Em meio à crise dos Rohingya, Francisco faz um pedido aos budistas de Mianmar: superar todas as formas de ódio

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30 Novembro 2017

O Papa Francisco chamou os líderes do clero budista de Myanmar, no dia 29 de novembro, para ajudar a nação de maioria budista, que está enfrentando clamor internacional pela perseguição da minoria de 600.000 muçulmanos rohingya, "a superar todas as formas de incompreensão, intolerância, preconceito e ódio."

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada por National Catholic Reporter, 29-11-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Apesar de o Pontífice não ter se referido especificamente aos rohingya no discurso aos 47 membros do Comitê Estatal Sangha Maha Nayaka, que regula as práticas dos cerca de 47 milhões de budistas Theravada do país, ele disse que os líderes religiosos têm a responsabilidade de promover o tratamento justo dos diferentes grupos numa sociedade.

"É responsabilidade particular dos líderes civis e religiosos garantir que cada voz seja ouvida, de tal modo que os desafios e as necessidades... possam ser claramente compreendidos e confrontados num espírito de imparcialidade e solidariedade mútua", disse o papa aos clérigos reunidos no Pagode Kaba Aye de Yangon, estrutura em espiral de ouro que sediou o último Conselho Internacional Panbudista, de 1954 a 1956.

Fazendo referência a uma conferência de paz iniciada pelo governo de Mianmar no ano passado para tentar negociar diferenças entre os 18 grupos étnicos reconhecidos do país, do qual os rohingya estão excluídos, Francisco pediu que o evento em curso "continue promovendo maior participação de todos os que vivem em Mianmar".

"Só se pode atingir a verdadeira justiça e a paz duradoura quando estiverem garantidas para todos", disse aos clérigos.

A fala de Francisco aos budistas aconteceu no terceiro dos quatro dias da visita de Francisco a Mianmar, que vai de 27 a 30 de novembro. Depois, o Papa segue viagem ao Bangladesh, para onde cerca de 600.000 rohingya fugiram para escapar da violência do exército de Mianmar, de acordo com a ONU.

Embora os defensores dos direitos humanos queiram que o pontífice confronte as autoridades de Mianmar sobre seu tratamento aos rohingya, os líderes das igrejas locais avisaram-no para se abster de mencionar especificamente os rohingya enquanto estivesse no país, por medo de represálias militares de Mianmar.

Num discurso de 28 de novembro à primeira-ministra de facto, Aung San Suu Kyi, vencedora do Nobel da Paz que agora está enfrentando fortes críticas internacionais, o Papa não mencionou os rohingya explicitamente, mas disse que o futuro do país deve incluir "respeito por cada grupo étnico e sua identidade", especificando: "sem excluir ninguém".

O Presidente do Comitê Estatal Sangha Maha Nayaka também não se referiu aos Rohingya em seu discurso, dando as boas-vindas a Francisco ao Pagode de Kaba Aye no dia 29 de novembro, mas condenou o terrorismo e a violência em nome da religião.

"Nós, os líderes das religiões do mundo, devemos ser bem resolvidos na construção de uma sociedade humana harmoniosa, seguindo os ensinamentos de nossas respectivas religiões", disse Bhaddanta Kumarabhivamsa, de acordo com uma tradução do Vaticano de seu texto birmanês.

"Todos nós devemos denunciar qualquer forma de expressão que incite o ódio, a falsa propaganda, o conflito e a guerra... e condenamos com firmeza aqueles que apoiam tais atividades", disse o monge budista.

Francisco e Kumarabhivamsa falaram um para o outro no pagode, rodeado por seus respectivos colegas; o Papa com seu séquito de bispos e sacerdotes, e o budista com seus outros membros do Comitê. Os grupos sentaram-se frente a frente numa sala comprida ornamentada por um tapete azul e uma estátua do Buda com luzes coloridas que piscavam atrás de sua cabeça.

Antes de entrar no pagode, o Papa tirou os sapatos, conforme o costume budista, mas foi autorizado a usar meias pretas em vez de ficar descalço como o clero budista.

