“A vida religiosa presta um serviço para abraçar a realidade dos pobres na Amazônia”. Entrevista com a Ir. Daniela Cannavina, Secretária Geral da CLAR

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04 Outubro 2019

A Confederação de Religiosos da América Latina e do Caribe nasceu há mais de 60 anos, a serviço da vida religiosa do continente. Atualmente, sua secretária geral é Daniela Cannavina, Argentina, da cidade de Rosario. Pertence à Congregação das Irmãs Capuchinhas de Madre Rubatto, que faz parte da ordem franciscana. Desde novembro de 2018, assume um serviço para o qual foi eleita em agosto do mesmo ano, em um papel de animação e coordenação das 22 Conferências de Religiosos da América Latina e do Caribe.

A entrevista é de Luis Miguel Modino.

A vida religiosa, especialmente a feminina, teve um papel fundamental no processo do Sínodo para a Amazônia, que neste domingo começa no Vaticano e dura até 27 de outubro. A irmã Daniela afirma que “a vida religiosa sempre esteve fortemente presente em lugares fronteiriços, nos setores em que a pobreza exige mais a nossa presença”, uma realidade visível na Amazônia.

Na qualidade de Secretária Geral da CLAR, foi nomeada auditora do Sínodo para a Amazônia, o que ela vê como "um grande desafio", especialmente "pelo simples fato dela não pertence à população amazônica", que exige em ela "entrar com responsabilidade e consciência na leitura, escuta, respeito, unindo-se a outras vozes para apoiar tudo o que possa surgir no contexto do Sínodo".

A religiosa argentina está ciente da importância do tempo pós-sinodal, algo em que a CLAR quer se envolver decisivamente, tendo planejado, em novembro, um Seminário Continental sobre Conversão Ecológica Integral, onde a retransmissão do vivido no Sínodo, que terá continuidade em outros Seminários em 2020, “com o desejo de procurar colaborar para assumir um novo estilo de vida", algo sempre presente na CLAR, que nos chama "a abraçar a hora profética".

Eis a entrevista.

Qual o papel do CLAR na Igreja da América Latina?

A Confederação Latino-Americana e do Caribe de Religiosos é um órgão internacional de Direito Pontifício a serviço da vida religiosa do continente. Comemoramos 60 anos de fundação e com uma característica muito particular: nascemos do fruto da reflexão teológico-pastoral da Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano de Medellín e em um contexto pós-Vaticano II.

Nesse momento particular do nosso processo de animação, nos encontramos acompanhando a vida consagrada, a partir da mística do texto do casamento de Cana, que assume como ícone inspirador do triênio 2018-2021 o seguinte lema: “Façam tudo o que Ele diga. Está na hora!” Acreditamos que existe uma hora profética à qual a vida consagrada deve responder e não podemos adiar o tempo.

Dentro de nossos objetivos, procuramos promover, incentivar e coordenar as iniciativas e bens comuns das 22 Conferências Nacionais de Religiosas e Religiosos. Respeitando sua legítima autonomia, da CLAR nucleamos todo o trabalho para influenciar a realidade evangelizadora de nossos povos. Nosso serviço promove a comunhão e a colaboração mútua entre as Conferências e com outras redes intercontinentais de serviço à Igreja, como o CELAM e o CIEC.

Em face deste Sínodo Amazônico, que já estamos vivendo como Igreja Universal, a Vida Consagrada e a CLAR em particular, ele tem um papel preponderante, uma voz profética, e quer levar como contribuição o sentir de nossos territórios e de nossas comunidades originarias de um profundo respeito pelo valor da vida em todas as suas formas.

A CLAR quer se juntar à linha programática do Papa Francisco, que combina o clamor da Terra e o clamor dos pobres em um único horizonte. Nessa mesma linha programática, como a Confederação, queremos abraçar a Terra e acolher o humano na realidade concreta de nossos povos amazônicos, que clamam com um gemido que deve ser ouvido e atendido. Lá queremos estar presentes como Vida Consagrada.

