Bispo afirma a necessidade de um reexame total da fé e da cultura católicas

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02 Abril 2012

À luz da crise dos abusos sexuais, prelado australiano pede uma reformulação completa.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio do jornal National Catholic Reporter, 28-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

As raízes do escândalo decenal dos abusos sexuais do clero não se encontram em nenhum conjunto de regras ou de práticas, mas sim profundamente enraizadas na própria cultura da Igreja, disse o bispo australiano aposentado Geoffrey Robinson, no dia 28, em um debate na histórica Newberry Library, no centro de Chicago.

A "maior falha" da Igreja no escândalo, disse Robinson, é que ela "se recusa a olhar para qualquer ensinamento, lei, prática ou até mesmo atitude da própria Igreja, como uma contribuição, de alguma forma, à crise".

"Ao estudar os abusos, devemos ser livres para seguir o argumento onde quer que ele nos leve, ao invés de impor de antemão a limitação de que o nosso estudo não deve exigir mudanças em qualquer ensinamento ou lei", continuou. "Temos que admitir que pode haver elementos da 'cultura católica' que contribuíram tanto para os abusos ou para a fraca resposta dada a eles".

Intercalando o seu discurso com histórias pessoais de bispos e padres, Robinson falou sobre 12 áreas da cultura católica que, segundo ele, merecem uma "séria consideração" por seu papel na crise dos abusos, incluindo a nossa compreensão de Deus como um ser que frequentemente está irritado, e uma hierarquia que está propensa a uma "cultura de sigilo obsessivo".

Falando em uma breve entrevista com o NCR depois da palestra, Robinson disse que, se a Igreja quisesse convencer as pessoas de que está finalmente levando a sério os seus esforços para combater o abuso, ela deveria convocar um concílio especificamente para lidar com a crise.

A palestra do dia 28, apresentada por Richard Sipe, pelo padre dominicano Tom Doyle, pela juíza do Supremo Tribunal de Justiça de Illinois, Anne Burke, e por outros proeminentes católicos locais, faz parte de uma turnê de palestras que Robinson está fazendo em todo o país nesse mês. Cerca de 150 padres diocesanos, ex-vereadores e outros funcionários municipais e estaduais se reuniram para a palestra.

Robinson, que atuou como bispo auxiliar de Sydney de 1984 até sua aposentadoria em 2004, tem sido uma fonte de polêmica na Igreja ao menos desde 2002, quando ele pediu que o Papa João Paulo II encomendasse um estudo de escala eclesial sobre os abusos sexuais clericais de menores na Igreja.

Robinson começou a palestra mencionando a sua experiência entre 1994 e 2003 na presidência de uma comissão de bispos australianos encarregados de produzir uma resposta à crise dos abusos sexuais em seu país. Ele disse que o tempo passado nesse papel foi uma "experiência pessoal muito profunda".

"No fim", disse, "eu teria um profundo sentimento de desilusão com toda a resposta da Igreja, particularmente em seus níveis mais elevados".

Entre os outros aspectos da cultura católica que Robinson disse que contribuíram para a crise dos abusos estão o celibato obrigatório para os sacerdotes, a "mística" que alguns atribuem aos padres como estando "acima de outros seres humanos" e uma "infalibilidade crescente" dos decretos papais, que é usada para proteger "todos os ensinamentos em que uma quantidade significativa de energia e prestígio papais foi investida".

A aplicação do ensino da Igreja sobre a infalibilidade é uma "força importante para evitar que um papa faça admissões de que houve falhas graves no tratamento dos abusos", disse Robinson.

O Papa João Paulo II foi particularmente mencionado, sobre quem Robinson afirmou que "é preciso dizer que ele respondeu fracamente" à crise dos abusos sexuais.

"Com a autoridade vai a responsabilidade", disse Robinson. "O Papa João Paulo II muitas vezes afirmou a autoridade e ele deve aceitar a responsabilidade. A tarefa mais básica de um papa certamente é a ser a 'rocha' que mantém a Igreja unida e, pelo seu silêncio na crise moral mais grave diante da Igreja dos nossos tempos, o papa falhou em sua tarefa básica".

Referindo-se ao reconhecimento do Concílio Vaticano II sobre o "senso dos fiéis" e sua definição da Igreja como "Povo de Deus", Robinson disse que "é fato que o Povo de Deus como um todo nunca teria nos levado para essa bagunça em que nos encontramos, porque o seu sensus fidei teria insistido em uma resposta muito mais rigorosa e, ouso dizer, cristã".

