Jesuíta alemão diz que desprezo vaticano à liberdade acadêmica deveria gerar debate

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14 Novembro 2018

Reitor da mais importante escola de filosofia e teologia administrada pelos jesuítas na Alemanha, acusa as autoridades da Igreja em Roma de minarem a liberdade acadêmica e a pesquisa científica.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada em La Croix International, 13-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Pe. Ansgar Wucherpfennig – o jesuíta que o Vaticano impediu que continuasse como chefe de uma prestigiada universidade na Alemanha devido a suas opiniões positivas sobre os homossexuais – diz que o furor que a ação de Roma causou deveria levar a uma maior discussão sobre o ensino da Igreja sobre a sexualidade.

“Muitos teólogos se uniram em minha defesa e me apoiaram. Eles querem debater reformas (sobre esses assuntos)”, disse o Pe. Wucherpfennig em um artigo publicado no dia 25 de outubro no semanário alemão Die Zeit.

“Isso certamente deve estar claro para as Congregações romanas agora, especialmente porque eu não estou sozinho na minha crítica ao Magistério”, disse o padre de 52 anos.

Só veio à tona no mês passado o fato de que a Congregação para a Educação Católica havia decidido no início do ano não renovar a sua confirmatio do Pe. Wucherpfennig para um terceiro mandato como reitor da Escola de Filosofia e Teologia Sankt Georgen, administrada pelos jesuítas em Frankfurt.

A medida desencadeou protestos entre teólogos e até mesmo de alguns bispos na Alemanha.

Controvérsia

Acredita-se que a razão para a recusa do Vaticano de renovar o jesuíta em seu posto, que os alemães chamam de “caso Wucherpfennig”, foi uma entrevista a um jornal em 2016 em que Wucherpfennig expressou opiniões positivas sobre a homossexualidade, bênçãos a casais do mesmo sexo e ordenação de diáconas.

Mas o padre disse que não teve a oportunidade de responder pessoalmente à condenação do Vaticano a essa entrevista.

“Até agora, não. E eu nem sei se tal possibilidade está prevista nas regras romanas de procedimento”, disse Wucherpfennig.

“O comunicado prossegue por tantas instâncias e níveis diferentes. É por isso que estou tão frustrado. Certamente, não é possível que se levantem objeções contra mim, e, no entanto, eu só possa tomar uma posição mediada”, reclamou.

Ele acusou as autoridades da Igreja em Roma de minarem a liberdade acadêmica e a pesquisa ou o ensino científicos.

“Isso significa colocar as próprias posições e questões de pesquisa em conversação com os ensinamentos da Igreja e, consequentemente, reconhecer o Magistério. Mas, ao mesmo tempo, isso mostra os pontos que são dignos de crítica”, disse o jesuíta, argumentando que essa é a única maneira pela qual a teologia como ciência é concebível.

“Caso contrário, tudo o que teríamos a fazer é literalmente soletrar os sermões do papa”, disse.

O “desenvolvimento histórico” da teologia

Wucherpfennig observou que a teologia tem uma excelente reputação na Alemanha, mas disse que as posições da Igreja sobre a homossexualidade e a igualdade de gênero diferem consideravelmente daquelas mantidas por um percentual bastante grande da sociedade.

Ele argumentou que a questão agora é como a Igreja vai reagir a essas diferenças.

O padre disse que se trata de saber se ela quer se manter conectada com a sociedade e as suas instituições, ou se quer se retirar e se tornar pequena e descolada do mundo. Ele afirmou que as instituições teológicas deveriam buscar o público em geral.

“Nem tudo o que encontramos (nos Evangelhos) remonta ao Jesus histórico, mas foi escrito em um processo de tradição de aproximadamente 50 anos”, disse o Pe. Wucherpfennig. “Eu acho que é importante levar a sério os fundamentos da nossa fé, à luz do seu desenvolvimento histórico”, acrescentou.

Um compromisso possível?

Enquanto isso, a ilustre publicação teológica mensal alemã Herder Korrespondenz relatou que tentativas de negociação em torno do caso Wucherpfennig estão em curso.

Em um artigo de 24 de outubro, afirma-se que o Vaticano poderia estar preparado para reconfirmar um terceiro mandato do atual reitor impedido, se o Pe. Arturo Sosa, superior geral jesuíta, estiver disposto a assumir a responsabilidade pela ortodoxia de Wucherpfennig.

O Pe. Sosa é o grande chanceler da Sankt Georgen e, como tal, nomeia o reitor (que é eleito pelo corpo docente da universidade) assim que a Congregação para a Educação Católica dá o seu acordo.

A Herder Korrespondenz afirmou que fontes de alto nível indicaram que a Santa Sé estaria disposta a reduzir o conflito.

Mas, no dia seguinte (25 de outubro), o cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, disse ao site Domradio.de que não há nenhuma necessidade de que a Igreja mude a sua posição sobre a homossexualidade ou a igualdade de gênero, porque a sua posição é “a certa”.

Ele expressou preocupação com o fato que qualquer tipo de compromisso seria um compromisso “sujo”.

“A ordem jesuíta não pode assegurar a ortodoxia. O Pe. Wucherpfennig não é um servo da ordem dos jesuítas, mas uma pessoa independente. Ele deve assumir a responsabilidade pelo que ensina”, disse Müller.

A história se repete

Muitos veem o modo como o Vaticano está lidando com o Pe. Wucherpfennig como uma reminiscência da maneira como a Congregação para a Doutrina da Fé lidou com teólogos controversos nos anos 1990, quando a Congregação era liderada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, o futuro Bento XVI.

No caso do Pe. Jacques Dupuis, o futuro papa entrou em choque com o falecido cardeal Franz König, uma figura de destaque no Concílio Vaticano II (1962-1965) e ex-arcebispo de Viena. König defendeu Dupuis em 1998 contra as acusações da Congregação de que o jesuíta belga estava ensinando doutrinas errôneas ou pouco claras.

Quando Dupuis visitou König mais tarde em Viena para lhe agradecer pelo apoio vigoroso, o cardeal perguntou ao jesuíta: “Nunca houve qualquer tentativa de falar com você pessoalmente?”.

“Não”, respondeu o Pe. Dupuis com tristeza. “Não havia nenhum interesse pelo diálogo.”

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