Concílio pan-ortodoxo: a mensagem mais importante é que ele aconteça

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14 Junho 2016

Deveria começar no dia 18 de junho, na ilha de Creta, o Concílio da Igreja Ortodoxa. Deveria. Porque, até o fim, não saberemos se se manterá o pacto que possibilitou a sua convocação e preparação. O Concílio dos ortodoxos é um evento epocal. Nunca, depois do cisma dos latinos em 1054, reuniram-se em concílio as Igrejas autônomas que reconhecem o primado de honra do Patriarca de Constantinopla e a interpretação bizantina do Concílio de Calcedônia.

A reportagem é de Marco Ventura, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 12-06-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Patriarcado Ecumênico, cuja sede ainda está lá, na atual Istambul, apostou muito no evento. Estão em questão a liderança patriarcal e pessoal de Bartolomeu, a sua visão da unidade cristã. O que está em jogo é a centralidade de Constantinopla e da continuidade com Bizâncio.

O lugar do Concílio, Creta, é altamente simbólico: a ilha está sob a jurisdição direta do Patriarcado Ecumênico. Como o Monte Athos, Creta é território governado por Constantinopla, conservado depois da independência grega, da queda do Império Otomano, da guerra greco-turca e dos êxodos que redesenharam o mapa da Trácia, da Ásia Menor, do Egeu e da Grécia toda.

Bartolomeu convidou para Creta os patriarcas em rigorosa ordem honorária. Acima de tudo, os de Alexandria, Antioquia e Jerusalém. Depois, o Patriarca de Moscou. Depois, os patriarcas e os bispos à frente das outras Igrejas ortodoxas da Sérvia, Romênia, Bulgária, Geórgia, Chipre, Grécia, Polônia, Albânia, República Tcheca e Eslováquia. As Igrejas reunidas em Concílio representam 90% dos cerca de 200 milhões de cristãos ortodoxos no mundo, pouco menos de 10% de todos os cristãos no planeta.

Dos cristãos representados no Concílio pelos líderes das 14 Igrejas, mais da metade, ou seja, cem milhões, pertence à Igreja da Rússia. O dualismo entre o patriarca ecumênico e o patriarca de Moscou domina a cena. O primeiro tem jurisdição direta sobre pouquíssimos milhões de fiéis, poucos milhares na Turquia, e deve se defender contra um governo turco capaz de hediondas prevaricações, por exemplo, anunciar a transformação de Igrejas em mesquitas ou em museus. Nos últimos anos, no entanto, a fraqueza de Constantinopla tornou-se a sua força. Isso aconteceu graças à independência do patriarca do governo, ao seu primado de honra livre dos ônus de outras Igrejas, à energia e à criatividade com que Bartolomeu tem interpretado o papel, tornando-se o "patriarca verde" que, por compromisso ambiental e fôlego teológico, antecipou a escolha católica de um Papa Francisco.

A forte fraqueza do patriarca aumentou a autoridade de Constantinopla e encorajou uma política de hegemonia doce na diáspora. O Fanar, o bairro grego de Istambul onde o patriarcado tem sede, poderia ser uma prisão: transformou-se em plataforma de lançamento. Enquanto outras Igrejas ortodoxas lutavam para chegar até aos próprios fiéis emigrados, o Patriarcado Ecumênico se reforçava nos Estados Unidos e na Europa ocidental.

Foi diferente a trajetória do patriarca russo. Fortalecido pelos seus 100 milhões de fiéis, pelo eixo com Vladimir Putin, pela influência sobre os ortodoxos búlgaros e sérvios, pela iniciativa em defesa dos cristãos perseguidos em terras árabes, o Patriarcado de Moscou tentou se elevar a verdadeiro líder da Ortodoxia mundial.

Tal ambição tem uma fragilidade própria. Corre o risco de ser muito política e pouco teológica, mais prepotente do que convincente, nacionalista demais e escassamente global. Assim, se Bartolomeu se tornou forte pela sua fraqueza, Kirill se tornou fraco pela sua força.

Quando o Concílio for realizado, se for, Bartolomeu e Kirill vão se abraçar. Por enquanto, enfrentam-se os dois herdeiros de uma história ortodoxa tradicionalmente polarizada entre a alma grego-bizantina e a russo-eslava. A tensão entre os dois homens e os dois mundos, as duas Igrejas, os dois povos e os lados relacionados tornou possível a convocação do Concílio. A mesma tensão está ameaçando, nestes dias, a sua própria abertura e manterá a todos com a respiração em suspense até o fim.

Então, será o próprio evento, o seu acontecer, o fato de ter acontecido, a mensagem mais importante. Pesa muito menos o que será discutido e decidido, que palavras serão usadas e quais serão descartadas. Moscou também poderá obter o redimensionamento do Concílio de que precisa para aplacar a frente conservadora interna. No entanto, se não houver um adiamento, se o Concílio "acontecer", só isso importará.

É muito recente, nesse sentido, a lição do encontro com Francisco no aeroporto de Havana. Poucos notaram a convergência em defesa da família tradicional. Muito poucos deram-lhe peso. Todos viram o abraço, o sinal de unidade, independentemente dos conteúdos. No entanto, os conteúdos importam, e como: as duas incertezas, sobre o próprio evento e sobre o seu conteúdo, se perseguem, condicionam a aproximação ao Concílio e vão marcar o seu desdobramento e a sua gestão ex post.