O que significa o papel de secretária geral do CLAR?

É um espaço de serviço muito importante, porque precisamente da Secretaria, em comunhão com a Presidência e todas as Secretarias Nacionais, a caminhada da Vida Consagrada está em sincronia com o Horizonte Inspirador da CLAR. Tentamos que ele seja recebido nas diferentes Conferências e, assim, convirja em comunhão de vida, em respostas transformadoras da realidade.

O que o processo do Sínodo para a Amazônia supõe para a CLAR?

Para a CLAR, realmente foi um momento muito importante. Juntamente com a REPAM, do qual a CLAR é cofundadora, decidimos caminhar assumindo todo o processo pré-sinodal, com uma presença importante da nossa irmã presidente, Liliana Franco.

A Vida Consagrada sempre esteve fortemente presente em lugares fronteiriços, nos setores em que a pobreza exige mais nossa presença testemunhal e ações efetivas. A Amazônia é um convite para abraçar a realidade de nossos povos, de suas visões de mundo, culturas, línguas, e de lá colaborar e promover uma vida mais abundante, na qual todos tenham um lugar.

A CLAR é a vida religiosa da América Latina e do Caribe e as congregações de religiosos e religiosas que fazem parte dela. Poderíamos dizer que a vida religiosa, especialmente a vida religiosa feminina, tem sido fundamental no processo sinodal Pan-Amazônico. Muitas religiosos se envolveram decisivamente nesse processo. Como isso pode ter um impacto na missão da vida religiosa na Amazônia?

Por si só, a vida religiosa feminina tem um papel muito importante em toda a realidade latino-americana e caribenha e, no nível amazônico, há um compromisso muito forte de muitas congregações. Em Quito, no ano passado, foi desencadeado um processo reflexivo muito importante, quando foi realizada a reunião das Mulheres Pan-Amazônicas, na qual eu pude estar presente em nome da CLAR. Confirmei a presença de uma vida religiosa que compartilha o dia a dia com os povos amazônicos, itinerante, que tenta promover e colaborar em tudo o que é necessário, vivendo com respeito à realidade territorial. O trabalho que elas fazem é admirável.

De fato, tanto na vida eclesial quanto na vida social, as mulheres têm um papel fundamental na vida das comunidades amazônicas. Poderíamos imaginar uma Igreja na Amazônia sem a presença de mulheres?

Não, de forma alguma, porque são precisamente as que realizam o movimento religioso em suas comunidades e a custódia da vida em todas as suas formas. Essas mulheres maravilhosas pertencem à terra, emergem das raízes da realidade amazônica e têm uma capacidade de empurrar e liderar que é verdadeiramente admirável. Fiquei muito emocionada por estar naquela reunião, a primeira como secretária da CLAR. Pela minha realidade e cultura argentina, me propus com uma atitude de escuta reverencial, porque nesta reunião de mulheres líderes da Amazônia eram elas que tinham a palavra e as que projetavam sonhar com uma nova maneira de ser Igreja. Decidi ser aprendiz e voltei extremamente edificada.

No Instrumento de Trabalho, no número 129, é reconhecida a importância das mulheres na vida da Amazônia e, dentro das sugestões, existem elementos que se referem à vida, papel e protagonismo das mulheres, falando sobre o papel da mulher. Como toda essa dinâmica sinodal pode ajudar a um maior reconhecimento eclesial de uma realidade que já está de fato sendo assumida?

No Sínodo haverá uma presença muito importante de mulheres. São os porta-vozes diretas de suas comunidades e de toda a realidade de sofrimento que a população amazônica está passando. A mulher, chamada a abraçar a terra e a acolher o humano, tem uma palavra de grande incidência e isso já vimos em reuniões anteriores que foram realizadas. O importante é que, na Assembleia Sinodal, elas tenham lugar e sejam ouvidas com respeito, que possam ter voz e ser porta-voz de muitas outras vozes da realidade que representam.

