No debate sinodal sobre padres casados, o Reno se lança no Amazonas?

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19 Outubro 2019

Em meados dos anos 1980, o franciscano brasileiro rebelde Leonardo Boff era o enfant terrible do movimento da teologia da libertação na América Latina e teve alguns célebres desentendimentos com o então cardeal Joseph Ratzinger, czar doutrinal do Vaticano com São João Paulo II e futuro Papa Bento XVI.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado em Crux, 18-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A certa altura, Ratzinger disse brincando sobre Boff que o seu problema era que ele “havia lido muita teologia alemã”.

Boff ficou indignado, insistindo que as origens da teologia da libertação estavam na experiência dos pobres latino-americanos, especialmente as comunidades de base, e que o movimento, portanto, era autóctone, e não uma importação colonial.

No entanto, Ratzinger inegavelmente tinha razão, porque Boff passou de 1965 a 1970, ou seja, os anos imediatamente posteriores ao Vaticano II, na Universidade de Munique, na Alemanha, estudando com o padre jesuíta Karl Rahner, um herói intelectual das forças progressistas de reforma do Concílio. Lá Boff também ficou sob a influência de outro teólogo católico alemão, Johann Baptist Metz, cuja “teologia política”, de certa forma, foi uma precursora do surgimento da teologia da libertação na América Latina.

Talvez a conclusão seja de que, assim como nenhum homem é uma ilha, nenhum movimento no catolicismo é puramente local. A Igreja Católica é universal; portanto, as ideias desenvolvidas em um lugar inevitavelmente têm impacto em outros lugares – mesmo que esses impulsos sejam sempre refratados por meio das experiências e prioridades de um dado lugar antes de se enraizarem.

Avancemos mais de 30 anos, até o Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, de 6 a 27 de outubro, e é possível fazer praticamente a mesma piada de Ratzinger de novo.

Consideremos quatro prelados no Sínodo que se pronunciaram a favor da ordenação dos viri probati, ou seja, homens casados de fé comprovada: o cardeal Claudio Hummes, do Brasil, relator do Sínodo; o bispo emérito Erwin Kräutler, de Xingu, Brasil; Dom Carlo Verzeletti, de Castanhal, Brasil; e Dom Eugenio Coter, de Pando [Bolívia].

Uma maneira de resumir isso é que quatro brasileiros são a favor dos padres casados. Outra maneira de dizer isso, no entanto, é que três europeus e um alemão étnico são a favor dos padres casados, já que Hummes é filho de pais alemães e estudou na Suíça, Kräutler nasceu na Áustria, e Verzeletti e Coter são italianos da Bréscia e de Bérgamo, respectivamente, ambas na Lombardia, uma antiga província do Império Austríaco ainda influenciada pela mentalidade teutônica.

De fato, como a Amazônia ainda é considerada um território de missão, é inevitável que clérigos e religiosos de várias partes do mundo desempenhem papéis importantes e tenham impacto em suas discussões. Como o Brasil contém a maior parte da Amazônia, e dada a forte marca alemã no Brasil, inevitavelmente isso significa que o catolicismo de língua alemã também tem um impacto especialmente forte na vida católica lá.

Em outras palavras, pode-se dizer que, assim como o Reno se lançou no Tibre no Vaticano II, nas palavras do título da controversa história de Ralph Wiltgen, também hoje o Reno se lança no Amazonas.

A ironia se soma ao fato de o Sínodo da Amazônia ter sido aberto sobre o pano de fundo da controvérsia em torno de um “caminho sinodal” aprovado pelos bispos alemães, envolvendo uma mesa redonda entre os bispos e o poderoso Comitê Central de Católicos Alemães, ou ZdK, a maior organização leiga do país, programado para começar no primeiro dia do Advento. Sua primeira sessão plenária está prevista para o fim de janeiro de 2020.

Esses planos têm sido polêmicos por causa dos temas previstos para a discussão, que incluem poder e autoridade na Igreja; a moral sexual; o sacerdócio, incluindo o celibato obrigatório; e o papel das mulheres. Os críticos conservadores temem que as posições progressistas prevalecerão, enquanto o Vaticano insistiu que, pelo fato de esses assuntos envolverem a Igreja universal, eles não podem ser decididos no nível local.

Na verdade, todos esses tópicos têm sido importantes no catolicismo alemão pelo menos desde o Vaticano II, e agora um deles – o celibato sacerdotal – também é uma questão para a Amazônia, em relação à qual alguns bispos e outras figuras que são eles próprios alemães ou influenciados pela Igreja alemã desempenham papéis importantes.

É interessante notar que, até hoje, sem dúvida, a decisão intraeclesiástica mais importante tomada pelo Papa Francisco foi a abertura cautelosa da Comunhão para os católicos divorciados e que se casaram fora da Igreja, em seu documento Amoris laetitia, de 2016, após dois Sínodos dos Bispos sobre a família, nos quais a contribuição alemã foi decisiva – talvez especialmente a do cardeal emérito alemão Walter Kasper, agora com 86 anos, que foi o primeiro a levantar a ideia em 1993, como bispo diocesano de Rottenburg-Stuttgart.

Agora, Francisco pode estar se preparando para tomar aquela que alguns considerariam como uma decisão igualmente importante, em favor de permitir um uso mais amplo dos padres casados na Igreja de rito latino. E, mais uma vez, os alemães estão na vanguarda. A esse respeito, vale lembrar que, quando Francisco discutiu a ideia dos padres casados em sua viagem de volta do Panamá em janeiro, ele citou um livro de Dom Fritz Lobinger, um bispo emérito alemão de 90 anos que passou sua carreira como missionário na África do Sul.

Falando em termos lógicos, é claro, as origens de uma ideia não têm relação com seus méritos intrínsecos. Os defensores de um sacerdócio casado na Amazônia apresentam argumentos tanto teológicos quanto práticos, e realmente não importa de que parte do mundo esses defensores vêm ou por quem são influenciados, para se poder avaliar quão convincente é o seu argumento.

No entanto, não há como negar a ironia de que o primeiro papa da América Latina da história, que atualmente preside um Sínodo sobre a Amazônia – o que pode sugerir uma ruptura com os debates e as polêmicas europeias que há muito dominam a Igreja –, está, no entanto, exatamente no meio deles, tanto no velho mundo quanto no novo.

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