Ordenação de homens casados como solução para a Amazônia? Uma voz discordante

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17 Outubro 2019

Pela primeira vez nos informes diários à imprensa feitos pelo Vaticano durante o Sínodo dos Bispos para a Amazônia deste ano uma voz discordante surgiu hoje, quarta-feira, para falar da ideia de ordenação de homens casados como forma de resolver a escassez sacerdotal na região.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 16-10-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

“Não vejo no celibato o obstáculo principal” para se ter mais padres, disse Dom Wellington Vieira, da Diocese de Cristalândia, no Tocantins, enfatizando que ninguém o nomeara porta-voz da assembleia sinodal, mas mesmo assim fez questão de acrescentar: “Acho que muitos no sínodo compartilham da minha opinião”.

“Com certeza, o maior problema é a nossa incoerência, é a nossa infidelidade, são os escândalos, a falta de santidade que, muitas vezes, por meio dos ministros ordenados, tornam-se um impedimento para que os jovens decidam seguir esse caminho”, disse o religioso.

“Temos que permitir que as pessoas possam ouvir o chamado de Jesus, e às vezes por causa das nossas ações elas ficam incapacitadas de ouvir”, disse Dom Wellington Vieira.

“Eu tenho a certeza que tendo uma vida santa, não terei falta de ministros ordenados em minha Igreja particular. Muitos jovens, com todas as ofertas do mundo contemporâneo, estão perdidos, procurando valores nos quais se apoiar”, continuou o bispo de Cristalândia, acrescentando: “Não posso acreditar que Jesus tenha perdido o seu poder de atração”.

O prelado brasileiro também trouxe uma outra dimensão do debate em torno da escassez de padres, que é o desequilíbrio na forma como estes estão distribuídos. Dentro dos países, disse ele, às vezes os padres não querem assumir os trabalhos em lugares normalmente considerados difíceis.

“Temos um problema com uma distribuição igualitária no nível local”, disse. “A falta de padres poderia ser mitigada se distribuíssemos melhor, mas às vezes nem sempre existe um espírito missionário, uma disposição para ir a regiões de fronteira e áreas difíceis”.

Reconhecendo que a questão de como resolver a escassez de padres e garantir que as pessoas tenham acesso aos sacramentos vem sendo discutida no Sínodo dos Bispos, Dom Wellington falou que “temos muitas ideias que são também diferentes”.

Contudo, o prelado de 51 anos afirmou que não tem havido desentendimentos no encontro.

“As pessoas acham que estamos discutindo ou brigando uns contra os outros, mas não é o caso”, disse ele, alegando que o sínodo está sendo marcado por um “ambiente muito fraternal de um respeito grande e mútuo”.

Os assessores oficiais do Vaticano, no entanto, se esforçaram em salientar, nesta quarta-feira, que os participantes não querem o que os debates fiquem centrados em alguns problemas específicos, e sim que querem focalizar o quadro mais amplo das temáticas.

“Olhamos para a árvore, não para os ramos”, disse Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, ao tentar expressar aquilo que descreveu como um sentimento comum dentro da assembleia sinodal.

“Estamos mais ou menos na metade do caminho, e o que surgiu ontem com bastante força é uma necessidade compartilhada por toda a assembleia, e nos pequenos grupos também: não focalizar os temas individuais que dividem o processo sinodal, mas identificar uma visão comum e unificada”, disse Ruffini.

Em seguida, Ruffini destacou vários temas gerais que, segundo disse, emergiram nos debates até o momento.

• A proteção do meio ambiente amazônico como parte da “casa comum” da humanidade, que leva a um chamado à conversão ecológica e denuncia os pecados ecológicos.

• A interculturalidade e o diálogo como partes-chave da missão da Igreja.

• O acesso aos sacramentos.

• A educação/formação do clero e dos leigos.

• Leigos e leigas.

• A migração, o despovoamento de áreas rurais e a vida nas cidades.

• Os direitos humanos.

O destino dos povos indígenas amazônicos foi destacado quarta-feira por Yesica Patiachi Tayori, agente pastoral do Vicariato Apostólico de Puerto Maldonado, no Peru, e especialista na língua e cultura do povo Harakbut.

“Os indígenas no sínodo são os guardiões da floresta, mas cuidar da nossa casa comum é responsabilidade de todos”, disse ela.

“Estamos com medo de perder os nossos idiomas, sermos extintos, sufocados por modelos de desenvolvimento que vêm de fora”, explicou Patiachi Tayori.

“Pedimos que o Santo Padre leve a nossa mensagem às autoridades internacionais, nos ajudando a não sermos extintos, respeitando os nossos costumes, as nossas tradições e os nossos idiomas, bem como o nosso direito de viver a autodeterminação”, concluiu.

Houve algumas palavras sobre o papel da mulher nos informes à imprensa dados nesta quarta-feira, com Dom Wellington Vieira e Dom Pedro José Conti, da Diocese de Macapá, destacando os papéis na linha de frente desempenhados por elas na região. Nenhum deles, no entanto, respondeu diretamente a perguntas sobre a possibilidade de mulheres ordenadas ao diaconato ou sobre a representação delas no próprio sínodo.

Finalmente, um jornalista do sítio LifeSite News perguntou sobre uma estátua indígena de uma mulher grávida nua exibida na cerimônia nos jardins do Vaticano pouco antes de a assembleia sinodal começar. O profissional de imprensa perguntou qual era precisamente o significado espiritual da estátua.

Ruffini disse que iria procurar mais informações sobre o assunto, porém respondeu dizendo que, a seu ver, era simplesmente uma estátua a representar a vida e que “procurar ver um símbolo pagão é ver o mal onde não existe o mal”.

O padre jesuíta italiano Giacomo Costa, que também tem ajudado nos informes diários à imprensa, falou que a sua impressão era a de que a estátua retratava uma “indígena que traz a vida e que representa a vida”.

“Penso que seja só uma figura feminina sem nenhum valor sagrado ou pagão”, disse ele, expressando um ceticismo com os que dizem que a estátua poderia ser também uma representação indígena da Virgem Maria.

Na quarta e na quinta-feira desta semana, os participantes do Sínodo dos Bispos estarão reunidos em 12 pequenos grupos de trabalho organizados por idioma, que estão divididos em cinco grupos espanhóis, quatro de língua portuguesa, dois italianos e um inglês/francês. É o segundo ciclo das sessões em pequenos grupos, com a ideia sendo a de produzir ideias para a comissão redatora que tem trabalhado sobre uma versão preliminar do documento final do sínodo.

Na quarta-feira, Ruffini informou que o Vaticano deseja divulgar cópias dos relatórios produzidos nos pequenos grupos na sexta-feira de tarde.

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