Quem chama o Papa de herege? Artigo de Giuseppe Ruggieri

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13 Maio 2019

Cerca de vinte católicos, clérigos e leigos escreveram aos bispos para que acusem o Papa Francisco por heresia.

O artigo é de Giuseppe Ruggieri, teólogo, membro da Fundação para as ciências religiosas de Bologna, publicado por La Repubblica, 10-05-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Eu li, com um incômodo sentimento de mal-estar espiritual, a carta inicialmente assinada por cerca de vinte católicos, clérigos e leigos, e dirigida aos bispos, para que advirtam, por heresia, o papa Francisco. O incômodo tem várias razões. Vou tentar explicá-las.

A primeira é de natureza estética, como se um vândalo tivesse jogado um punhado de lama em uma bela pintura. No rosto doce de um velho papa, cansado, mas luminoso e tornado belo pela "alegria do evangelho", foram lançados cuspes mesquinhos por figuras parecidos com os sombrios inquisidores de um famoso filme de Dreyer. Quem alguma vez viu a Paixão de Joana d'Arc daquele diretor, nunca conseguirá esquecer o contraste entre o rosto limpo e sofredor de Renée Falconetti e aquele grosseiro e duro de seus juízes. É verdade que os inquisidores do Papa Francisco não pedem a fogueira, mas querem a sua renúncia pública.

A segunda razão é dada pela grosseria das acusações formuladas, em termos que não mencionam o que foi realmente dito pelo papa, mas o que deveria ser pressuposto pelo que o papa disse, escreveu ou fez. Esta é uma velha prática inquisitorial, infelizmente ainda não completamente abandonada pela igreja católica. Tudo gira em torno de três tópicos de acusação: a rejeição da condenação dos homossexuais, a admissão à Eucaristia dos cristãos divorciados, a justificação do pluralismo religioso.

Não faltam entre os signatários alguns teólogos profissionais. Para eles, mesmo que não a todos os signatários, é legítimo perguntar como conseguem passar por cima do cânon 8 do Concílio de Niceia sobre a comunhão aos digamoi, como ignoram o significado exato dos decretos tridentinos sobre a indissolubilidade do matrimônio e a consequente disciplina, que não implica a condenação da praxe nas igrejas ortodoxas, as quais preveem para os divorciados, de acordo com o princípio de "economia" (isto é, em termos orientais, da "misericórdia"), uma bênção especial (até o terceiro casamento "civil" e, para algumas igrejas, até mesmo para o quarto). E ainda cabe perguntar por que ignoram todo o alcance da doutrina de Trento sobre a Eucaristia que estabelece como, quando se participa com sentimentos retos à celebração do sacrifício eucarístico, Deus "apaziguado pela oferenda concede o dom e a graça da penitência e crimina et peccata etiam ingentia dimittit”.

A terceira razão é dada pela forma extremamente tosca da hermenêutica teológica implementada pelos signatários autodenominados de ortodoxos. Que as doutrinas da igreja tenham mudado, em continuidade substancial, não é um fato que possa ser questionado. E sabemos que, como em muitos outros casos análogos. os "vencedores" no Concílio de Calcedônia (451) foram "vencidos" no segundo concílio de Constantinopla (553). Que exista algo que mudou na disciplina da igreja, introduzida sob o papado do papa Francisco, é um dado igualmente incontroverso. E, dado importante, as pedras angulares de tal mudança foram aprovadas com a maioria qualificada de dois terços e mais de um sínodo episcopal. Mas pelo menos os teólogos deveriam saber que a continuidade ou a descontinuidade não se medem na relação direta entre doutrina e doutrina, entre disciplina e disciplina, mas a cada oportunidade na relação de cada formulação doutrinária ou medida disciplinar com o evangelho. Isto é, cada doutrina e cada disciplina devem, nas condições históricas sempre mutáveis, ser fiéis ao evangelho que permanece soberano na igreja. E, portanto, é grave ignorar a envergadura do Evangelho, que não está fechado na formulação doutrinal ou na lei disciplinar, mas "é poder de Deus para a salvação daquele que crê, do Judeu, primeiro, como do Grego. Nele se revela a justiça de Deus”.

Há também outras razões para o incômodo. Relendo os nomes dos signatários e procurando notícias a seu respeito na rede, descobri que a maioria deles fazem explicitamente referência a uma espécie de Internacional dos tradicionalistas, tanto no plano político como religioso, que sabemos bem fomentada economicamente por um certo sr. Bannon. Aqui o incômodo não é apenas aquele gerado por alguma específica sensibilidade teológica, mas toca outras fibras talvez mais delicadas, aquelas cristãs como tais e culturais de quem, nascidas nos anos 1940, até o fim da década de 1960, respirava o ar de uma humanidade, sujeita contra a sua vontade à vaidade, mas que não deixa de esperar que "a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus".

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