O Natal ferido dos ortodoxos divididos

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04 Dezembro 2018

A última festa patronal de Santo André (30 de novembro), celebrada todos os anos em Istambul pelo Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, desta vez teve como “convidado de pedra” a enxurrada de pressões e tensões político-eclesiais que estão eclodindo em torno do processo de constituição de uma Igreja Ortodoxa Ucraniana autocéfala, subtraída da jurisdição do Patriarcado de Moscou.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 02-12-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os últimos dias de novembro, em vista da festa patronal, registraram uma evidente aceleração dos processos de ruptura. Agora, salvo por milagres, os irmãos ortodoxos encaminham-se divididos ao encontro do próximo Natal. A fratura da comunhão eclesial não é mais apenas um fantasma ou uma ameaça, mas começa a se cristalizar.

A pressão de Poroshenko

O presidente ucraniano, Petro Poroshenko, nunca escondeu que a autocefalia da Igreja Ortodoxa Ucraniana se reveste de uma importância crucial no seu projeto político nacional e deseja que tal objetivo seja alcançado o mais rápido possível, talvez ainda antes do fim do ano.

Na quinta-feira, 29 de novembro, em um discurso na TV, Poroshenko disse que “o Estado ucraniano fez tudo o que podia e devia fazer para obter Tomos” (o documento com que o Patriarcado Ecumênico reconhece a autocefalia/independência da Igreja Ucraniana).

O líder ucraniano defendeu que as autoridades de Moscou – incluindo as dos serviços secretos – estavam “prontas para tudo” para frear o processo, “mas o Senhor está conosco, enquanto estamos travando uma luta justa pela nossa independência”.

Aproveitando a solenidade do momento, o presidente ucraniano também anunciou que o texto do Tomos “já foi aprovado”, e que o Patriarca Ecumênico Bartolomeu estava prestes a anunciar a data da assembleia de metropolitas e bispos dos diversos componentes ortodoxos ucranianos para realizar a sua “unificação”.

Antes da festa de Santo André, enquanto ocorria o Sínodo do Patriarcado Ecumênico, Poroshenko também havia enviado a Istambul o seu conselheiro Rostislav Pavlenko, diretor do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos, que, em 26 de novembro, foi recebido pelo Patriarca Bartolomeu e contou que teve com ele “uma longa e cordial conversa sobre os eventos na Ucrânia e os passos finais para chegar ao Tomos sobre a autocefalia da Igreja Ortodoxa Ucraniana”.

Depois, com palavras mais precisas e pacatas em comparação com os anúncios de Poroshenko, o seu conselheiro Pavlenko também explicou que o Patriarca Bartolomeu “entregará o Tomos para a autocefalia da Igreja Ortodoxa Ucraniana ao seu chefe quando ele for eleito. É por isso que o seu texto ainda não pode ser publicado neste momento”.

Confirmações de Bartolomeu

No dia 29 de novembro, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, recebendo em Istambul uma delegação interparlamentar internacional ortodoxa, também confirmou que o Sínodo do Patriarcado examinou e aprovou o estatuto da futura Igreja Ortodoxa Ucraniana autocéfala, e que a assembleia de unificação e de eleição do primaz da Igreja Ortodoxa Ucraniana autocéfala ocorrerá até dezembro.

O novo primaz ucraniano, assim que eleito, viajará para Istambul para receber o Tomos das mãos do patriarca ecumênico. “É um fato puramente administrativo que não influi no magistério da Igreja Ortodoxa”, explicou Bartolomeu. Mas a cúpula da Igreja Ortodoxa Russa não tem da mesma opinião. E a sua reação parece furiosa.

A loteria do “quem está com quem”

Os porta-vozes do Patriarcado de Moscou insistem que algumas das 14 Igrejas ortodoxas autocéfalas atualmente existentes manifestaram contrariedade e dúvida em relação ao processo iniciado para a concessão da autocefalia a uma Igreja Ortodoxa Ucraniana.

O patriarca sérvio Irinej e o de Antioquia, Yohanna X, ainda no dia 19 de outubro, tinham convidado o Patriarcado de Moscou e o de Constantinopla a reencontrarem o caminho do “diálogo fraterno”. Mais recentemente, em 12 de novembro, a assembleia dos bispos ortodoxos sérvios definiu como “canonicamente infundada” a decisão de Bartolomeu de restabelecer a plena comunhão com os dois grupos eclesiais ucranianos – liderados respectivamente pelo metropolita Filaret Denishenko (que desde 1995 assumiu o título de “Patriarca de Kiev”) e pelo bispo Makarij Maletic, chefe desde 1991 da chamada Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana – que até agora eram consideradas entidades cismáticas pelo resto da Ortodoxia.

Os bispos sérvios também pediram para abordar a questão da concessão da autocefalia em um novo Concílio pan-ortodoxo, depois do que foi realizado em Creta, em 2016, que tinha sofrido um imprevidente boicote por parte do Patriarcado de Moscou.

Em suas declarações midiáticas, os representantes da Ortodoxia russa dão por certo que os bispos e as comunidades da Igreja Ortodoxa Ucraniana ligada ao Patriarcado de Moscou não deixarão a jurisdição moscovita para se unir ao projeto da Igreja autocéfala ucraniana.

Até agora, entre os mais de 80 bispos da Igreja Ucraniana ligada a Moscou, apenas três manifestaram seu favor ao processo que visa a afirmar a autocefalia da Ortodoxia ucraniana. Entre os três, está o bispo Simeon de Vinnitsa e Bar, cuja escolha é contestada por padres e fiéis da sua diocese.