O site oficial publicou os documentos sobre os quais houve um consenso entre as Igrejas participantes. Em diversos fóruns, a discussão sobre os documentos foi rica. Os ortodoxos querem, acima de tudo, se encontrar na sua missão no mundo global, desejam compreender a própria multiplicidade e pô-la a serviço de um projeto de unidade. Ambicionam a se sentir parte de uma única Igreja ortodoxa e, como tal, a debater com as outras Igrejas.

Coerentes com o patrimônio teológico que expressam, os documentos são densos e articulados. O esforço teórico dos autores, bispos, teólogos, canonistas, leigos também, é indicativo da importância que o evento assume aos olhos das Igrejas. A tenacidade com que se persegue a convergência doutrinal tem a urgência de quem se sente interrogado pela história. O Concílio, de fato, se encarna nas convulsões do desafio geopolítico com que os ortodoxos estão se deparando. São três as questões em jogo, entrelaçadas, em tal desafio.

Acima de tudo, está o destino dos cristãos do Oriente depois da Primavera Árabe no inverno árabe e, mais em geral, a relação entre cristãos e muçulmanos: para populações ortodoxas que vivem como minorias em terras do Islã ou que têm o Islã às suas portas, para populações cuja história está cheia de confrontos e encontros com os seguidores do Profeta e que se deparam, todos os dias, a violência em nome de Alá, a questão é enorme.

Em segundo lugar, está o desafio russo. Ele vem de um governo de Moscou aliado dos xiitas iranianos, iraquianos e libaneses, e, por isso, convicto de ser o melhor protetor das pequenas Igrejas da região, dos cristãos sírios e dos palestinos presentes no Concílio, mas também dos armênios que não participam da comunhão bizantina.

É um governo mergulhado na crise ucraniana, isto é, na mais sangrenta guerra moderna entre ortodoxos e sob a pressão da frente ultraconservadora. Para os falcões, Putin e Kirill são dois cordeiros intimidados pelo Ocidente protestante e papista; para eles, o juiz russo do Tribunal de Estrasburgo deu uma piscadela, quando pediu que os colegas europeus condenem o celibato católico romano, fonte de perversão e pedofilia.

O desafio russo, por fim, é uma aliança entre trono e altar pelos verdadeiros direitos humanos, em nome dos quais se condena o casamento gay como uma abominação da qual é preciso proteger as crianças. Nada de adoções, combate-se a ameaça de uma sociedade dividida entre cis-sexuais e transexuais, castigam-se as Pussy Riot e nega-se cidadania legal às testemunhas de Jeová e aos cientologistas.

O terceiro desafio é o da ortodoxia globalizada da diáspora, dos dois milhões de ortodoxos alemães, do um milhão de ortodoxos italianos, do meio milhão de ortodoxos gregos australianos, do um milhão e meio de ortodoxos estadunidenses. Essa ortodoxia conserva tradições e as reinventa, abraça os direitos humanos ao ocidental e os contesta; está suspenso entre nações de origem, novos pertencimentos nacionais e identidade global. O desafio geopolítico é crucial, mas corre o risco de esmagar a perspectiva.

Os atentados turcos do fim de 2015 induziram Bartolomeu a renunciar a um Concílio de Constantinopla. Mas o significado que os fiéis dão ao Concílio vai muito além das bombas. A denominação oficial ajuda: "Santo e Grande Concílio". O Concílio é "grande" pelos espaços geográficos, políticos, históricos e humanos que abraça. Mas é sobretudo "santo", pela fé que o anima, porque nele opera o Espírito Santo, porque ele se planta na história sagrada.

Esta é a santidade do Concílio: fiéis comprometidos a conviver na diferença, Igrejas e os homens em busca de unidade, na esperança de que o exemplo ortodoxo ilumine um mundo dilacerado.

O Rev. John Chryssavgis, conselheiro teológico de Bartolomeu, disse que, como todos os concílios, o de Creta também é indispensável para a identidade da Igreja e para a unidade do mundo: nele, "o Evangelho transcende as fronteiras nacionais e os interesses políticos". Ao Concílio, recorrem as Igrejas, para que se renove o milagre de Pentecostes.

O evento

A abertura do "Grande e Santo Concílio" da Igreja Ortodoxa foi anunciada para o sábado, 18 de junho. Prevê-se que os representantes das 14 Igrejas autônomas convidados pelo Patriarca Ecumênico de Constantinopla à ilha de Creta trabalhem juntos até o dia 27 de junho.

O site oficial, www.holycouncil.org, conta o caminho que levou ao Concílio e publica os documentos preparatórios. Os textos aprovados por unanimidade pelas Igrejas dizem respeito à missão da Igreja Ortodoxa no mundo atual, à diáspora, à autonomia das Igrejas, ao jejum e às relações com o resto do mundo cristão.

Os ausentes

Não participam do Concílio as Igrejas ortodoxas que não reconhecem o Concílio de Calcedônia e, em particular, os coptas etíopes e egípcios, ao todo cerca de 45 milhões de fiéis no mundo, e os armênios, cerca de 10 milhões.

Também não fazem parte do Concílio ortodoxo as Igrejas católicas orientais, em comunhão com o papa de Roma, que reúnem cerca de 15 milhões de fiéis, e, em particular, melquitas, maronitas, coptas católicos, caldeus e siro-malabares da Índia.

Também não participam do Concílio as Igrejas greco-católicas da Europa centro-oriental, também elas em comunhão com o papa de Roma, e, em particular, as Igrejas "uniatas" dos ucranianos, cerca de cinco milhões de fiéis, e dos rutenos.

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