Os Rohingyas e o Papa

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01 Dezembro 2017

Por fim o Papa, em Mianmar, não disse a palavra "Rohingya" em público. O Papa atendeu a uma solicitação dos bispos birmaneses, mas a sua escolha provocou reações negativas, a ponto de convencer a sala de imprensa a uma excusatio non petita. Não se chegou à fúria vingativa (e misógina) daqueles que, após ter canonizado Suu Kyi, agora a tratam pior do que Kissinger. Mas houve uma decepção, que evoca um precedente.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Papa Pio XII nunca proferiu a palavra "judeus".

O comentário é de Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, publicado por Repubblica, de 30-11-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Prisioneiro da diplomacia que ele bem conhecia e ajudara a construir, convencido de que a neutralidade fosse a ferramenta indispensável para permitir as negociações com todos e agir na ajuda de poucos, o Papa não disse a palavra que talvez pudesse iluminar as consciências. Ele não calou por sua própria conveniência ou da Igreja. Mas porque não entendeu que o Holocausto não era um capítulo da guerra, mas um crime de teor totalmente diferente. Aquele "silêncio sobre a atitude dos alemães" (palavras suas para Roncalli) é o precedente do que Francisco fez em Mianmar? Ao Papa faltou a coragem com que definiu o massacre dos armênios como "genocídio", usando um termo em si ambíguo, mas cuja omissão é a marca de negacionistas? Bergoglio, que ensinou a chorar sobre os cristãos perseguidos, calculou uma omissão de compaixão para com o proletariado muçulmano, que o exército - com a desculpa de reprimir os bandos de guerrilheiros islâmicos usados como gatilho e pretexto - perseguiu, atacou e massacrou?

A questão é esta: e a resposta é não. Não estamos diante de um "silêncio" de Francisco. Por uma razão muito simples. Francisco esteve lá, esteve no Mianmar das cem etnias e dos muçulmanos Rohingyas perseguidos. Não se limitou a apresentar um comunicado, mas deu ouvidos e voz para uma Igreja que é o único freio ao nacional-budismo – cuja orientação militar-religiosa prova que a infecção sanguinária que assombra os islãs não é peculiar da fé corânica ou dos monoteístas, mas é parte de um religious global warming que atinge a todos. Falando dos direitos de todos "sem exceção" tomou uma posição cristã, que fala muito também da Europa que dos seus "Rohingyas da casa ao lado", fechados em lagers líbios cujo horror vai pesar sobre quem os produziu e quem os ignorou, pouco se importa. Ele falou palavras de reconciliação e de paz, começando com os direitos humanos, que o papado digeriu com católica lentidão ao longo dos últimos dois séculos: e colocou aqueles direitos (dirigia-se para a China, obviamente) como um princípio que abre e dá suporte para as relações internacionais e não como um pretexto para fechá-las. Porque, como muitas vezes lembra Romano Prodi, em países isolados podem ser incubados mitos imperialistas que, caso nasçam, não passam rapidamente.

Francisco foi até lá não para falar ou para silenciar, mas para mostrar que a Igreja não está pedindo poder, nem mesmo o poder de mediar, em um canto do mundo cujos sofrimentos no Ocidente são percebidos com cínica intermitência, e onde ele nomeou dois cardeais inesperados. Nem Mianmar nem Bangladesh jamais tinham tido um cardeal: Francisco não os criou para aquelas desnecessárias figuras que se preocupam contando o número de cardinais por continente, por país, ou por efeito do bergoglismo, como se as lógicas do conclave fossem essas... Ele criou esses cardeais e os visitou para continuar a desenhar o seu mapa-múndi cristão. Aquele em que os países importantes são aqueles onde há mais necessidade de paz e de perdão. E que não passa por um vocabulário medido pelas exigências da opinião pública, mas pelo chamamento para realizar o ministério da reconciliação, pelo desejo de trazer a paz e o perdão, para implorar paz e perdão onde o Cristo pobre fala através das feridas e dos aprisionamentos de cada ser humano, qualquer seja a fé que professe, qualquer seja a etnia em que a estupidez racista o catalogue, "sem exceção".

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