No seu discurso, Francisco comparou um dos ensinamentos de Buda à oração da paz de São Francisco de Assis.

"Se é para estarmos unidos, como é nosso propósito, precisamos superar todas as formas de incompreensão, intolerância, preconceito e ódio", declarou o pontífice.

"Como faremos isso?", perguntou, antes de citar o Dhammapada, uma coleção de escritos do Buda. "As palavras de Buda guiam a cada um de nós: "Supera a raiva com a serenidade; supera a maldade com a bondade; supera a avareza com a generosidade; supera a mentira com a verdade.”

"Sentimentos semelhantes são expressos em uma oração atribuída a São Francisco", continuou o Papa. "'Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão”.

Cerca de 89% da população de Mianmar, de aproximadamente 53 milhões de pessoas, identifica-se como budista.

Kumarabhivamsa disse, em 29 de novembro, que seu grupo supervisiona cerca de 500.000 monges e 75.000 freiras.

O país iniciou um processo de reformas democráticas em 2015, após meio século de regime militar, mas as forças armadas ainda detêm um poder substancial sobre o país, como o controle de 25% dos lugares no Parlamento e nos ministérios da defesa, da ministério da administração interna e das relações exteriores.

O exército considera os rohingya, que vivem principalmente no estado de Rakhine, como imigrantes ilegais, ainda que vivam em Mianmar há gerações.

Francisco reuniu-se com o líder militar superior de Mianmar, o General Min Aung Hlaing, logo depois de chegar no país, em 27 de novembro. O porta-voz Greg Burke disse que Francisco e Min Aung Hlaing "falaram da grande responsabilidade das autoridades do país neste momento de transição".

No início do dia 29 de novembro, Francisco celebrou uma missa para a pequena comunidade católica de Mianmar.

Dando uma homilia para milhares de pessoas em um campo aberto em Kyaikkasan Ground, antiga área de polo e outros esportes no coração de Yangon, o Papa elogiou o trabalho da igreja local em ajudar as pessoas em Mianmar "independentemente da religião ou origem étnica".

O Pontífice refletiu sobre uma passagem do Evangelho de Lucas, quando Jesus diz a seus seguidores para não preparar defesas se enfrentarem perseguições, mas confiar na graça de Deus.

"Eu sei que muitos em Mianmar suportam as feridas da violência, feridas visíveis e invisíveis", disse Francisco. "A tentação é responder a estes machucados com uma sabedoria mundana que... é profundamente falha".

"Nós pensamos que a cura pode vir da raiva e da vingança", continuou. "No entanto, o caminho da vingança não é o caminho de Jesus. O Caminho de Jesus é radicalmente diferente. Quando o ódio e a rejeição levaram-no a Sua paixão e morte, Ele respondeu com compaixão e perdão."

Milhares de católicos de Mianmar viajaram por centenas de quilômetros para estar em Yangon, alguns inclusive a pé, para a primeira missa papal pública na história do país. Muitos tinham acampado durante a noite no campo pantanoso para reservar um lugar para a celebração.

James Theophilus, de Yangon, estava no meio da multidão com vários membros da sua família. Ele disse que chegaram juntos às 02:00 para pegar um lugar.

"Nós passamos fome para ver o Papa," disse Theophilus, mencionando que nenhum de seus ancestrais havia visto um papa pessoalmente. "Hoje, vamos ver o Papa! É muito, muito maravilhoso. Ele está vindo para visitar todos os povos pobres, todos os cidadãos birmaneses de todas as nacionalidades."

Uma mulher que se identificou como "Maria Pia" em inglês pouco fluente estava com a filha e dois netos. Em resposta a perguntas, ela dizia: “muito feliz, muito feliz”.

Francisco deve continuar sua visita em Mianmar na manhã do dia 30 de novembro, antes de seguir a Bangladesh no final do dia, onde irá visitar memoriais à independência do país e encontrar-se com o presidente Abdul Hamid.

O Papa retorna a Roma em 2 de dezembro.

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