Foi convocada pelo Papa Francisco como auditora do Sínodo para a Amazônia. O que isso significa, o que significa ser capaz de representar a vida religiosa no Sínodo para a Amazônia?

Ser porta-voz da Vida Consagrada da América Latina e do Caribe é uma grande responsabilidade e um grande desafio. Isso me convida a intensificar a escuta da realidade em sintonia com o Evangelho e em profunda atitude de oração. A Vida Consagrada em uma atitude de saída, sente-se motivada a viver a "hora" profética e devemos encorajar tudo isso.

O Sínodo da Amazônia está dividido em três momentos: a fase preparatória, que está se encerrando, a assembleia sinodal, que começa neste domingo, e o pós-sínodo, que muitos definem como o momento fundamental e mais importante. Como a CLAR se posiciona diante disso para tentar trazer de volta as conclusões do Sínodo para a Amazônia?

Todo o percurso do movimento sinodal tem sido acompanhada desde o ano passado. Na última reunião do Conselho Diretivo que tivemos no Chile, foram criadas as chamadas Comissões de Serviço CLAR, uma das quais realizará um primeiro seminário continental para retransmitir o que foi vivido no Sínodo. O evento será realizado na Costa Rica, um dos países com maior biodiversidade da América Latina e do Caribe. Nesse primeiro seminário, espera-se uma grande participação da vida consagrada do continente. Outros seminários continentais serão adicionados no ano 2020, dos quais um será especificamente sobre a Vida Consagrada da Amazônia. Certamente teremos em mãos o documento final para reflexão.

O que pretende ser alcançado com tudo isso?

Estes Seminários são feitos com o desejo de buscar colaborar para assumir um novo estilo de vida, ajudar-nos a uma conversão necessária do coração, ecológica, espiritual, da centralidade evangélica, que gera hábitos de uma nova cidadania, na qual a ecologia integral é transversal de todas as nossas práticas.

Queremos renovar o convite à vida consagrada, para ela abraçar a centralidade do mistério da Encarnação, que permeia toda a realidade territorial. O Sínodo da Amazônia é um emergente, mas essa escuta dos povos originários atravessa toda a América Latina. Uma ação conjunta, um convite válido da CLAR, é ser mediadora de um vinho novo que pode percorrer nossas práticas diárias.

O Papa Francisco é religioso e é o primeiro Papa religioso em muito tempo, o último foi Gregório XVI, entre 1831 e 1846. O que isso significa para a vida religiosa, a vida religiosa sente-se mais contemplada agora com o Papa Francisco? A senhora acha que esse fato deu maior destaque à vida religiosa?

Deu maior destaque à vida religiosa. Não é apenas religioso, mas também pertence ao nosso contexto latino-americano. Nós nos identificamos com sua linguagem, com seu modo de pensar, com sua proposta e com seu retorno à centralidade evangélica, que é o que trabalhamos há tantos anos quanto CLAR. Ou seja, nos convida a voltar a opções mais profundas, especialmente a de promover uma Igreja pobre e para os pobres.

Essa escuta, que está sendo instalada, pelo Papa Francisco, como uma atitude muito presente na vida da Igreja, e que ajuda a conhecer os gritos dos povos, como pode ajudar nesse convite a ser uma vida religiosa mais profética?

A atenção constante é instalar em nossas práticas comunitárias, em nosso serviço pastoral e em nosso trabalho, a escuta, o diálogo e o discernimento. A vida religiosa está considerando uma ressignificação de suas estruturas para aprender a escutar a realidade e discernir qual é o nosso lugar hoje em resposta à realidade. Acreditamos que o processo de diálogo e discernimento é muito importante e a maioria dos institutos de vida consagrada, presentes em nosso continente, se entreolham dessa dinâmica. É aqui que nossa voz profética passa e queremos que seja uma contribuição para a escuta de nossos territórios e de nossos povos originários.

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