"O papa e os bispos perderam credibilidade, e é apenas o Povo de Deus que pode restaurá-la para eles", afirmou. "Se a Igreja deve seguir em frente, essas dolorosas lições devem ser aprendidas, pois essa é uma questão em que deixar o Povo de Deus de fora foi positivamente suicida".

Ele disse que ainda há "um longo caminho a percorrer" antes que a Igreja possa "compreender totalmente" todas as causas da crise dos abusos. E se a Igreja ao menos fizesse um "ataque concertado" contra os fatores por ele mencionados, ela " finalmente seria vista combatendo verdadeiramente o abuso".

Revisão da sexualidade

No dia 16 de março, em Baltimore, o bispo pediu "um novo estudo sobre tudo o que tem a ver com a sexualidade" no VII Simpósio Nacional sobre Catolicismo e Homossexualidade.

Nessa conferência, Robinson pediu um substantivo repensamento do ensino da Igreja sobre a sexualidade, dizendo que, embora sua ênfase sobre o profundo significado do sexo seja correta, a sua abordagem da lei natural com relação à moral sexual e a sua interpretação das antigas passagens bíblicas sobre a homossexualidade e outras atividade sexual precisam de correção.

Em Baltimore, Robinson também se concentrou na questão da nossa percepção de Deus como um ser que está com raiva, dizendo que os ensinos sexuais católicos "fomentaram uma crença em um Deus incrivelmente zangado", que "condenaria uma pessoa a uma eternidade no inferno por um único momento não arrependido de prazer deliberado decorrente do desejo sexual".

No dia 28, Robinson expandiu essa noção de Deus, relacionando-a com a crise dos abusos sexuais, dizendo que ela "pode levar a uma atitude insalubre da sexualidade, sendo vista como algo sombrio, sigiloso e problemático".

Na crise dos abusos sexuais, essa atitude, disse Robinson, ajuda a "colocar a ênfase no pecado sexual contra Deus, e não na ofensa contra o menor abusado".

"A pedofilia, portanto, devia ser tratada exatamente da mesma forma que qualquer outro pecado sexual: confissão, perdão total e restauração ao estado anterior, e essa foi uma parte significativa da motivação para a prática de transferir padres de uma paróquia para outra", disse.

O livro de 2007 de Robinson, Confronting Power and Sex in the Catholic Church: Reclaiming the Spirit of Jesus, atraiu a ira dos seus colegas bispos na Austrália, que objetaram à sua turnê de palestras nos Estados Unidos em 2008 para falar sobre algumas das questões abordadas em seu livro.

Durante essa turnê, tornou-se público que o cardeal Roger Mahony, então arcebispo de Los Angeles, havia negado a Robinson a permissão para falar nessa arquidiocese. No que parece ser um movimento similar, uma carta da última segunda-feira do arcebispo de Detroit, Allen Vigneron, aos padres da arquidiocese pediu que eles não participassem da palestra de Robinson no dia 27.

"Eu gostaria de desincentivar a sua presença nessa apresentação e pedir que partilhem minhas preocupações com todos os que vocês conhecem e que estejam planejando ou levando em consideração o fato de participar", escreveu Vigneron na carta.

Falando brevemente depois da palestra do bispo, Burke, a juíza da Suprema Corte de Illinois, disse que ficou "muito satisfeita" com o evento, especialmente com o número de padres da arquidiocese de Chicago que participaram. Vários sacerdotes vieram, disse Burke, mas não usaram seus colarinhos clericais.

Depois da palestra de Robinson, também foram proferidos os discursos da irmã dominicana Barbara Reid, vice-presidente da União Teológica de Chicago, e de Brian Cones, editor-chefe da revista U.S. Catholic.

Em seu discurso, Reid, estudiosa do Novo Testamento, agradeceu Robinson pelo seu trabalho de confronto da noção de Deus como um ser que está zangado, dizendo que isso "tem efeitos muito nocivos" sobre os fiéis.

Encerrando sua palestra mencionando a exortação na leitura de quarta-feira do Evangelho de João de que "a verdade vos libertará" (João 8, 31-42), Reid agradeceu Robinson pela sua honestidade e disse: "Não temos nada a temer ao falar a verdade".

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