A Europa ainda é cristã? Entrevista com Olivier Roy

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14 Janeiro 2019

Olivier Roy é professor de ciência política no Instituto Universitário Europeu de Florença. Em seu último livro, o cientista político explica a relação complexa que a Europa tem hoje com o cristianismo.

A entrevista é de Isabelle de Gaulmyn e Jean-Christophe Ploquin, publicada por La Croix, 11-01-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Você é conhecido como especialista no islã político. Por que este livro sobre o cristianismo europeu?

De fato, minhas primeiras pesquisas focavam o cristianismo. Meu livro La Santa Ignoranza (A Santa Ignorância - em tradução livre -, Seuil 2008, Feltrinelli 2017) deu origem a muitos debates nos ambientes cristãos. Hoje na Europa se assiste a um movimento que enfatiza a identidade cristã para opô-la ao islã. Mas estou convencido de que o problema do islã, na Europa, seja a árvore que esconde a floresta: há tendências de longo prazo que remontam há muito antes de seu aparecimento. Não é o islã que esvaziou as igrejas, e os católicos na França não se manifestaram contra o islã, mas contra o casamento homoafetivo. Minha intenção é, portanto, descobrir o que corresponde àquela famosa "identidade cristã" europeia.

De fato, ainda se pode falar de uma Europa cristã?

A Europa continua a perceber-se como cristã. Mas a secularização levou a uma profunda descristianização. Desde 1968, a Europa experimenta uma importante mudança antropológica que separa profundamente os valores da sociedade daqueles do cristianismo. A verdadeira descristianização não é tanto o colapso da prática quanto a referência a uma nova antropologia centrada no desejo individual, totalmente contrário ao cristianismo. Por outro lado, e é o verdadeiro paradoxo, em todos os países, com exceção da Inglaterra, a maioria dos europeus continua a se definir cristã. Mas isso não tem mais nada a ver com fé. Pelo contrário, há uma total ignorância dos elementos básicos do cristianismo.

O discurso sobre a identidade cristã não seria um sinal de um retorno do religioso?

Minha tese é que aqueles que reivindicam para si uma identidade cristã sem se referir aos valores cristãos acelera a descristianização. Precisamente aqueles que querem promover as raízes cristãs não pregam absolutamente um retorno à fé, eles mesmos não são praticantes. Isso não tem nada a ver com a religião. Os defensores do populismo estão muito longe dos valores cristãos, eles também são filhos dos movimentos de 1968. O populismo de hoje não é um retorno à ordem moral. Se retoma elementos da cultura católica é para se opor ao Islã. Isso levou os episcopados, italiano, polonês ou alemão, a se distanciarem dos partidos que pediam, por exemplo, que fossem recolocados os crucifixos em lugares públicos. E, em definitiva, sua expulsão do espaço público como religião.

Mas a religião não precisa de uma relação com a cultura?

Sim. E hoje, a distância entre a comunidade de fé e a cultura é grande, é um divórcio. Bento XVI e João Paulo II foram muito claros sobre isso. E, no entanto, a Igreja Católica continua a valorizar essa relação entre cultura e fé. Hoje na Europa se vive uma crise cultural muito mais que uma crise religiosa. E algumas religiões, como o salafismo e o evangelismo, exploram essa desculturação geral. O divórcio da cultura é muito mais doloroso para o catolicismo. Diante dessa cultura que se tornou tão estranha para ele, seu problema é saber como se situar na sociedade.

Você indica três possíveis atitudes: o fechamento sobre si mesmo, a luta política ou o retorno a determinados valores.

A minha experiência italiana permitiu-me discutir com os responsáveis de comunidades católicas de leigos, como Sant'Egidio, os Focolares ou Comunhão e Libertação. Eles não negam ter se tornado uma minoria na Itália. Mas, e nisso seguem o ensinamento do Papa Francisco, explicam que o catolicismo deve parar de intervir no âmbito da normatividade, da lei. Em vez disso, deve proclamar em voz alta os valores.

A "reconquista religiosa" não é possível. Porque passaria por uma revisão das normas (aborto, casamento homoafetivo, etc.) e só pode fazer isso baseando-se nos populistas. Mas, como eu disse, estes últimos podem aceitar uma aliança estratégica, mas quanto às normas eles também são filhos dos 1968, e não voltarão atrás. Dizendo isso de forma mais cínica: a Igreja Católica não está mais em condições de impor a norma. Se a impuser, será com a intermediação dos populistas que desacreditarão a mensagem.

Em meu livro cito o padre Paolo Dall'Oglio que encontrei dois meses antes de seu desaparecimento e que me impressionou muito. Ele me disse: "Não devemos parecer como legisladores, devemos parecer como profetas". Os europeus precisam de referências morais. Eles não precisam de um guia. Estamos em uma sociedade em que não há mais debate sobre valores, mas apenas sobre normas, de maneira conflituosa. Mas o ser humano não pode prescindir de valores espirituais. Quando se esquece a transcendência do debate público, se corre o risco de ela voltar pela janela sob formas perigosas: niilismo (teoria apocalíptica, transumanismo) ou radicalismo religioso violento.

No final do livro, você defende a necessidade de que as sociedades europeias e os valores cristãos sejam reencontrados.

Precisamos repensar o projeto europeu em toda a sua genealogia. São na maioria os cristãos que fundaram a União Europeia. Não é uma questão de retornar a um cristianismo de fachada, mas a um determinado espírito do cristianismo. A Igreja deve retomar o magistério moral e não propor um programa para legisladores. Não deve fazer "lobby" político.

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