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10 Abril 2018

"(Hermann Reimarus) considerava Jesus uma figura histórica, mais precisamente um agitador político, transformada post-mortem em divindade por seus seguidores, depois de ter roubado o corpo e criado a lenda da ressurreição. Assim, acabou nascendo a pergunta sobre o "Jesus histórico": é possível estabelecer quem ele foi e o que ensinou, fora da teologia e da fé?"

O artigo é de Marco Rizzi, professor de literatura cristã antiga da Università Cattolica del Sacro Cuore, de Milão, em artigo publicado por Corriere della Sera, 08-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Nos últimos meses terminou a tradução italiana de dois monumentais empreendimentos editoriais. Pela editora Paideia foi publicada a terceira parte do segundo volume de Gesù il Cristo nella fede della Chiesa (Jesus o Cristo na fé da igreja) de Alois Grillmeier, dedicado às Igrejas de Jerusalém e Antioquia de 451 a 600; e pela Queriniana foi lançado o quinto volume de Un ebreo marginale. Ripensare il Gesù storico (Um judeu marginal. Repensando o Jesus histórico) de John Meier, que examina as parábolas. Em ambos os casos, trata-se de milhares de páginas que permitem ter uma ideia do empenho intelectual intenso que persiste até o dia de hoje em torno da figura de Jesus Cristo.

Sua pessoa, de fato, pode ser considerada a partir de dois pontos de vista: na sua relação com a divindade e, inversamente, na dimensão de sua humanidade. Nos primeiros séculos, a reflexão dos seguidores de Jesus muito se perguntou sobre a relação entre os dois; a teologia cristã foi primeiramente, e por um longo tempo, uma "cristologia", ou seja, um discurso sobre a figura histórica de Jesus, proclamado Messias e Filho de Deus. O resultado dessa fase básica do pensamento cristão é representado pelo Concílio de Nicéia, em 325, onde foi sancionada a igualdade entre o Pai e o Filho, e principalmente pelo de Calcedônia, em 451, que afirmou a presença, em Jesus, da dimensão divina e daquela humana (as "duas naturezas"), sem que uma invalide a outra. De fato, o Concílio de Calcedônia também determinou a primeira grande ruptura teológica na tradição cristã, visto que algumas igrejas não aceitaram o léxico das "duas naturezas", preferindo expressões como “natureza divina encarnada” ou “união teândrica” (unidade entre Deus e o homem): são as igrejas chamadas "monofisitas", ainda hoje vivas, como o copta, a abissínia, a armênia e a siríaca.

Por longo tempo a copresença do aspecto divino e humano em Jesus não foi posta em questão, embora já autores antigos, como Agostinho, perguntavam-se sobre algumas incongruências presentes nos relatos evangélicos, como as diferenças na genealogia de Jesus entre Mateus e Lucas, ou ausência da instituição da Eucaristia em João, fornecendo respostas com base também em considerações de caráter histórico.

No clima racionalista do Iluminismo, no entanto, pela primeira vez os dois aspectos foram radicalmente separados pelo filósofo alemão Hermann Reimarus (1694-1768); ele considerava Jesus uma figura histórica, mais precisamente um agitador político, transformada post-mortem em divindade por seus seguidores, depois de ter roubado o corpo e criado a lenda da ressurreição. Assim, acabou nascendo a pergunta sobre o "Jesus histórico": é possível estabelecer quem ele foi e o que ensinou, fora da teologia e da fé?

A partir do século XVIII, os caminhos da história e da teologia cada vez foram se distanciando e nos anos 1930 o exegeta alemão Rudolf Bultmann (1884-1976) afirmou a impossibilidade de saber alguma coisa sobre o Jesus histórico, considerando que os escritos do novo Testamento não são fontes históricas, mas seu único exclusivo propósito é a proclamação da fé em Cristo ressuscitado: o Cristo da fé absorve e apaga o Jesus da história.

Em 1954, apareceram contemporaneamente o último dos três volumes comemorativos do Concílio de Calcedônia, em que Grillmeier ilustrava a doutrina cristológica e um ensaio de um aluno de Bultmann, Ernst Käsemann, que rejeitava as conclusões do mestre e defendia a possibilidade de abordar o Jesus histórico, graças a determinados critérios a serem aplicados na análise dos Evangelhos: por exemplo, podem ser atribuídas a ele ditos e ações que não derivam do contexto ou da prática da Igreja judaica; ou aqueles que resultam embaraçosos para os primeiros cristãos, como o batismo por João; tais ditos ou fatos seriam conservados justamente por remontarem ao próprio Cristo.

Incentivado por outros estudiosos de diferentes denominações cristãs, o jesuíta Grillmeier decidiu aprofundar a sua investigação sobre a antiga cristologia, reconstruindo o percurso antes do Concílio de Calcedônia (um volume em duas partes) e os desenvolvimentos decorrentes desse nas várias Igrejas cristãs, examinadas de acordo com um critério geográfico, até ao advento do Islã (os seguintes quatro volumes). No curso da redação, a obra foi traduzida do alemão em várias línguas, testemunhando o seu impacto ecumênico. Grillmeier, que participou como especialista no Concílio Vaticano II, foi nomeado cardeal em 1994 e morreu em 1998: a empresa foi continuada por sua aluna Theresia Hainthaler valendo-se dos estudos preparatórios deixados por Grillmeier, de modo que até mesmo os dois últimos volumes aparecem com o seu nome.

Por sua vez, o artigo de Käsemann relançou o interesse no Jesus histórico, e desde então se enriqueceu de inúmeras contribuições. Quem concordou em fechar o projeto no final da década de 1980 foi John Meier, um padre e professor na Notre Dame, dividindo-os por temas e em rigorosa conformidade com os critérios estabelecidos por Käsemann. O volume dos estudos foi tão grande que a empresa durou um quarto de século e conta com mais de 3.500 páginas na edição italiana; embora alguns resultados possam parecer redutivos - por exemplo, para Meier apenas quatro parábolas são certamente palavras de Jesus - no entanto, o homem de Nazaré ficou mais conhecido hoje do quanto consideravam possível Reimarus, Bultmann e seus seguidores. O Jesus da história e o Cristo da fé parecem assim menos distantes.

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