O "despertar" do papa às universidades católicas

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30 Janeiro 2018

A constituição apostólica Veritatis gaudium não representa – ou não representa apenas – a indispensável atualização das normas técnicas relativas aos currículos dos estudos ou aos mestrados das universidades católicas e das faculdades eclesiásticas. No proêmio do documento assinado por Francisco, está contida uma indicação que se espera que não passe despercebida e que não deixe de ser aplicada.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada por Vatican Insider, 29-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O papa chega a definir como uma “revolução cultural” aquela que espera das instituições acadêmicas católicas, infelizmente muitas vezes sonolentas. O sistema educacional universitário e pós-universitário ligado à Igreja Católica, de fato, deveria se tornar, escreve Bergoglio, um “providencial laboratório cultural” para ler e interpretar uma realidade em rápido movimento, como a do tempo presente.

A crise antropológica – com a perda do sentido de sacralidade da vida, a manipulação genética, a inteligência artificial que corre o risco de substituir o trabalho humano, o ressurgimento da xenofobia e do racismo, uma economia e uma finança que já dirigem a política ao invés de serem guiadas e voltadas apenas à acumulação de dinheiro – está ligada à grave crise ambiental que o nosso mundo está vivendo.

Os fenômenos migratórios e as inúmeras guerras (a “terceira guerra mundial em pedaços”, como o papa a chama), estão interconectados com as duas grandes crises mencionadas acima. O mérito da encíclica social Caritas in veritate, de Bento XVI, foi o de inserir a crise ética entre as emergências sociais, superando, assim, a divisão entre cristãos “do social” e cristãos “da defesa da vida”. O mérito da encíclica social Laudato si’, de Francisco, é o fato de ter mostrado a interdependência, as estreitas conexões entre as crises antropológica e ambiental.

Desde o início do seu pontificado, no rastro dos seus predecessores, cujo magistério social foi culpado e às vezes interessadamente ignorado pelo próprio mundo católico, o Papa Francisco apontou o dedo contra uma “economia que mata”, pondo em discussão o paradigma de desenvolvimento atual.

Esse modelo, capitalista e liberal quase apenas no nome, que também continua sendo considerado dogmaticamente intocável por inúmeros economistas e financistas da área católica, incapazes de reconhecer em algumas das suas ramificações aquelas “estruturas de pecado” às que se referia a encíclica Sollicitudo Rei Socialis, de João Paulo II.

Há cinco anos já, o atual sucessor de Pedro, reacendendo os refletores sobre páginas memoráveis e disruptivas do magistério social da Igreja (pense-se, por exemplo, na profética encíclica Quadragesimo anno, promulgada por Pio XI – papa certamente não suspeito de simpatias marxistas! – no dia seguinte à crise de Wall Street, que ilustra claramente a crise que vivemos, chegando a falar do “imperialismo internacional do dinheiro”), continua pedindo simplesmente que o atual sistema seja posto em discussão, por não ser mais sustentável e por estar certamente dedicado a levar o mundo para o abismo.

E eis que, hoje, o Papa Francisco investe de uma responsabilidade nova as universidades católicas, das quais, para dizer a verdade, já se esperava há muito tempo mais capacidade de reação, de projeto, de trabalho concreto para encontrar respostas úteis para interpretar e governar as mudanças em curso, fazendo com que elas não se voltem contra o ser humano, contra a vida, contra o trabalho, contra a construção de uma sociedade mais humana e mais justa.

“O problema – escreve Francisco no proêmio da constituição apostólica – é que não dispomos ainda da cultura necessária para enfrentar esta crise e há necessidade de construir lideranças que tracem caminhos. Essa tarefa enorme e inadiável requer, no nível cultural da formação acadêmica e da pesquisa científica, o compromisso generoso e convergente em prol de uma radical mudança de paradigma, antes – seja-me permitido dizê-lo – de uma corajosa revolução cultural.”

O papa não diz isto e não pode dizê-lo, mas o simples fato de ter que instar desse modo o mundo acadêmico ligado à Igreja atesta que, em muitos casos, universidades e centros de pesquisa não cumpriram sua tarefa mais autêntica. Universidades até mesmo com histórias ilustres se acomodaram a essa vida tranquila: pesquisadores e professores, às vezes, se mostraram mais interessados nas consultorias e em não incomodar ninguém, ao invés de serem capazes de elaborar ideias e projetos para o futuro. Certamente, não é o momento de procurar as responsabilidades para este eletroencefalograma plano que às vezes caracteriza instituições incapazes de reviverem seu passado glorioso.

Certamente, a responsabilidade não é apenas e não é toda das universidades, que correm o risco, mesmo sendo católicas, de se conformarem aos “vícios” que em geral caracterizam o mundo universitário: lobbies, baronatos, ascensões de carreira mais baseados nos pertencimentos do que no mérito.

Seria preciso reativar aquele círculo virtuoso que, durante o fascismo, levou uma geração de jovens estudiosos, leigos católicos, que gravitavam ao redor da Fuci e da Universidade Católica, a pensar o futuro da Itália, imaginando reformas institucionais e econômicas, e o desenvolvimento do Estado social.

Leigos que sabiam arriscar, acompanhados por lideranças excepcionais como Dom Giovanni Battista Montini, o futuro Paulo VI, o papa da Populorum progressio e da Evangelii nuntiandi.

As palavras de Francisco sobre a “revolução cultural”, portanto, representam um “despertar” para um mundo que deve estar na vanguarda do pensamento e do projeto de traduzir em propostas concretas o patrimônio da doutrina social. Um mundo, o das universidades católicas, chamado a saber ler aquilo que se move a partir de baixo nas nossas sociedades, para elaborar e indicar possíveis saídas da crise.

E precisamente essa tarefa, que o papa confia ao sistema educacional superior católico, representa uma extraordinária possibilidade também para o testemunho missionário da Igreja.

Nota da IHU-Online – A íntegra do documento, em português, pode ser lida aqui.

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