A Igreja prepara a resistência à fé do tipo “faça você mesmo” de Salvini

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08 Agosto 2019

O vice-primeiro-ministro Matteo Salvini não escolhe seus próprios símbolos por acaso. Isso foi demonstrado nestes últimos dias, com o agradecimento pela aprovação do decreto Sicurezza bis à Santíssima Virgem, com uma referência explícita a Nossa Senhora de Medjugorje. Este último é o santuário do sensacionalismo religioso, das aparições "com hora marcada" da Virgem, como se fosse uma estação ferroviária, sempre visto com suspeita e desconfiança pela Santa Sé.

O comentário é de Francesco Peloso, publicado por Lettera43, 07-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

E, no entanto, Medjugorje é objeto de um fluxo constante de fiéis que invocam as graças, que esperam a intercessão, milagres capazes de mudar por encanto existências que precipitaram em algum abismo; e assim alimenta um negócio milionário que realmente parece prevalecer sobre qualquer outro aspecto.

O vice premier tenta se tornar o intérprete e talvez o líder de uma fé do tipo “faça você mesmo”.

Salvini certamente não pode se referir aos Evangelhos, seria objetivamente grotesco, não chama em causa para as suas leis o Cristo crucificado e nem mesmo aquela Nossa Senhora que carrega no colo o filho morto depois de sofrimentos atrozes admiravelmente representado na Pietà de Michelangelo e ainda hoje visível na basílica do Vaticano. O vice premier tenta, em vez disso, se tornar o intérprete e talvez o líder de uma fé do tipo “faça você mesmo”, toda concentrada em um fervorismo passivo e submisso, feito de súplicas e aparições por controle remoto, distante anos-luz do evangélico “Eu era estrangeiro, vocês me acolheram”. É a igreja salviniana que vai das praias de Milano Marittima, onde as go-go dancers cantam o hino de Mameli como se fosse um hit de verão, até o santuário mariano localizado perto de Mostar, na Bósnia.

Salvini deu vida a uma contra-igreja

Salvini cultiva de tal modo a sua visão do conflito total que o contrapõe nesta temporada à Igreja de Roma e ao magistério do Papa Francisco, dá vida a uma contra-igreja em que o clericalismo é assumido pelos líderes políticos, e é hipócrita, tradicionalista, um pouco caricatural, mas popular e difundida; alimenta sua liderança - frágil na economia, nas políticas orientadas ao sul do país e até nos impostos - com símbolos simples e fortes, reconhecíveis pelo menos por uma parte do povo de crentes que talvez não frequente muito as paróquias, mas paga disciplinadamente a prestação da viagem da esperança para Medjugorje.

Por outro lado, se a Igreja se colocou como a única verdadeira oposição intransigente ao trabalho de um Salvini - no plano dos valores, das culturas, da ideia de sociedade, das relações entre os povos - o resultado foi consequente. O líder da Lega percebeu que a autoridade do pontífice podia e pode se tornar um problema, e tentou compor um discurso de tipo religioso, embora a seu modo. Também não deve ser esquecido, desta vez entre as preocupações do Vaticano, que Salvini, por assim dizer, não representa apenas a si mesmo, a Lega ou a Itália, mas nas ações e palavras do Ministro do Interior é possível vislumbrar a mesma partitura de Donald Trump, de Viktor Orban, de Jair Bolsonaro e assim por diante. Em suma, o desafio é global.

O ataque da CEI: "Os falsos profetas sempre existiram"

É nessa perspectiva que a Igreja, na Itália, está tentando convocar uma nova temporada de empenho, agora conscientemente diferente do passado, mas não por isso menos necessária. Para vários dos homens, mulheres, bispos e sacerdotes mais próximos do papa, é urgente dar vida a um novo "pacto dos livres e fortes", seguindo os passos de Sturzo, mas atualizado aos tempos.

No dia em que o decreto Sicurezza bis se tornava lei, o presidente da Cei, Gualtiero Bassetti, deu uma entrevista ao diretor do L'Osservatore Romano, Andrea Monda, última de uma série dedicada, não por acaso, ao papel dos católicos na sociedade italiana. "Os falsos profetas", disse o cardeal, "sempre existiram e sempre estarão. Esta é a condição e desafio do cristão de todos os tempos. Os símbolos religiosos valem apenas no contexto de uma fé vivida, caso contrário, são estéril ostentação”. Qualquer referência a fatos e pessoas reais é tudo menos casual, evidentemente.

A evocação de Aldo Moro como figura chave do pós-guerra

Com relação ao modelo que os cristãos devem procurar para se orientar no mundo contemporâneo e se empenhar contra injustiças e desigualdades, Bassetti respondeu: "Com toda a franqueza, bastariam cristãos autênticos: ao mesmo tempo mansos e revolucionários. A mansidão, porque recorda a fé e a sobriedade dos comportamentos. Ser revolucionários porque significa ir contra o espírito do mundo: egoísta, niilista, consumista e xenófobo”.

Neste mesmo contexto, o diretor do L'Osservatore Romano, evocou a personalidade de Aldo Moro, indicando-a como "figura-chave" da Itália do pós-guerra. Com ele foram lembrados outros líderes laicos e religiosos: Alcide De Gasperi, Giorgio La Pira e Paulo VI como Papa do Concílio Vaticano II e da encíclica Populorum progressio. Um panteão que não é novo, mas que definia como mestres para o presente e para o futuro algumas personalidades católicas – aliás, excluindo outras - caracterizadas pela retidão ética, pela coragem das escolhas, por visões de longo prazo que ultrapassavam os interesses partidários. Entre outras coisas, aceitava-se escolher uma parte da copiosa herança democrática cristã recebida como dote.

A igreja sente minadas as bases do popularismo católico

Ainda mais política, no tema do debate dos últimos dias, a intervenção de uma realidade de fronteiras como o Centro Astalli (seção italiana do Serviço Jesuíta para Refugiados), o organismo jesuíta que trata do acolhimento específico de refugiados, migrantes, requerentes de asilo, ou seja, o componente mais fraco e indefeso dos fluxos migratórios. Para o presidente do Centro, padre Camillo Ripamonti, "com a aprovação do decreto Sicurezza bis, escreve-se uma página sombria da história democrática da Itália".

"Enquanto o medo e o ódio são disseminados de propósito para alimentar a distração e a indiferença das massas", explicou o jesuíta, "atenta-se com surpreendente simplicidade ao coração de nossa Constituição, da nossa história, dos nossos princípios de civilização. As convenções internacionais e os direitos humanos são esmagados pelas normas demagógicas contra a solidariedade". Palavras não só extremamente duras e severas para serem pronunciadas por uma organização humanitária, mas que também indicam uma preocupação mais profunda e dramática: ou seja, que a própria Carta Constitucional esteja sendo rasgada neste tórrido verão italiano, e com ela uma parte fundamental do popularismo católico, da história política que a Itália moderna construiu.

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