A estratégia da “duplicação”

Quando o Patriarca Bartolomeu reintegrou nos seus cargos Filaret Makarij, os chefes das duas Igrejas “não canônicas” consideradas cismáticas não só pelos ortodoxos russos, o Patriarcado de Moscou respondeu rompendo a comunhão eucarística com o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.

Desde então, a “questão ucraniana” superou o nível dos testes de força e das disputas de política eclesiástica, tocando níveis bem mais vitais. O sábio arcebispo Anastasios de Tirana, estimado primaz da pequena Igreja Ortodoxa da Albânia, deu-se conta disso, ao divulgar no último dia 23 de novembro – especialmente para protegê-las de qualquer instrumentalização partidária – as duas cartas que ele tinha enviado sobre a questão ucraniana ao patriarca russo Kirill.

Na primeira, escrita em 10 de outubro, Anastasios definia o projeto para garantir a autocefalia à Ortodoxia ucraniana como uma “marcha em um campo minado”, que, em vez de alcançar a unidade entre todas as comunidades ortodoxas ucranianas, poderia provocar a ruptura da unidade na Ecumene ortodoxa.

Na segunda carta, escrita no dia 7 de novembro, Anastasios expressava todo o seu consternado pesar pela decisão do Patriarcado de Moscou de suspender a comunhão sacramental com o Patriarcado Ecumênico.

“É impensável”, escreveu o primaz ortodoxo da Albânia, “que a Divina Eucaristia, o mistério por excelência do infinito amor e da total humilhação de Cristo, possa ser utilizado como uma arma contra outra Igreja.”

“Como é possível – acrescentou Anastasios – que a decisão e a ordem da hierarquia da Igreja da Rússia possam cancelar a energia do Espírito Santo nas Igrejas ortodoxas que operam sob a jurisdição do Patriarcado Ecumênico? Como é possível que a Divina Eucaristia administrada nas Igrejas da Ásia Menor, de Creta, da Sagrada Montanha e por toda a parte sobre a Terra possa se tornar inconsistente para os fiéis ortodoxos russos? E, se eles se aproximam com ‘temor de Deus, fé e caridade’ para compartilhar os Sagrados Dons, como é possível que eles realmente cometam um ‘pecado’, do qual alguém deveria até se confessar?”

A ruptura da comunhão sacramental entre o Patriarcado de Moscou e o Patriarcado de Constantinopla corre o risco de desencadear processos de dilaceração potencialmente irreparáveis. O Metropolita Hilarion de Volokolamsk está viajando por todo o mundo (Coreia, Creta, Grécia, mas também China, Coreia do Norte e Coreia do Sul) também com a intenção de fazer crescer uma rede pastoral global, que se reporte ao Patriarcado de Moscou e não tenha nenhuma partilha em nível sacramental com os bispos e as Igrejas ligadas à jurisdição do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.

Essa rede pastoral “russa” visa a se estender também aos países e àquelas áreas onde até agora os cristãos ortodoxos ligados ao Patriarcado de Moscou, na ausência de paróquias da Igreja Russa, frequentavam igrejas postas sob a jurisdição do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.

Um critério semelhante de “separação e duplicação” parece inspirar a cúpula da Igreja Ortodoxa Russa também nas relações com as outras Igrejas e instituições eclesiais. Enquanto durar a ruptura com Constantinopla, o Patriarcado de Moscou não participará dos diálogos e das relações que envolvem a Igreja Ortodoxa como um todo e em que o papel de representação e de coordenação é exercido pelo Patriarca Ecumênico ou pelos seus delegados.

O Patriarcado de Moscou parece querer consolidar relações bilaterais com a cúpula das outras Igrejas, começando pela Igreja de Roma. O metropolita Hilarion já cancelou qualquer outra participação russa no diálogo teológico conduzido há anos pela Comissão Mista Católico-Ortodoxa sobre os temas do primado e da sinodalidade.

Ao mesmo tempo, em fevereiro próximo, as delegações da Igreja Ortodoxa Russa e da Santa Sé realizarão visitas cruzadas por ocasião do terceiro aniversário do encontro entre o Patriarca de Moscou, Kirill, e o Papa Francisco, ocorrido em Havana em 12 de fevereiro de 2016. A intenção russa parece ser a de renovar, a cada ano, o envio cruzado de delegações oficiais entre o Patriarcado de Moscou e a Santa Sé, em concomitância com o aniversário do encontro de Cuba entre Kirill e Francisco, da maneira análoga com o que se repete a cada ano com o intercâmbio de visitas entre a Igreja de Roma e a Igreja de Constantinopla, por ocasião das respectivas festas patronais dos Santos Pedro e Paulo e de Santo André.

Em sua visita ao Fanar, em 30 de novembro de 2014, o Papa Francisco dissera que, para alcançar a meta da plena unidade com os cristãos ortodoxos, a Igreja Católica “não pretende impor nenhuma exigência, senão a da profissão da fé comum”. Segundo o papa, a retomada da plena comunhão entre católicos e ortodoxos já era possível na época, sem a necessidade de pedir aos irmãos ortodoxos pré-condições de caráter teológico ou jurisdicional.

Agora, precisamente por causa de questões e conflitos de jurisdição, a profissão de fé comum não parece mais garantir a plena unidade sacramental nem mesmo dentro das Igrejas ortodoxas. E, por outro lado, novamente, o caminho para a plena comunhão sacramental entre cristãos católicos e ortodoxos também parece ser (e se torna, objetivamente) mais difícil.

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