dizendo a ele: "As raposas têm tocas, os pássaros têm um ninho, mas o Filho do homem não tem onde descansar a cabeça". O encontro com Jesus e o desejo de servi-lo não precisam ser apenas memoráveis, mas realistas, concretos. Com o que acontece na vida, pobreza, fracasso, humilhação, nossos pecados, tudo. O desejo deve ser concreto. Jesus nunca, nunca nos tira da realidade. Da realidade da memória e da realidade do presente.

E o que acontece com o coração de um homem ou mulher que diz sim a Jesus, sabendo que tudo pode acontecer com ele, mesmo um fracasso no presente, e com a lembrança de seu passado? O que houve? Acontece que ele experimenta paz e alegria. E esse é o futuro. Paulo aos filipenses, a quem ele tinha em seu coração - eles eram os favoritos - diz: "Sempre se alegrem no Senhor". Alegra-te sempre. Alegrai-vos porque o Senhor está perto de cada um de vocês. Não se preocupe com nada. Viva em ação de graças. E a paz de Deus que vencer todo julgamento será a que guardará seus corações. Este é o seguinte de Jesus, que nos propõe o evangelho hoje. Um presente concreto, com nossa realidade concreta, sem disfarçar sucessos ou fracassos: concreto. Um acompanhamento que é concreto no presente e lembra o passado. Um acompanhamento que se abre para grandes desejos de alegria, paz e conforto que é a nossa força.

Que Jesus nos acompanhe como somos seus companheiros neste caminho de acompanhamento. Não vamos perder a memória de tudo o que ele fez conosco, com cada um de nós. Não vamos perder a alegria do consolo contínuo e a paz do coração no futuro. E tenhamos um coração aberto para as condições que estamos colocando no presente de cada dia, para que nossa fidelidade seja melhor forjada. E não tenhamos medo de dormir ao ar livre: os animais têm uma caverna e, em vez disso, às vezes não sabemos onde nos abrigar, mas não tenhamos medo. Vamos ficar livres da tentação de querer voltar para dizer adeus aos mortos. O mundo dos mortos já está enterrado, os pedaços mortos de nossa vida são enterrados pela misericórdia de Deus. E não vamos fechar as janelas! Vamos abri-las para olhar o horizonte com paz, com alegria, fazendo o que cada um de nós pode. Jesus sempre nos acompanha. Ele nos escolhe assim. Que essa graça nos conceda.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

“Nuestro senderito!”. O encontro do Papa com os jesuítas da Tailândia e do Japão - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV